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Maré: 'quartel-general do TCP' ganha novas barricadas, pontos de vigilância e restrições a moradores
Polícia Civil aponta complexo como centro logístico da facção no Rio; moradores relatam aumento de roubos de veículos, invasões de casas e controle da circulação entre comunidades
Cercado pelas linhas Vermelha e Amarela e pela Avenida Brasil, as mais importantes vias expressas da cidade, o Complexo da Maré, na Zona Norte carioca, é estratégico para o Terceiro Comando Puro (TCP) no Rio. Investigações da Polícia Civil mostram que, além de concentrar parte da estrutura logística da facção, as favelas abrigam criminosos aliados de outros estados. Lá também são articulados acordos com grupos de diferentes partes do país, para ampliar o domínio territorial. Já moradores relatam que, nos últimos meses, houve uma mudança na rotina nessas comunidades, com o início da venda de crack, a instalação de novas barricadas, roubos de veículos, vigilância armada e restrições à circulação.
— Os bandidos proíbem que os moradores denunciem os roubos. Estamos aguentando calados a situação. Precisamos de ajuda, porque a situação está cada dia pior — afirmou uma moradora da Baixa do Sapateiro, que pediu para não ser identificada por medo de represálias.
Os inquéritos da Polícia Civil apontam que comunidades da Maré passaram a servir de abrigo para criminosos de outros estados, principalmente da Bahia e do Ceará. O TCP mantém alianças, segundo as investigações, com grupos como o Bonde do Maluco (BDM), da Bahia, e os Guardiões do Estado (GDE), do Ceará.
De acordo com a polícia, essas alianças têm como um dos objetivos fazer frente à expansão do Comando Vermelho (CV) em estados do Nordeste. Algumas lideranças desses grupos teriam passado a permanecer no Rio por considerar as favelas mais seguras, além de ficarem próximas às principais lideranças do TCP e conseguirem comandar atividades criminosas à distância.
As investigações apontam ainda que, a partir dessas conexões, práticas de exploração territorial usadas no Rio passaram a ser reproduzidas em outros estados. Entre elas estão a cobrança de taxas e o controle do fornecimento de internet.
A Polícia Civil também tem informações sobre a presença de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) na comunidade. Segundo os investigadores, a Maré funciona não apenas como esconderijo e ponto de articulação, mas também como espaço para reuniões entre integrantes de diferentes grupos criminosos. Os encontros teriam como finalidade estabelecer acordos para fortalecer o mercado ilícito, facilitar a circulação por diferentes rotas e viabilizar negociações envolvendo armas e drogas.
Um dos exemplos citados pelos investigadores é o Baile da Disney, na Maré. Segundo a polícia, o evento recebe de forma "amigável" criminosos de outros estados e de diferentes facções.
Os investigadores também apontam o baile como uma plataforma de monetização do crime organizado. De acordo com as apurações, o local seria utilizado para a circulação e venda de produtos provenientes de cargas roubadas e concentraria receitas obtidas com a exploração de bebidas, alimentos e outros espaços sob controle da facção.
A localização da Maré é outro fator considerado estratégico pela polícia. O conjunto de comunidades está próximo de alguns dos principais corredores viários da Região Metropolitana, como a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela. Segundo as investigações, essa posição facilita a entrada e a saída de criminosos, além de permitir a chegada e a redistribuição de cargas roubadas e o acesso rápido a diferentes rotas de fuga.
Dentro desse território, moradores relatam que a dinâmica mudou desde a morte de Thiago da Silva Folly, conhecido como TH da Maré. O traficante foi morto durante uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Polícia Militar, na madrugada de 13 de maio de 2025.
Segundo moradores, após a morte de TH, Michel de Souza Malveira, o Mangolê, e Bill da Maré passaram a exercer influência na região. Os relatos apontam que novas ordens foram dadas, entre elas a autorização para a venda de crack em determinados pontos e para a instalação de barricadas em locais que anteriormente não tinham obstáculos desse tipo.
Na Baixa do Sapateiro, o Largo IV Centenário passou a ter barricadas, segundo moradores. A Rua Nova Jerusalém, que faz a divisa entre a Baixa do Sapateiro e a Nova Holanda, também está cercada por obstáculos. No trecho fica a Escola Municipal IV Centenário.
Outro ponto estratégico é a Avenida Guilherme Maxwell, que liga a região da Escola Bahia, na Passarela 7 da Avenida Brasil, à Linha Amarela e dá acesso ao Museu da Maré. A via é utilizada por moradores como alternativa para fugir dos congestionamentos do entorno, mas passou a conviver também com a presença de criminosos e barricadas, segundo relatos.
Além dos obstáculos físicos, moradores relatam que vias da região passaram a ser utilizadas por criminosos para roubos de veículos. Segundo os relatos, homens armados com fuzis abordam carros e caminhões de carga e levam os veículos para dentro da comunidade.
A situação também afeta o transporte. Vans que circulam pelo Parque União, comunidade historicamente associada ao Comando Vermelho, conseguem passar por determinados trechos, mas, segundo moradores, são proibidas de fazer paradas.
Moradores também relatam invasões de casas. Segundo os relatos, usuários de drogas entram em imóveis e levam pertences para trocá-los por entorpecentes.
Moradores afirmam ainda que criminosos armados utilizam áreas próximas a escolas e unidades de saúde como pontos de observação das vias de acesso às comunidades.
Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) CF Adib Jatene, na Avenida Bento Ribeiro Dantas, em frente à Linha Amarela, na altura do Pinheiro, homens armados com fuzis estariam fazendo a vigilância da movimentação na região. Segundo os relatos, eles colocam uma cadeira diante da entrada principal da unidade e permanecem no local observando quem entra e sai da comunidade.
As restrições, de acordo com moradores, chegam ao comércio. Há relatos de pessoas impedidas de comprar produtos em mercados e outros estabelecimentos localizados do outro lado dessas fronteiras informais.
Quem desobedece às ordens pode sofrer punições impostas pelo chamado "tribunal do tráfico", segundo os moradores.
Na prática, as regras estabelecidas pelos grupos criminosos criam limites dentro do próprio Complexo da Maré e condicionam atividades cotidianas — como pegar transporte, fazer compras, levar crianças à escola ou buscar atendimento médico — ao domínio territorial de cada facção.
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