RJ em Foco

Cinco dos dez bairros brasileiros com mais moradores em apartamentos ficam no Rio; Barra da Tijuca lidera ranking carioca

Em todo o país, Barra só fica atrás do Plano Piloto, em Brasília, dono da maior população nacional nesse quesito

Agência O Globo - 13/10/2026
Cinco dos dez bairros brasileiros com mais moradores em apartamentos ficam no Rio; Barra da Tijuca lidera ranking carioca
Cinco dos dez bairros brasileiros com mais moradores em apartamentos ficam no Rio; Barra da Tijuca lidera ranking carioca - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Cinco dos dez bairros brasileiros com mais moradores em apartamentos estão localizados no Rio de Janeiro. Essa informação faz parte de um levantamento do perfil Urbanófilo, elaborado com base nos dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No total, 2,22 milhões de pessoas residem nesse tipo de habitação na capital fluminense, com destaque para a Barra da Tijuca, que lidera a lista.

A Barra da Tijuca possui 131.766 moradores em apartamentos, sendo a maior concentração no município. Em todo o Brasil, apenas o Plano Piloto, em Brasília, possui uma população maior, com 173.262 habitantes vivendo neste formato. No Rio de Janeiro, outros bairros que se destacam são: Copacabana, na Zona Sul (112.868 pessoas); Tijuca, na Zona Norte (109.556); Recreio dos Bandeirantes (108.830) e Jacarepaguá (103.316), ambos na Zona Sudoeste.

Quando analisamos o número de unidades habitacionais, a ordem muda. Copacabana conta com 57.650 apartamentos, enquanto a Barra da Tijuca possui 55.995. Em média, cada unidade na Barra abriga 2,35 moradores, já em Copacabana este número é de 1,96. O estudo destaca também a ausência de moradores em apartamentos em Grumari e Gericinó; o Joá possui apenas oito residentes, a Cidade Universitária conta com 47 e Barra de Guaratiba tem 124 moradores nesse tipo de habitação.

Segundo Bruno Perez, gerente de planejamento do Censo Demográfico do IBGE, os moradores de apartamentos correspondem a 36% da população do Rio. Em 2022, a cidade ocupava a quinta posição entre as capitais brasileiras com maior proporção de habitantes residindo em apartamentos, ficando atrás de Vitória, Porto Alegre, Florianópolis e João Pessoa.

— Em 2010, 32,6% da população do Rio de Janeiro residia em apartamentos. Em 12 anos, houve um aumento de 3,4 pontos percentuais. No entanto, esse crescimento foi menor do que o observado em outras capitais das regiões Sul e Sudeste, onde a proporção de habitantes vivendo em apartamentos cresceu mais rapidamente — explica Perez.

Ele ressalta que os apartamentos tendem a ser ocupados por menos pessoas do que as casas. Em 2022, a média de moradores por casa no Rio era de 2,7, enquanto nos apartamentos a média era de 2,3. Para o especialista, o aumento desse tipo de moradia reflete mudanças demográficas, como a redução da fecundidade e o crescimento de lares unipessoais e de casais sem filhos.

A concentração de moradores em apartamentos em determinados bairros, no entanto, evidencia um processo de urbanização desigual. Rafael Soares Gonçalves, historiador e professor da PUC-Rio, observa que essa distribuição está relacionada à trajetória do mercado imobiliário carioca, que se concentrou em áreas estratégicas, levando em conta a localização, a oferta de serviços e o potencial de valorização.

— O Rio de Janeiro possui uma concentração em áreas bastante específicas, sem a mesma diversidade que percebemos em São Paulo — analisa.

A verticalização em direção à Barra representa uma nova fase desse processo. A partir da década de 1970, o projeto urbanístico de Lúcio Costa estabeleceu um padrão de ocupação diferente dos bairros mais antigos, com empreendimentos de maior porte e áreas internas para os moradores. O Recreio dos Bandeirantes seguiu um caminho similar.

Vanessa Moreira, de 48 anos, trocou a Tijuca pela Barra em 2011 ao decidir morar com seu atual companheiro. No início, buscavam um apartamento próximo ao metrô, mas os preços e as opções disponíveis ampliaram a busca. Vanessa trabalhava na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e passava muito tempo se deslocando entre casa e trabalho. A oferta de transporte para os moradores do condomínio foi decisiva para a mudança.

— Meu marido usa o ônibus do condomínio para ir e voltar do trabalho, eu utilisei bastante quando trabalhei na Uerj, e agora meu filho usa para ir à escola. A mobilidade não é um problema — afirma a designer.

Com o tempo, outros fatores relacionados à vida no condomínio começaram a ganhar importância. A segurança, que não era uma das principais preocupações, passou a ser uma questão primordial após o nascimento do filho, em 2015. Os espaços de lazer e a estrutura do empreendimento também influenciaram sua decisão de continuar morando na Barra.

Para Rafael Gonçalves, a presença de áreas de lazer e serviços dentro dos condomínios muda as relações de convivência. Embora ofereça conveniência, esse arranjo pode diminuir a necessidade de frequentar espaços públicos e se relacionar com pessoas de fora. Sydnei Menezes, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU-RJ), observa outro aspecto: a especulação imobiliária contribuiu para uma expansão que ultrapassou as previsões iniciais, resultando em prédios de grande porte e alta concentração de moradores.

— A Barra foi um bairro planejado, mas, devido à especulação imobiliária acelerada, o resultado foi um crescimento desordenado, com grandes edifícios e muitos habitantes — explica.

De acordo com Menezes, o desafio é assegurar que a verticalização seja acompanhada pela expansão da infraestrutura pública. O “milagre” do aumento do número de edifícios, além de mudar a paisagem urbana, demanda planejamento para garantir condições adequadas de vida aos moradores.

*Estagiária sob supervisão de Giampaolo Morgado Braga