RJ em Foco
Prefeitura vistoria casarão onde morou Carmen Miranda após denúncia de que local virou ponto de acesso para furtos
Gestor de centro cultural vizinho diz que espaço foi invadido no começo da semana, resultando em prejuízo de cerca de R$ 20 mil.
Salve Carmen! era o nome de uma exposição e campanha, organizada por instituições vizinhas, para homenagear a cantora Carmen Miranda e chamar a atenção para o mau estado de conservação do casarão onde a artista viveu com a família entre 1925 e 1931, no número 13 da Travessa do Comércio, no Centro do Rio. A iniciativa, que teve início no final de 2024, surgiu logo após o segundo desabamento de parte do telhado que denunciou a deterioração do imóvel. A faixa com a frase ainda está lá presa no tapume, mas parece que nunca foi lida, pelo menos pelos que poderiam fazer algo pelo lugar. A estrutura de proteção também demonstrou ser ineficaz, já que a vizinhança denuncia que o imóvel em ruínas é constantemente invadido e está servindo de acesso aos prédios adjacentes.
— Ocorreram mais de cinco furtos na vizinhança somente este ano — denuncia Drean Moraes, sócio e diretor executivo do Centro Cultural Lado B.
A instituição gerida por Moraes é um projeto de arte independente que reúne artistas periféricos e fica ao lado do casarão onde viveu a Pequena Notável. O centro cultural foi a vítima mais recente de uma invasão, conforme noticiado no blog do jornalista Ancelmo Gois, de O Globo. O gestor relata que o espaço foi acessado na madrugada de segunda-feira por alguém vindo do imóvel vizinho, que furtou diversos objetos, incluindo um aparelho de ar-condicionado recém-instalado, que havia sido colocado três dias antes.
Imagens gravadas por comerciantes mostram que um dos tapumes que protegia a fachada do sobrado — tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) — foi danificado, e o entra e sai de pessoas em situação de rua e criminosos tornou-se frequente. Na manhã desta quarta-feira, após a publicação da nota, uma equipe da prefeitura, com o apoio de um policial militar do 5º BPM (Praça da Harmonia), vistoriou o local e não encontrou ninguém dentro do imóvel.
— O subprefeito (do Centro) Alberto Szafran recebeu a denúncia de que o casarão havia sido invadido e pediu que programássemos uma operação de vistoria com a ajuda da Seop e da PM — disse José Anastácio, gestor-executivo do Centro, que liderava a equipe composta por agentes da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop). — Vamos providenciar um novo fechamento do acesso ao imóvel. Equipes técnicas estudarão a melhor forma de proceder.
As imagens revelam que, por uma brecha, invasores conseguiram acessar o prédio do Lado B, de onde levaram ferramentas de trabalho, os cabos da instalação do ar-condicionado, além do próprio aparelho. Algumas obras de arte do acervo também foram retiradas do local, mas acabaram abandonadas no meio do caminho durante a fuga dos suspeitos. O prejuízo contabilizado é de cerca de R$ 20 mil. Outra hipótese levantada é de que os invasores entram no casarão em ruínas por cima, escalando andaimes que sustentam suas paredes.
— É uma situação horrível. Temos o problema desse casarão em ruínas, além de outro que foi demolido. Os donos abandonaram ambos. Soube que foram integrados pela prefeitura, que nada fez. Eles estão escorados por andaimes fáceis de escalar — reclamou o gestor do Lado B.
O mau estado de conservação do imóvel tornou-se evidente no final de 2024, quando perdeu parte do telhado após um desabamento pela segunda vez no mesmo ano. A equipe do GLOBO entrou no prédio nesta quarta-feira e constatou que nada mudou. No interior do prédio, de três pavimentos, há muita sujeira e entulho. Espalhados pelos cômodos, é possível ver materiais empilhados, como telhas, madeiras e tijolos.
Moradia da Pequena Notável
Carmen Miranda morou com a família no sobrado em 1925. Na época, sua mãe mantinha uma pensão, com a qual ajudava a sustentar a família. O imóvel chegou a abrigar um restaurante com karaokê chamado Carmen Miranda House in Club, repleto de fotos da artista. Numa das paredes do terceiro pavimento, ainda está fixada uma lista com os preços de produtos comercializados ali, como cervejas, refrigerantes e drinks.
A cantora, portuguesa de nascimento, mas ícone de brasilidade, frequentou as proximidades da Praça Quinze, onde trabalhou em lojas de chapéus femininos e de artigos masculinos, quase em frente à Confeitaria Colombo. Em entrevista ao GLOBO em 2015, o escritor Ruy Castro recordou suas vivências na região.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou nesta quarta-feira que, após o primeiro desabamento de parte do telhado do imóvel em junho de 2024, autuou o proprietário com base na Portaria nº 187/2010, exigindo que fossem adotadas as medidas necessárias para corrigir os riscos estruturais identificados. Posteriormente, segundo o órgão, foi firmado um Termo de Compromisso, no qual o proprietário assumiu a responsabilidade pelos danos e se comprometeu a realizar os reparos necessários.
O Iphan informou, ainda, que em março deste ano aprovou o projeto de intervenção no imóvel. De acordo com o Termo de Compromisso, o prazo para a execução das obras de restauro, a serem realizadas pelo proprietário, é de até 12 meses a partir da aprovação do projeto. "Cabe enfatizar que o proprietário deve solicitar o alvará de obras junto aos órgãos competentes, uma vez que a emissão desse documento não é atribuição do Instituto", diz a nota. O Iphan também ressalta que sua equipe técnica realiza vistorias periódicas nos imóveis localizados na Travessa do Comércio.
O casarão foi adquirido em 2011 pela Arilucas, uma empresa do setor imobiliário ligada ao advogado Alexandre Barreira. O GLOBO fez contato com uma filha de Barreira, que informou não estar autorizada a comentar sobre o imóvel nem a fornecer o contato do pai.
Procurada, a Polícia Civil informou que, até o momento, não houve registro do furto ao centro cultural. "A Polícia Civil orienta que todos os casos sejam registrados para que possam ser investigados individualmente e para que seus autores sejam identificados e responsabilizados criminalmente", diz a nota.
A prefeitura também foi contactada, mas não respondeu até o momento.
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