RJ em Foco
Entrevista: arquiteta franco-carioca fala sobre como o Rio influencia seu trabalho
Elizabeth de Portzamparc apresenta palestra na V Conferência Estadual de Arquitetura e Urbanismo, da CAU
Atenta aos detalhes, a franco-carioca Elizabeth de Portzamparc gosta de se lembrar do dia em que o canto de um sabiá chamou sua atenção. Aconteceu há 12 anos, no Leblon. O barulho das obras na estação Jardim de Alah do metrô chegava até o apartamento onde ela, recém-chegada de Paris, passava uma temporada. Em dado momento, o trinado do passarinho pareceu abafar o ruído das britadeiras. Bastou para que ela formulasse uma breve teoria sobre a força que podem alcançar as pequenas iniciativas.
Memória:
Palácios, chorinho, forró, feira e mercadinho:
Desde então, passou a gravar os sons de pássaros em todos os lugares aonde vai. Certa vez, chegou a pedir ao marido — o também arquiteto Christian de Portzamparc, um dos mais incensados nomes da arquitetura francesa e autor do projeto da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca — para imitar o som de uma dessas gravações. Ele topou, claro.
Elizabeth, que vive em Paris desde os anos 1960, apresenta hoje, no Palácio Capanema, no Centro, uma palestra magna como parte da V Conferência Estadual de Arquitetura e Urbanismo, promovida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU/RJ). Na segunda-feira, ela recebeu O GLOBO em seu apartamento na Urca e falou sobre sua relação com a cidade, a influência de Sérgio Bernardes em seu trabalho, sua preocupação com os rumos da política no Brasil e na Europa e a importância da integração de projetos arquitetônicos com a natureza e as ciências sociais.
Um luxo:
Você saiu do Rio muito jovem e construiu sua carreira na França. De que forma aquela cidade que conheceu na adolescência está presente na sua forma de pensar a arquitetura?
Frequentemente eu falo que sou antropófaga, no sentido dado por Oswald de Andrade. Eu digeri muita coisa da cultura e da arquitetura brasileiras, que depois me inspiram e eu ponho no meu trabalho de diferentes formas. Começando pelo Rio, claro. Quando era adolescente, conheci muito bem o Sérgio Bernardes, porque ele era tio da minha melhor amiga. Eu bebia as palavras dele, porque tudo que ele falava era apaixonante: sobre a cidade, sobre arquitetura, sobre favela... Ele fez obras também na casa deles, e eu vi a diferença depois daquelas intervenções que, no fundo, eram singelas.
Alguma marcou em especial?
Uma coisa muito simples. Ele criou uma sala que era confortável, mas não era muito grande. Abriu uma espécie de varanda toda de vidro e colocou algumas plantas nessa varanda. Como atrás tinha a floresta do Cosme Velho, a gente tinha a impressão, por essa varanda, de que a floresta penetrava no ambiente. Dilatou o espaço. Essa relação com a natureza me marcou. Eu vi a força, como a presença da natureza, essa ligação com a natureza, dilata os espaços interiores e nos faz, sobretudo, sair do nosso próprio corpo e nos comunicar com o meio ambiente. Foi uma coisa muito importante que me marcou e que eu reproduzo sempre em toda a minha obra. E foi, no entanto, apenas um detalhe muito pequeno.
Além da relação com a natureza, que outros aspectos da obra de Sérgio Bernardes influenciaram seu trabalho?
Ele falou de coisas essenciais que me marcaram muito. Uma delas foi a Casa Alta, o primeiro prédio totalmente flexível que foi feito no mundo. Foi um pioneiro. Ele criou muita liberdade para as pessoas poderem interpretar onde se coloca a sala, o quarto, as coisas assim. A flexibilidade é uma noção muito importante na arquitetura. E ele utilizou isso de um modo pioneiro nesse edifício, que foi uma coisa que me marcou e que eu utilizo muito no meu trabalho.
Debates:
Você aplica esse conceito nos seus projetos?
Em todos os meus projetos. Como resposta aos desafios climáticos, criei uma teoria que chamei de nova arquitetura, baseada nesse conceito de interações. Porque a gente não pode mais conceber a arquitetura de um modo isolado. A arquitetura não é escultura. A arquitetura é um lugar em que você vive; você tem que pensar no uso. Então, refletindo e para poder formar minhas equipes, criei essa carta, essa teoria, que chamei de Nexus, porque são as relações, as interações.
Sua formação começou nas ciências sociais. Essas áreas estão presentes na arquitetura?
Começo pela sociologia e pela antropologia. Antes de fazer um projeto de arquitetura, pesquiso profundamente o local. As culturas ancestrais frequentemente nos dão algumas direções que a gente pode interpretar de um modo contemporâneo e moderno.
Você já deu aula para estudantes de arquitetura na França. Chegou a abordar a importância dessas outras disciplinas com eles?
Eu convidei meus alunos de arquitetura a estudarem sociologia e antropologia. Alguns deles estudaram mesmo, fizeram cursos, leram muito. Alguns insistiram tanto, ficaram tão encantados que abandonaram a arquitetura e se tornaram pesquisadores de antropologia e sociologia. Aí eu falei que tinha falhado na minha missão de formar arquitetos (risos). Mas eles não podiam lutar contra o que estava no coração deles.
Você defende que a função primordial da arquitetura é abrigar a vida. O que isso significa na prática quando pensamos em uma cidade desigual como o Rio? Se tivesse que pensar uma agenda arquitetônica para o Rio, por onde começaria?
Em primeiro lugar, acentuar ainda mais essa relação com a natureza, porque o Rio tem uma enorme qualidade, infelizmente muito restrita, sobretudo à Zona Sul, que é ter árvores. As cúpulas de árvores são verdadeiros abrigos. Você anda na sombra. Em outras partes da cidade não tem árvore. É um calor intenso. Só tem a barreira das montanhas, que impede o vento de circular. Não dá para tirar montanhas, mas dá para agir e planejar o espaço urbano de outra forma.
Sua palestra magna na conferência do CAU tem como título “Arquitetura dos Vínculos: a Cidade como Projeto de Interesse Coletivo”. Como essa ideia se desenvolve?
Você não pode conceber um ser humano isoladamente. Também não pode conceber um prédio se ele não estiver em relação com a cidade e com o meio ambiente. É preciso levar em conta os aspectos climáticos, os ventos, a exposição ao sol, os materiais. Então, os vínculos são essas relações. Todo o meu trabalho é baseado nessa noção, que vem da biologia. Há uma interdependência total. Um organismo vivo não existe sem o outro. Os vínculos são totais. Quando você faz um edifício, precisa estudar o todo. É preciso entender os aspectos materiais e imateriais de cada lugar, a cultura, a história, para fazer algo adequado. Caso contrário, você faz uma escultura.
Esta semana temos eleições presidenciais no Brasil. Você acompanha o debate político brasileiro?
Estou muito preocupada com as eleições daqui, mas também com as da França. O fenômeno da extrema-direita é mundial. São racistas, machistas, anticultura. Essas eleições brasileiras são muito importantes, sim. Precisamos ter um governo que seja aberto às inovações, que respeite e incentive a cultura.
Vai votar no domingo?
Claro. Eu tenho a sorte de votar aqui e na França. O convite do CAU/RJ veio a calhar. Se houvesse só a conferência, eu viria mesmo assim, mas, como coincidiu com a eleição, foi melhor ainda.
Quais são seus lugares e programas preferidos no Rio?
Tem alguns lugares que, para mim, são icônicos. O MAM é um deles. Sempre frequentei muito. O Parque Lage também é um lugar muito querido. E, quando quero meditar, sozinha, vou ao Jardim Botânico. Ah, e comer um pastel no Bar Urca, maravilhoso!
Planos para o futuro?
Eu e meu marido temos o projeto da Fundação Portzamparc. A sede será em Paris. Vamos promover eventos, já fomos convidados para fazer uma grande exposição na Bélgica e outra em Xangai. Claro que, sendo eu francesa e brasileira e meu marido apaixonado pelo Brasil, haverá forte atuação no Brasil também. E no Rio, certamente.
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