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Ex-chefe da Polícia Civil, agente que recuperou armas e 2º deputado mais votado do Rio: quem são os presos na operação da PF

De acordo com Relatório de Inteligência Financeira do Coaf, esquema movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos

Agência O Globo - 15/10/2026
Ex-chefe da Polícia Civil, agente que recuperou armas e 2º deputado mais votado do Rio: quem são os presos na operação da PF
Polícia Civil do Rio de Janeiro

A Polícia Federal (PF) prendeu um político e cinco policiais civis em uma operação deflagrada na manhã desta quinta-feira. A ação faz parte da oitava fase da Operação Unha e Carne e visa desarticular uma organização criminosa suspeita de usar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio como estrutura para lavar dinheiro. Entre os presos estão o ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito Márcio Canella, o ex-chefe da Polícia Civil Marcus Amim e outros quatro policiais civis. De acordo com Relatório de Inteligência Financeira elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), enviado à PF, o esquema movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos. Entenda quem são os investigados.

Operação Unha e Carne:

Investigação:

Irmãos Gaspar

Foram presos na operação desta quinta-feira o inspetor da Polícia Civil Christiano Gaspar Fernandes e seu irmão, também inspetor, Giovanni Gaspar Fernandes. Segundo a investigação da PF, eles aparecem em registros manuscritos de pagamentos frequentes que, segundo a PF, podem ter origem em atividades criminosas. Os dois irmãos são identificados pelo codinome “Meninos” em planilhas que registravam a distribuição de dinheiro proveniente da rede de postos de combustíveis.

Enquanto Amim esteve à frente da Polícia Civil, entre 2023 e 2024, Christiano trabalhava na Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), onde ocupava o cargo de chefe de investigação. Ele participou da recuperação de oito metralhadoras desviadas do Exército em São Paulo, encontradas em outubro de 2023 em uma área dominada pelo tráfico na Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio.

Na época, a apreensão foi polêmica por causa das circunstâncias em que o armamento foi encontrado: as armas estavam enroladas em plástico preto e haviam sido abandonadas em um carro que saíra da Rocinha, na Zona Sul da cidade. Na ocasião, foi levantada a suspeita de que a equipe policial teria negociado a entrega das armas com o Comando Vermelho (CV). Essa hipótese, no entanto, nunca foi comprovada.

Segundo a DRE, as metralhadoras circularam por diversas favelas antes de serem apreendidas, passando pelo Complexo da Penha e pela favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, ambos na Zona Norte do Rio. Antes de serem encontradas na Gardênia Azul, estavam na Rocinha.

A versão apresentada pela equipe policial era de que o carro que transportava as metralhadoras no porta-malas foi seguido pelos agentes após sair da Rocinha. Já na altura da Gardênia Azul, os criminosos teriam percebido a presença dos policiais da DRE e abandonado o veículo com o armamento.

Após a mudança no comando da Polícia Civil, Christiano e sua equipe deixaram a delegacia. Posteriormente, ele assumiu o cargo de secretário municipal de Ordem Pública de Belford Roxo. Segundo a investigação, ele teve papel central no esquema de lavagem de dinheiro desviado da prefeitura. A PF ainda não esclareceu qual era a função específica do irmão dele, Giovanni Gaspar Fernandes, que estava lotado na 44ª DP (Inhaúma).

Márcio Canella

Canella é apontado pela PF como o principal articulador político da organização criminosa, fazendo a ligação entre o poder público, a rede de postos de combustíveis e os grupos armados. Segundo a investigação, Canella teria articulado a indicação de Marcus Amim para a presidência do Detran-RJ e, depois, para o comando da Polícia Civil. Para isso, teria atuado na aprovação de uma mudança na legislação da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Ele também é apontado como destinatário de grandes quantias em dinheiro e dono de bens de luxo que teriam sido comprados com recursos de atividades criminosas.

A trajetória política de Márcio Canella (União Brasil) começou em 2012, quando foi eleito vereador de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Dois anos depois, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Em 2016, foi eleito vice-prefeito daquele município e, em 2018, voltou a se eleger deputado estadual. Posteriormente, chegou à Câmara dos Deputados, em Brasília.

Em 2024, Canella foi eleito prefeito de Belford Roxo, mas renunciou ao cargo no início deste ano com o objetivo de disputar uma vaga no Senado pelo Rio. Em agosto, contudo, anunciou nas redes sociais que havia desistido da candidatura ao Senado e que tentaria retornar à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Na eleição realizada no início de outubro, terminou como o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro.

Quando era prefeito, Canella causou polêmica ao postar vídeos nas redes sociais em que denunciava milicianos de Belford Roxo. Em um deles, afirmou que os paramilitares montaram um esquema para cobrar taxas via Pix de moradores. Ele disse ter recebido denúncias de comerciantes. Segundo Canella sustentou à época, os criminosos estariam distribuindo cartões com o número para o dinheiro ser depositado. Ele declarou ainda ter denunciado o caso ao Ministério Público do Rio e à Polícia Civil.

Marcus Amim

Amim é apontado pela investigação como o responsável por garantir proteção policial à organização criminosa. Segundo a investigação, ele teria usado os cargos de comando que ocupou no Detran-RJ e na Secretaria de Polícia Civil para proteger as atividades do grupo. Também é apontado como sócio de pessoas que teriam emprestado seus nomes para esconder os verdadeiros donos dos negócios.

Natural de Niterói, Marcus Amim é formado em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde concluiu a graduação em 2003. Por sua atuação na polícia, recebeu, em 2018, a Medalha Tiradentes, concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Em 2021, foi agraciado com a Medalha José Clemente Pereira, da Câmara Municipal de Niterói.

À frente da Polícia Civil entre outubro de 2023 e setembro de 2024, Amim chegou ao cargo após uma articulação política entre o então governador Cláudio Castro e o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar.

Para que Amim pudesse assumir o cargo, a Alerj aprovou às pressas um projeto que alterou a Lei Orgânica da Polícia Civil. A mudança permitiu que a corporação fosse comandada por delegados com 15 anos de atuação na instituição, inclusive em outros cargos. Antes, a legislação previa que o chefe da Polícia Civil tivesse 15 anos no cargo específico de delegado.

Amim foi exonerado do cargo de chefia da polícia em setembro de 2024, quando foi substituído pelo delegado Felipe Curi.

Pablo Russo

Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, é inspetor da Polícia Civil do Rio e suspeito de participar do esquema de lavagem de dinheiro investigado pela Polícia Federal. Ele também é acusado de utilizar a esposa como “laranja” para movimentar recursos em benefício da organização criminosa.

Segundo a PF, a esposa de Pablo Russo e a de José Carlos Alves de Souza Júnior administravam, ao menos formalmente, um conglomerado de cerca de 80 empresas, entre postos de combustíveis em atividade e firmas inativas. De acordo com a investigação, havia uma divisão de tarefas no esquema: os policiais garantiam influência e proteção, enquanto as esposas emprestavam seus nomes e CPFs para figurar nos registros empresariais.

Pablo Russo também foi citado em outra investigação. Em 2021, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) deflagrou uma operação contra uma organização criminosa suspeita de fraudar o transporte de combustíveis, causando um prejuízo estimado em R$ 1 bilhão. Na ocasião, o inspetor foi mencionado em uma interceptação telefônica na qual integrantes do grupo conversavam sobre postos de combustíveis.