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São Gonçalo, berço de Douglas Ruas, vive contraste entre obras milionárias e falta de serviços básicos

Cidade do próximo governador do Rio recebe investimentos em mobilidade, mas enfrenta carências de saneamento e educação; moradores cobram empregos e transporte

Agência O Globo - 11/10/2026
São Gonçalo, berço de Douglas Ruas, vive contraste entre obras milionárias e falta de serviços básicos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Dona Maria Ribeiro, de 86 anos, tem andado com dificuldade: machucou o tornozelo em um vergalhão exposto na varanda de sua casa, um barraco de madeira protegido da chuva pelo forro instalado por uma ONG. Mesmo mancando, deixou a Fazenda dos Mineiros, onde vive, e foi às urnas no domingo passado. Ela mora em São Gonçalo, berço de Douglas Ruas, o próximo governador do Rio, e diz não saber em quem votou.

— Não sei em quem… — conta, olhando para o chão, enquanto ouve um louvor. — Eu levei o papel do pastor.

Sentada na cama com cobre-leito impecavelmente esticado, conta que teve febre na última semana e sequer foi ao posto: tratou-se sozinha. Antes, nas semanas chuvosas de setembro e do início de outubro, tomou banho com a água que conhecidos buscavam 800 metros dali, no Pistão do Complexo do Salgueiro. A água não é tratada; o banheiro é sem saneamento. O mesmo se repete com parentes e vizinhos, entre eles Cleidiane Gomes, de 31 anos, que cozinha na lenha do quintal ou numa grelha elétrica, dentro de casa. Para ligar seu “fogão” improvisado, une um fio a outro com as mãos. São Gonçalo é um retrato acabado de realidades em confronto no estado — e no país.

Dona Maria, a filha, Neuza, e a neta, Márcia, são de três gerações que coletavam recicláveis, roupas, brinquedos e até alimentos do Lixão de Itaoca, desativado em 2012. A indenização, embora prometida pelo governo da época, não chegou aos seus frequentadores como aconteceu com os do Lixão de Gramacho, desativado naquele mesmo ano.

Esperança na educação

O futuro da neta e do carismático bisneto Matheus, de 2 anos, faz as matriarcas da família sorrirem: Márcia Ribeiro entrou no EJA (Educação de Jovens e Adultos) da Escola Municipal Haroldo Gomes, em Itaúna, com a ajuda de Thamiris Santos, do projeto Por Gentileza, e da professora Sofia Santana. Ali, a capacidade de articulação e os novos conhecimentos de Marcinha começam a contrastar com os dos mais velhos. Rita de Cássia, sua vizinha, desconhece que vive em São Gonçalo.

— Eu moro no Salgueiro — corrige, no interior da casinha de 2mx2m fechada por uma lona preta e coberta por telha de amianto. — Quero sempre o melhor para as coisas.

O tratamento de água e esgoto escasso em São Gonçalo já levou a cidade à lanterna do ranking de saneamento do Trata Brasil. Em 2025, o município ocupava a 94ª posição. Este ano, subiu seis posições. A Cedae é a responsável pelo tratamento da água no município, enquanto a distribuição e o atendimento comercial e operacional da rede até as residências são de responsabilidade da concessionária Águas do Rio.

Na Fazenda dos Mineiros, uma São Gonçalo pouco vista pelos demais moradores, a escassez de assistência se contrapõe à fartura da natureza ao redor: a mata fechada atrás dos terrenos onde vivem as cerca de 30 famílias dá uma dimensão da riqueza ambiental da cidade de outros tempos.

História rural

Foi em 1579 que a sesmaria recebida por Gonçalo Gonçalves passou a se chamar São Gonçalo de Guaxindiba. A alcunha do século XVI unia a fé portuguesa e um termo indígena, cunhado pelos tupis daquelas terras com o significado “planta aquática de beira de rio”.

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A elevação a município veio em 22 de setembro de 1890: a cidade, ao mesmo tempo em que tinha alcançado relevância econômica com seus engenhos de açúcar e lavouras de milho e arroz, acentuava as desigualdades: descendentes de pessoas escravizadas e indígenas em faixas de subalternização foram empurrados para a margem. A partir daí, o cinturão de morros que envolve a área urbana de São Gonçalo passou a ter grande expansão comunitária. Hoje, a cidade tem comunidades superpopulosas, como o Complexo do Salgueiro, com sete favelas, e o Jardim Catarina.

Entre os anos 1930 e 1960, chegaram dezenas de indústrias. As oportunidades para trabalhadores se ampliaram em São Gonçalo, a ponto de o município ganhar o apelido de “Manchester Fluminense” — em referência à pioneira cidade industrial da Inglaterra. Por aqui, o desenvolvimento era favorecido pela conexão com outras áreas à beira da Baía de Guanabara.

No início do século XXI, o baque: São Gonçalo sofreu o impacto da debandada de indústrias. Passou a ser vista como “cidade-dormitório”, de onde saíam trabalhadores rumo à labuta em Niterói e no Rio de Janeiro.

— A fábrica também estruturava o cotidiano e o pertencimento à cidade. Ao mesmo tempo, a Ponte Rio–Niterói e a Rodovia Niterói–Manilha ampliaram a integração regional e favoreceram a expansão urbana. Essa maior conexão, porém, não foi acompanhada na mesma medida pela geração de oportunidades locais. São Gonçalo consolidou uma importante função residencial, enquanto muitos moradores precisavam buscar trabalho em outros municípios. Temos aí uma contradição: a cidade passou a participar mais intensamente dos fluxos metropolitanos, mas encontrou dificuldades para transformar essa integração em empregos, renda e qualidade de vida para sua população — explica Vitor de Pieri, do Instituto de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Processos históricos marcados por corrupção política, além da violência urbana, afastaram investimentos e parte da população. Três anos atrás, São Gonçalo se tornou a cidade que mais perdeu habitantes entre os municípios com população acima de cem mil pessoas, segundo o Censo do IBGE.

Mesmo assim, o segundo maior colégio eleitoral do estado não se desfez: foi decisivo na eleição do próximo governador fluminense. Sessenta por cento dos votos de São Gonçalo foram direcionados a Douglas Ruas (PL), filho do prefeito Capitão Nelson (PL). O patriarca, dois anos atrás, foi reeleito com 84,49% dos votos válidos da cidade.

O geógrafo Marco Lourenço Nepomuceno, doutorando da UFF com artigos publicados sobre a cidade, observa:

— No contexto brasileiro, ainda hoje, se retirarmos as capitais de estado, São Gonçalo continua sendo a terceira cidade mais populosa do país inteiro, atrás de Guarulhos e de Campinas.

A esteticista Monique Soares, moradora do bairro Nova Cidade e trabalhadora da Região Central gonçalense, diz que foi eleitora de Ruas no dia 4 de outubro motivada por sua percepção em relação à segurança.

— Tenho visto mais patrulhas por aqui, mais carros de polícia circulando — afirma a moradora da cidade que, em dezembro do ano passado, recebeu um novo batalhão da PM, instalado em Venda da Cruz.

Obra de milhões

A aliança do governo Cláudio Castro com o prefeito Capitão Nelson, impulsionada pela ida de Douglas Ruas para a Secretaria estadual das Cidades, resultou na destinação de R$ 262 milhões ao município. Essa injeção de dinheiro permitiu a realização da maior obra de infraestrutura local: o Mobilidade Urbana Verde Integrada (MUVI). Trata-se de um corredor viário com 32 estações, cortando 13 bairros ao longo de 18 quilômetros, de Neves até Guaxindiba, com áreas verdes, de lazer e ciclovia. Por nota, a Secretaria das Cidades informa que “a obra foi objeto de auditorias pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) e pela Controladoria-Geral do Estado (CGE-RJ), não havendo pendências junto a esses órgãos”.

A grande expectativa da população local, uma das que mais perdem tempo no trânsito no país, segue, no entanto, na promessa da Linha 3 do metrô, a ligação entre Rio, Niterói e São Gonçalo. Nepomuceno explica:

— Uma das maiores dificuldades, hoje, está no deslocamento. Em números absolutos, a quantidade de trabalhadores que se movimenta diariamente de São Gonçalo para Niterói e Rio é bastante significativa: segundo o IBGE, trata-se do maior fluxo do estado e o segundo maior fluxo de pessoas entre cidades em todo o Brasil. Ainda assim, não existe variação modal de transportes.

Enquanto Educação patina, Cultura e Saúde trazem esperança

Em 2025, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), São Gonçalo teve 4,9, a terceira menor nota do Rio, empatando com Duque de Caxias. Este ano, o município seguiu sem bater a meta nacional: 6. Na cidade, o sindicato de professores pede concursos.

A prefeitura diz que realizou “dois concursos para professores e outros cargos da comunidade escolar”. Afirmou que “mais de três mil profissionais foram convocados, nos concursos de 2022 e 2024”. De acordo com a nota, foram chamados mais de 700 professores de apoio especializado. E a convocação do concurso de 2024 foi prorrogada por mais dois anos, segundo o município.

Enquanto a Educação tenta se reerguer, crescem as mobilizações populares que, historicamente, promovem a ascensão da cultura gonçalense. O destaque vai para as batalhas de rap que formam novos ídolos.

— Os aspectos positivos costumam vir da própria mobilização dos movimentos culturais. A Batalha do Tanque, de onde saíram alguns dos mais expressivos artistas do gênero, e que é amplamente acompanhada pelas mídias digitais por brasileiros de todo o país, é uma iniciativa popular. Mas nem sempre há espaço para florescer — diz o geógrafo Marco Lourenço Nepomuceno, doutorando da UFF.

Orgulhos locais

Desde 2021, personalidades gonçalenses como o craque Vini Jr., o grupo Os Garotin, a artista urbana Amanda Cabocla e o compositor Altay Velloso passaram a estampar murais do município. O projeto Cidade Ilustrada, capitaneado pela secretária de Cultura, Julia Sobreira, e pelo artista visual e curador Marcelo Eco, outro talento local, tem o propósito de gerar identificação e motivar a população.

— São Gonçalo é o berço do grafite no Estado do Rio. A primeira geração de grafiteiros foi formada aqui. É berço mundial da umbanda, a anunciação foi na cidade. No esporte, tem o marco de ter recebido a primeira corrida automobilística no estado e a segunda no Brasil — enumera Eco, antes de lembrar outra curiosidade. — A cabeça e as mãos do Cristo Redentor foram construídas em São Gonçalo. Como nossa secretária de Cultura sempre diz, São Gonçalo não é local de carência, mas de potência.

As paredes da cidade contam a história do município, e há cursos de formação vinculados a este projeto e ao CriaSG, outra iniciativa de promoção cultural local. Mais de seis quilômetros de paredes já foram ilustradas com 99 painéis em 30 bairros da cidade.

Na Saúde, São Gonçalo abriga o Hospital Estadual Alberto Torres, referência em trauma. Estão na lista de entregas recentes as clínicas municipais da Lagoinha e do Colubandê, além do novo PAM Neves e do Centro de Imagens e Especialidades, na Vila Três.

“O antigo Hospital Franciscano, em Lagoinha, foi transformado no Hospital do Câncer e do Coração (HCCOR) e atende pacientes de todo o estado. O novo hospital municipal, no Centro, está em construção e deve ser entregue no segundo semestre de 2027, assim como a nova Clínica Municipal Gonçalense de Neves”, diz a Secretaria de Saúde.