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Vem aí o Dia do Pastel, petisco dos candidatos em campanha

Origem é recheada de controvérsias entre imigrantes japoneses e chineses que ajudaram a popularizar salgado das pastelarias às feiras de rua

Agência O Globo - 03/10/2026
Vem aí o Dia do Pastel, petisco dos candidatos em campanha
Vem aí o Dia do Pastel, petisco dos candidatos em campanha - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Não é por acaso que candidatos, qualquer que seja a coloração político-ideológica, aceitam ser fotografados mastigando enquanto cumprimentam potenciais eleitores. Todos querem ser populares como o pastel que, pelo menos durante a campanha, empunham diante das câmeras. Agora deu match de verdade: amanhã, 4 de outubro, dia de eleição, também é o Dia Nacional do Pastel. O franco favorito em feiras, lanchonetes, bares e restaurantes “veio de longe”, como dizia uma velha raposa da política. Na base do boca a boca, conquistou o Rio chegando de São Paulo, para onde foi trazido por imigrantes orientais.

E aqui já começa a polarização: suas origens mais remotas ensejam uma guerra sino-japonesa. Enquanto chineses afirmam que o pastel tal como o conhecemos é uma adaptação do tradicional guioza, japoneses são categóricos ao defender o rolinho primavera como inspiração original. Político das antigas, Washington Luís, antes de se tornar presidente da República, regulamentou as feiras livres de São Paulo em 1914, quando ocupava o cargo de prefeito da cidade. Imigrantes japoneses, que já eram conhecidos por trabalhar no ramo de alimentação, não demoraram a ocupar esse espaço de comércio popular. No período da Segunda Guerra Mundial, porém, quando o Japão se aliou à Alemanha nazista, muitos membros daquela comunidade passaram a se dizer chineses, para evitar chamar atenção. Até hoje, muita gente associa o pastel à China.

“Como São Paulo é uma cidade plural, múltipla na chegada de migrantes de diversos países, houve um impacto cultural forte na gastronomia”, confirma Cezar Marques, autor do livro “Gastronomia do Rio de Janeiro” (Editora Senac).

Na eleição dos favoritos do gosto popular carioca, o pastel tomou todos os cantos sem nem precisar de segundo turno.

“Um bom preparo necessariamente precisa ser sequinho e bem recheado. Nada de pastel de vento ou encharcado”, recomenda o foodie e criador de conteúdo Rudá Simões.

Filho de pai chinês, Bruno Chan faz parte da terceira geração da família que vive do dinheiro proporcionado pelos pastéis. Seu irmão toca a Pastelaria do Chan, na Rua Senhor dos Passos, no Centro, e ele cuida de marca própria, a Chan Pastel de Feira, presente em eventos corporativos, festas de bairro e confraternizações de colégios. Bruno conta que os parentes começaram a empreender valendo-se de uma receita simples e com bom rendimento:

— A receita da massa não é segredo: farinha de trigo, óleo, sal e água. Há quem diga que a massa leva cachaça: é mito! Para o recheio, carne de boa qualidade. Meu pai me contava que investiu em pastel porque era fácil de vender, dava dinheiro e não precisava falar muito — explica o economista de 39 anos.

Na região da Saara (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega), onde fica a Pastelaria do Chan, a concorrência é forte: por lá apinham-se lanchonetes e outros negócios de imigrantes chegados do país do presidente Xi Jinping. No entanto, na vizinhança sobressai, pelo sucesso estrondoso, o comércio de um português: a Pastelaria Chic’s. Todo dia uma pá de gente se enfileira na calçada para buscar seu pastel de R$ 7. Com a proliferação de vídeos sobre “pastéis raiz do Rio” nas redes sociais, a febre vai além dos trabalhadores e contagia a garotada. Por dia, mais de mil unidades são abocanhadas.

“Pela minha circunferência você vê como eu gosto”, diz Claudia da Cruz, moradora de Vila Isabel, mordendo a iguaria harmonizada com a tradicional laranjada da lanchonete inaugurada há 56 anos.

No Leblon, na Zona Sul, o sucesso longevo é do BB Lanches, patrimônio com lugar no coração de diversas gerações de cariocas desde os anos 1960. Por lá, o pastel fresquinho e saboroso de cada dia chega ao balcão, espalha-se pela calçada da esquina da Avenida Ataulfo de Paiva com a Rua Aristides Espínola e vai além. Há quem peça o salgado para viagem, mesmo: pedidos já chegaram a Portugal e aos Estados Unidos.

Antônio Mesquita, funcionário que certamente já passou de 1 milhão de pastéis servidos em longevos 32 anos de trabalho no endereço, diz que os vende com uma condição:

— Tem que ser frito. Não vai congelado. O pessoal de fora vem aqui e pede cru, mas não pode. Vão fritos na caixinha — diz.

Em alguns lugares do Rio, a iguaria se confunde com o ponto turístico. É o caso do salgado vendido no Bar Urca, e em geral degustado do outro lado da rua, na mureta à beira da Baía de Guanabara frequentada por multidões. Em outros pontos, é o recheio que conquista o eleitor: acontece assim no Da Gema, bar no Maracanã, comandado pela craque Luiza Souza, onde a massa que envolve a feijoada é uma campeã de pedidos.

Salgado a metro

Em Vila Isabel, na Zona Norte, o homenageado do dia é vendido a metro na lanchonete A Culpa é Do Pastel, que fica no Boulevard 28 de Setembro. Os influenciadores Isa Lima Leite e Alex Costa, do Papo de Comida, visitaram o lugar e não conseguiram ir até a última mordida.

“Tivemos que levar para casa!” — reconhece Costa, que também é fã do Mestre do Pastel, da Feira da Glória da Praça Paris, na Zona Sul, e da Pastelaria Mananciais, na Taquara, Zona Sudoeste.

A turistada reunida em Copacabana se delicia com os sabores do Tato, que, apesar de cercado por hotéis estrelados, tem preços e promoções que agradam a passaportes variados. Um pastel de queijo sai a R$ 10 e quatro, a R$ 32.

A jornalista Marcella Sobral e o influenciador Afonso Filho, ambos foodies, são fãs do pastel de recheio cremoso do Caranguejo, em Copacabana. Ele, que mora no Flamengo, também vota sem pestanejar no quitute do Canto Alegre, na Barrinha, Zona Sudoeste:

— Além do sabor, sou guiado pelo afeto e pelo clima do lugar — diz Afonso, que também apoia o pastel da Barraca do Bigode, montada na Rua General Glicério aos sábados.

O mesmo feirante também faz ponto na Rua Morais e Silva, na Tijuca, Zona Norte. O point ganhou até apresentação de um cliente assíduo, o funcionário do Cefet Jorge Apolinário, de 54 anos.

— O pastel aqui era do tamanho de uma televisão de 29 polegadas. Agora é um tablet. Mas o sabor é tão bom que eu chegava a comer três vezes por dia, virava uma refeição. Por questões de saúde, diminuí a quantidade, mas sigo frequentando para fazer a social — diz ele.