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Tiroteio entre PMs no Rio: especialista aponta comunicação entre batalhões como essencial para evitar novos casos
Confronto em Jacarepaguá deixou um subtenente do Bope morto e cinco policiais feridos; corporação investiga suspeita de fogo amigo
A comunicação entre batalhões e a identificação das equipes são pontos centrais para esclarecer o tiroteio que deixou um subtenente do Bope morto e outros cinco policiais militares feridos neste domingo, em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio. Para o antropólogo Lenin Pires, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a investigação deve verificar quais informações foram compartilhadas antes do confronto e orientar a revisão de procedimentos para evitar novos episódios.
A Polícia Militar apura a hipótese de fogo amigo. Segundo a corporação, agentes do 18º BPM (Jacarepaguá) teriam confundido uma abordagem do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) com uma ação criminosa, devido à baixa luminosidade, e atirado contra os colegas.
— Tem cinco policiais do Bope em atuação na área do 18º Batalhão e fazendo abordagens. Por que isso deveria ser um segredo para que o 18º Batalhão não soubesse? — questiona Pires, professor do Departamento de Segurança Pública e diretor do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da UFF.
O policial morto foi o subtenente Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos. A morte fez a família reviver um luto de menos de um ano: o irmão dele, o terceiro-sargento Heber Carvalho, também do Bope, morreu em confronto durante a megaoperação no Complexo da Penha, em outubro de 2025. Desta vez, a suspeita é de que os disparos tenham partido de colegas de farda.
Gláucio completaria 26 anos na Polícia Militar em dezembro e deixou duas filhas, de 30 e 19 anos, e um filho de 7.
Como aconteceu o tiroteio
O confronto aconteceu na Rua Guilherme Moreira, na Freguesia, na região da Gardênia Azul. De acordo com a Secretaria de Estado de Polícia Militar, os agentes do Bope abordavam um veículo quando foram avistados pelos policiais do batalhão local.
A hipótese de fogo amigo é investigada pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), da Polícia Civil, e pela Corregedoria Interna da PM, por meio da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (2ª DPJM). Ainda precisam ser esclarecidas a sequência dos disparos, a identificação das equipes e a comunicação entre os policiais antes do confronto.
Relatos iniciais sobre a ocorrência mencionavam homens armados nas proximidades de um Kia Sportage branco. Os agentes do 18º BPM teriam recebido um aviso sobre a presença de homens armados naquela rua antes de chegar ao local, como noticiou o g1.
O portal também informou que havia veículos descaracterizados em uso. Não foi esclarecido a qual equipe pertenciam esses carros nem se eles tiveram relação com o possível erro de identificação. Testemunhas citadas pelo g1 afirmaram que os grupos não se reconheceram durante o patrulhamento na região do Beco do Saci.
Após um pedido de prioridade na rede de rádio, equipes de outros setores foram mobilizadas para prestar apoio. Um veículo blindado do Comando de Operações Especiais (COE) e duas viaturas do Bope chegaram à região. Ao todo, cinco integrantes da unidade especializada e um cabo do 18º BPM foram atingidos e levados para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Gláucio chegou morto à unidade.
Viatura com marcas de tiros
Fotografias e um vídeo publicados pelo g1 mostram a viatura do batalhão de Jacarepaguá com diversas marcas de tiros. Nas imagens gravadas depois do confronto, aparecem sangue e cápsulas de munição no chão. Segundo o portal, a rua ficou fechada durante a manhã, e uma perícia era realizada por volta das 10h.
Moradores, em relatos publicados pelo g1, reclamaram das condições da iluminação e do asfalto no trecho. A ocorrência também provocou interdições na Avenida Ayrton Senna: de acordo com o Centro de Operações Rio (COR), duas faixas foram fechadas por volta das 6h30, na altura do Espaço Hall, no sentido Linha Amarela.
O que precisa ser esclarecido para prevenir novos casos
Pires ressalta que é preciso verificar tanto se houve aviso ao batalhão responsável pelo território quanto se a informação chegou aos agentes que estavam nas ruas.
— Foi informado ao 18º Batalhão que isso iria acontecer? A informação não fluiu? Tem muita coisa que, a meu ver, precisa ser respondida — afirma.
O antropólogo defende uma investigação com participação do Ministério Público e da Polícia Civil. Para ele, a apuração deve servir também à revisão dos procedimentos de atuação, de modo que a presença de uma equipe em determinada área seja conhecida pelos demais policiais responsáveis pelo território.
Uma das dúvidas levantadas pelo pesquisador é se os agentes usavam uniformes e dispunham de veículos que permitissem o reconhecimento por outros policiais. A informação sobre carros descaracterizados, por si só, não esclarece como cada grupo se apresentava no momento da abordagem.
Na avaliação de Pires, também é necessário examinar a coordenação entre as unidades e a capacidade de comando das estruturas de segurança pública. Ele ressalta que ainda faltam elementos para reconstituir o que aconteceu e estabelecer responsabilidades.
O caso tem um precedente recente. Em fevereiro de 2024, policiais do Bope e do serviço reservado do 9º BPM (Rocha Miranda) trocaram tiros no Morro do Jorge Turco, na Zona Norte. O confronto, registrado em imagens, durou cerca de dois minutos e terminou sem feridos. Na ocasião, a PM informou que analisaria os vídeos com as equipes operacionais para prevenir novos episódios.
Em nota de pesar assinada pelo comandante do Bope, tenente-coronel Carlos Eduardo da Silveira Monteiro, a unidade lamentou a morte de Gláucio e prestou solidariedade a familiares e amigos. O corpo do subtenente foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML).
Entre os feridos no tiroteio deste domingo, Ângelo Cleber Toscano Araujo, do 18º BPM, e Leonardo Malaquias de Souza passaram por cirurgia e estão em estado estável, segundo a direção do Hospital Lourenço Jorge. Adriano de Oliveira Fernandes, Sidnei Santos Silva e Diego Alves de Santanna receberam alta após avaliação médica.
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