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Casarão no Centro que poderá virar bistrô guardou por anos documentos históricos da Ordem Terceira da Penitência
Instituição religiosa está em busca de investidores interessados em restaurar o espaço que integra o conjunto arquitetônico do Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca
O telhado já foi embora faz tempo, mas os azulejos trabalhados, o piso hidráulico, as janelas em arabescos e até um cofre forte inglês com pesadas portas de ferro ainda estão lá como testemunhas de uma época de glória. Mesmo castigado pelo tempo, o casarão histórico em estilo art nouveau, onde funcionou a antiga secretaria da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, que integra o conjunto arquitetônico do Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, guarda resquícios da beleza e imponência de um passado que agora busca resgatar.
A ordem religiosa está em busca de investidores interessados em restaurar o espaço, que deve ser explorado como bistrô, conforme antecipou o blog do jornalista Ancelmo Gois, de O GLOBO. A negociação está a cargo da Sérgio Castro Imóveis, que prevê um investimento entre R$ 2 milhões a R$ 3 milhões por parte de quem arrendar o local. Além do imóvel bastante degradado por décadas sem uso, o lugar ainda conta com um amplo jardim suspenso de cerca de mil metros quadrados, que se debruça sobre o Largo da Carioca, e que também faz parte desse projeto de restauração.
O mesmo deve acontecer com a fonte que há no local e um elevador que facilita o acesso do público ao restante do conjunto arquitetônico em outro nível do terreno, que inclui o convento e a igreja de ouro. Esta última guarda tesouros do barroco brasileiro ainda desconhecidos por muitos cariocas e turistas que passeiam pela cidade. Além de atrair mais público para o lugar, um dos objetivos é aproveitar a revitalização da Rua da Carioca, que ganhou nova vida com a chegada das cervejarias.
— A ideia é reativar para o público, para que as pessoas possam frequentar. Você está de frente para Carioca, as pessoas às vezes querem almoçar. Ali caberia muito bem um restaurante, um café, um estabelecimento qualquer que pudesse receber essas pessoas para que elas tenham um momento de paz e de contemplação, que é o que São Francisco previa: a conexão com a natureza — afirma Matheus Campelo, comissário administrativo e eclesiástico da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.
O imóvel abrigou por muitos anos as atividades administrativas da Ordem Terceira, que remonta a 1619. Ali ficavam guardados seus arquivos, com documentos importantes, que atualmente se encontram a salvo no interior da igreja, onde passam por catalogação. Muitos desses papéis são do século XVIII.
No cofre de pedra com portas de ferro, ficavam trancados em caixas de metal os documentos mais sensíveis, mais importantes e mais antigos, incluindo os títulos de propriedade dos muitos imóveis pertencentes à Ordem. Vale destacar que a instituição religiosa foi uma das maiores proprietárias de terras da cidade do Rio. Um dos documentos mais antigos é do século XVII. Segundo Matheus, trata-se de um breve apostólico (documento pontifício oficial) concedido como benefício espiritual para a Ordem Terceira.
— O restante da documentação toda é da primeira ou segunda metade do século XVIII e, com o tempo, foi se tornando cada vez mais robusta e numerosa, já que com o passar do tempo o papel e a informação foram se barateando e foi se criando essa consciência de arquivo, numa instituição antiga como a nossa. Eu diria que é um dos arquivos mais antigos da cidade — aposta Campelo.
Com a desativação do arquivo há mais de 40 anos, a construção ficou abandonada e há pelo menos 15 anos perdeu totalmente o telhado. Embora degradada, a construção ainda guarda suas características originais. Segundo Matheus, o prédio passou por uma reforma entre o final do século XIX e o começo do século XX, assim como um barracão que tem atrás dele.
— Para nós da Ordem Terceira, reativar aquele espaço é, obviamente, a oportunidade de dar utilidade não só para uma área muito rica e importante para a história do Rio de Janeiro, mas também proporcionar mais um ponto de abertura para que as pessoas possam ingressar no conjunto arquitetônico por um outro lado — diz.
O comissário administrativo e eclesiástico da Arquidiocese se refere a uma rampa que dá para a Rua da Carioca, revitalizada pela prefeitura, incluindo iluminação da Rioluz, mas que não é utilizada porque o espaço ainda não está preparado para receber o público.
— Se esse espaço for recuperado, será ótimo para trazer as pessoas para conhecerem uma maca verde no centro da cidade, num espaço de calmaria que é uma viagem ao passado e você quase esquece que está no coração pulsante e fervilhante da cidade.
Cláudio Castro, diretor da Sérgio Castro Imóveis, diz que o espaço tem grande potencial para receber um empreendimento gastronômico. Ele cita o exemplo do Edifício Touring, na Praça Mauá, joia art déco tombada assim como o conjunto arquitetônico do Convento Santo Antônio que reabriu no começo do ano como complexo gastronômico, pelas mãos de Antonio Rodrigues, dono do Grupo Belmonte, que já recuperou casas históricas como Nova Capela, Amarelinho e a Padaria Ipanema. Na sua avaliação, o investimento necessário no local terá retorno rápido.
— Vai ser necessário colocar o telhado, recuperar toda sua estrutura e decoração, mas é um investimento com garantia de retorno, pois se trata de um lugar com grande potencial e com uma beleza inigualável. Não tem nada parecido na cidade — diz Castro, que enumera como vantagens do empreendimento a vista para o Largo da Carioca, a facilidade de acesso (é vizinho de uma estação do metrô, é coberto por várias linhas de ônibus, o VLT passa por perto e ainda está próximo do Edifício Garagem Menezes Cortes), além da vizinhança com um posto do Segurança Presente.
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