RJ em Foco
Grupo que vendia armas a Peixão usava lanchonete em Angra para lavar dinheiro; empresa movimentou R$ 35 milhões, diz MP
Investigação apontou que, mesmo sem emitir notas fiscais de venda, a lanchonete localizada no bairro do Frade movimentou milhões de reais, misturando recursos lícitos e ilícitos
Uma investigação conduzida pelo Ministério Público do Rio identificou mais de R$ 250 milhões em movimentações, apontando um suspeito como líder do Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo de Israel. De acordo com a apuração, o grupo usava empresas dos ramos de alimentação e de materiais de construção e reforma para laundering dinheiro obtido de forma ilícita. Uma delas era uma lanchonete localizada no bairro do Frade, em Angra dos Reis, que movimentou cerca de R$ 35 milhões em cinco anos. Segundo o MPRJ, a movimentação foi considerada atípica e "manifestamente impossível para uma hamburgueria de pequeno porte".
Ligada ao Comando Vermelho:
'Incendiar a UFF de madrugada':
A lanchonete, identificada pelo nome Brutus, foi fundada por Marcel Rodrigues Fernandes e sua companheira. Marcel foi preso na semana passada durante uma operação realizada pela Polícia Federal e pelo MPRJ. Mesmo após deixar o quadro societário, ele continuou aparecendo como destinatário de recursos que passavam pela empresa, segundo as investigações.
Ao longo de cinco anos, a lanchonete movimentou cerca de R$ 35 milhões entre créditos e débitos. Segundo o MP, os gastos com cartões de crédito ultrapassaram R$ 2,5 milhões, sem que a empresa tivesse "qualquer estrutura operacional que justifique tal volume".
De acordo com a denúncia elaborada pelo Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (GAESF), a lanchonete era usada em um esquema de lavagem de dinheiro conhecido como "mescla", que consiste em misturar recursos lícitos, obtidos com a venda de lanches, a valores ilícitos provenientes das atividades criminosas da organização. Dessa forma, os investigados buscavam dar aparência de legalidade ao dinheiro, diluindo os valores no fluxo de caixa da empresa.
A investigação identificou, entretanto, que a lanchonete não tinha estrutura para movimentar tanto dinheiro. O estabelecimento comercializava produtos de baixo valor, como lanches, batatas fritas e açaí. O item mais caro do cardápio custava cerca de R$ 140.
Na denúncia, os promotores apontaram que, para movimentar tantos milhões de reais, a lanchonete teria que vender aproximadamente "393 itens por dia, durante todos os dias de funcionamento no período de cinco anos", cenário manifestamente impossível para uma hamburgueria de pequeno porte. Além disso, o MP destacou que a empresa não emitiu nenhuma nota fiscal de venda durante todo o período analisado e atuava apenas como destinatária de notas fiscais emitidas por terceiros.
Operação da PF e do MP
Um policial militar, três ex-PMs, um policial civil e um ex-ocupante de cargo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) foram presos por atividades relacionadas ao grupo que atua no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio.
A investigação financeira feita pelo grupo especializado do Ministério Público identificou mais de R$ 250 milhões em movimentações de pessoas físicas e cinco empresas vinculadas ao grupo, tendo resultado no bloqueio de bens e valores. As investigações mostram ainda que o grupo recebia fuzis e equipamentos policiais como forma de comissão ou pagamento pelas transações. Os criminosos também contavam com uma rede de agentes da segurança pública, entre eles um policial civil e um policial militar da ativa.
Conforme as apurações da PF, esses servidores consultavam e repassavam aos líderes da quadrilha informações sigilosas sobre mandados de prisão em aberto, endereços, registros de veículos e alvos de ações policiais em andamento. Os dados de uso restrito eram explorados tanto para alertar comparsas e evitar a repressão policial quanto para conduzir investigações clandestinas voltadas à extorsão e à obtenção de lucros ilícitos.
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