RJ em Foco
Historiadora conta com ajuda da IA para recontar histórias de escravizados do Rio que se rebelaram contra o sistema
O livro “Vidas escravizadas” será editado pela Editora da Ação da Cidadania e tem previsão de publicação no início do próximo ano
A escravidão sempre foi marcada por silêncios que ainda ecoam. E se pudéssemos ouvir as vozes dos escravizados e compreender o que sentiam, pensavam e como lutavam contra a opressão? Em 2026, a historiadora e professora titular de Comunicação da UFRJ, Marialva Barbosa, acreditou que isso seria possível, contando com o apoio de uma ferramenta geralmente associada ao futuro: a inteligência artificial.
Marialva iniciou sua empreitada com uma extensa pesquisa documental para encontrar rastros das histórias de escravizados que viveram no Rio de Janeiro. Essa investigação incluiu a análise de fichas prisionais da Casa de Detenção do Rio de Janeiro, páginas de jornais da cidade, especialmente no final do século XIX, além de arquivos que descreviam a cidade na época. Geralmente, os escravizados apareciam nas publicações devido a crimes ou delitos que lhes eram atribuídos. Com base na análise desses atos de revolta, Marialva conseguiu encontrar pistas para construir o que chama de “biografias imaginadas”.
O livro “Vidas escravizadas” será editado pela Editora da Ação da Cidadania e tem previsão de lançamento para o início do próximo ano. A obra reúne as histórias de sete biografados: Severo, Manoel Moçambique, Serafim, Joaquina, Francelina, Serafim e Maria Rosa. Com a colaboração de pesquisadores que estudaram a forma de interpretar o mundo de diversos povos originários da África, Marialva procura decifrar os gestos violentos atribuídos a esses personagens e narrar histórias de vidas que merecem ser contadas em meio ao esquecimento profundo.
“As biografias são de escravizados do século XIX, homens e mulheres que realmente existiram. Para eles, construí biografias que chamo de imaginadas. Não porque sejam fantasiosas — visto que baseio minha narrativa em uma extensa documentação —, mas porque busco mostrar o que esses escravizados sentiam, como percebiam o mundo, as emoções que expressavam. Assim, suas formas de pensar na afrodiáspora (o Brasil) foram expandidas por meio da imaginação. O propósito não é dar a eles vozes (quem somos nós?), mas permitir que se expressem sobre suas próprias vidas, seus modos complexos de pensar e, principalmente, seus sentimentos, alegrias, desejos e lutas que ecoam do passado até o nosso presente”, resume Marialva Barbosa.
Os biografados incluem Severo, preso por atirar e ferir a mulher que o escravizava; Manoel, que stabou seu patrão e se entregou à polícia, recebendo 400 chicotadas e morrendo anos depois devido a erisipela (infecção na pele); Joaquina e Francelina, que conseguiram ser absolvidas pela polícia em resposta a agressões de suas patroas; e Basílio, envolvido em um caso amoroso cheio de ciúmes e raiva com Maria. Também estão Serafim, que repetidamente tentou fugir, e Maria Rosa, que, desesperada, assassinou seus próprios filhos. Além de narrar suas histórias, Marialva busca interpretar os gestos destes personagens: por que denunciaram à polícia sabendo que não teriam auxílio? Por que se entregaram após se defenderem legitimamente? O que provavelmente pensavam, sentiam e desejavam?
A inteligência artificial auxiliou Marialva de três maneiras fundamentais: na transcrição dos processos penais do século XIX, fundamentais para todas as biografias imaginadas, embora ela precise revisar linha por linha para garantir a precisão; na reconstrução dos possíveis rostos dos biografados, com prompts baseados em suas fichas de identificação e descrições minuciosas de jornais da época; e na visualização de cenários geográficos, como a rota de fuga de Serafim de Leopoldina em Minas Gerais até o Rio de Janeiro ou os caminhos que Francelina percorria no centro da cidade, mesmo proibida de sair de casa.
“A IA me ajudou a expandir minha imaginação do passado que está presente nessas biografias de vidas que existiram, mas que foram enriquecidas com o ‘possível passado’”, sintetiza Marialva.
A historiadora destaca que os biografados só ganharam existência a partir de rastros deixados por instituições e que se mantiveram como fragmentos do passado. Em algumas partes do livro, Marialva busca reproduzir a voz dos escravizados a partir do que relataram em seus testemunhos à polícia. O último capítulo de “Vidas escravizadas” é dedicado a discutir o Rio de Janeiro como uma cidade-terreiro, abordando personagens considerados “feiticeiros” desde aquela época até os dias atuais.
“Este trabalho recupera personagens anônimos que ganham vidas improváveis pelos vestígios comunicacionais preservados em diferentes suportes”, explica. “O fio condutor mostra que, na vida (e na morte) dos escravizados, mesmo no final do século XIX, ainda é possível observar, com maior ou menor intensidade, cosmopercepções de suas terras de origem, o que esclarece muitos de seus gestos, sentimentos, pensamentos e ações. E quem sabe essas influências perdurem até hoje nos corpos que bailam, gingam e giram, a quem dedico o livro”.
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