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Complexo da Maré: operação e confronto entre PM e tráfico quase terminam em tragédia envolvendo adolescentes

Aluno é ferido na Maré, e bandidos abordam dois ônibus com estudantes na Linha Vermelha

Agência O Globo - 29/09/2026
Complexo da Maré: operação e confronto entre PM e tráfico quase terminam em tragédia envolvendo adolescentes
Operação e confronto entre PM e tráfico quase terminam em tragédia envolvendo adolescentes

Uma operação policial no Complexo da Maré, na Zona Norte, na manhã de ontem, por pouco não terminou em tragédia para um aluno de uma escola municipal, atingido no rosto por estilhaços de uma granada, e para dezenas de estudantes de um colégio particular da Barra da Tijuca, que estavam em dois ônibus interceptados por bandidos na Linha Vermelha. Os criminosos desistiram de atear fogo aos veículos ao perceber que se tratava de uma excursão de adolescentes. Já o jovem de 12 anos ferido recebeu alta do hospital horas depois. Na ação, três suspeitos foram mortos, e outras 12 pessoas ficaram feridas, entre elas um PM.

Cerca de cem alunos da Escola Eleva seguiam em três ônibus para o Sul Fluminense. Dois deles foram parados por homens armados na altura de Cordovil, perto do acesso para a Baixada Fluminense. Segundo a polícia, a ordem para usar coletivos como barricadas teria partido de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP). O traficante tem 79 anotações criminais e 26 processos no Tribunal de Justiça e continua em liberdade. A corporação afirmou que o ataque foi uma represália à chegada dos policiais à Maré e uma tentativa de forçar as forças de segurança a deixar a região, facilitando a fuga dos bandidos. Peixão já foi acusado antes de ordenar ataques a inocentes em reação a operações policiais.

Aluno da Escola Municipal Teotônio Vilela, o adolescente ferido foi levado para o Hospital Federal de Bonsucesso e, em seguida, transferido para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha. Outras 41 unidades de ensino na Maré não funcionaram ontem devido ao confronto, assim como quatro postos de saúde. Ainda no complexo de favelas, o ator Marcos Henrique Jr., que já participou de séries como “Arcanjo Renegado” (Globoplay) e “Impuros” (Disney+), mostrou o portão depredado e a fachada de sua casa marcada por tiros.

Os estudantes da Eleva — com 11 e 12 anos — foram transferidos para outros ônibus e seguiram rumo a Vassouras, no Sul Fluminense, para uma atividade extracurricular. A mãe de uma das alunas foi contactada pelo GLOBO e, abalada, não quis dar entrevista. Outra mãe, uma influenciadora digital de viagens, escreveu numa rede social: “Muito triste vivermos nessa realidade. Mas ele (seu filho) e todas as crianças estão bem”.

A influencer relatou na internet que os alunos ficaram sob tensão por cerca de uma hora e trinta minutos. Policiais informaram que, mesmo não tendo entrado no veículo, os bandidos arremessaram pedras e pedaços de pau. Ao notarem que no interior havia crianças, eles fugiram com as chaves, e deixaram os ônibus com os alunos dentro atravessados na via, o que provocou grande congestionamento. Policiais civis, militares e homens da Força Municipal de Duque de Caxias acompanharam a retomada da viagem pelos ônibus.

À TV Globo, Marianna Pires, mãe de outra aluna, contou que a filha chegou a confundir a ação dos criminosos com um assalto, mas a tranquilizou em seguida:

— Ela disse: “Teve um assalto aqui na viagem, o ônibus está parado, mas está todo mundo bem”. É claro que a gente fica em pânico, em desespero, gera uma taquicardia, uma sensação de impotência. A gente cria os nossos filhos dentro de toda a possibilidade de segurança, mas não tem como blindá-los de tudo — disse Marianna. — Em nenhum momento, as crianças entraram em desespero.

Em comunicado, a Eleva informou que, durante toda a situação, os estudantes ficaram sob cuidados da equipe responsável, que acionou o protocolo de segurança da instituição. “O bem-estar dos nossos alunos continua sendo nossa prioridade, e estamos oferecendo o apoio e o acolhimento necessários aos estudantes e às famílias neste momento”, diz a nota.

Priscilla Montes, educadora e especialista em Neuroeducação e Desenvolvimento Infantil, diz que estudantes afetados pela violência podem ter diferentes sequelas, a depender de cada pessoa e do tipo de experiência vivida.

— Para muitas dessas crianças, ocorrências como essas podem reforçar medos que já fazem parte de sua realidade, contribuindo para um estado de alerta constante. Isso não significa que todas desenvolverão um trauma, mas experiências de ameaça podem desencadear medo, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e até resistência em frequentar a escola ou utilizar determinados meios de transporte — diz a especialista.

Em nota, o governo do estado afirmou que “repudia veementemente o ataque de facção criminosa à população, provocando feridos a tiros, atravessando ônibus em vias, impedindo o funcionamento de serviços públicos e o direito de ir e vir da população”. Acrescentou que as “vítimas foram acolhidas” e que “todas as medidas cabíveis foram adotadas para responsabilizar os envolvidos e garantir que episódios semelhantes não se repitam”.

A operação de ontem mobilizou 200 policiais militares dos batalhões de Operações Especiais (Bope), Tático de Motociclistas (BTM), de Polícia de Choque (BPChq) e de Ações com Cães (BAC), que estiveram nas comunidades Vila do João, Vila dos Pinheiros, Salsa e Merengue, Conjunto Esperança e Morro do Timbau. Doze pessoas foram presas em flagrante. Os agentes apreenderam ainda 12 fuzis, oito pistolas, granadas e 83 quilos de drogas, além de recuperar seis veículos.

Páginas de redes sociais da Maré informaram que, quando a incursão policial começou na madrugada, havia nas ruas pessoas que tinham participado de uma parada LGBTQIA+, além das que tinham celebrado o Dia de São Cosme e São Damião. Já a polícia informou desconhecer a realização de festa religiosa na comunidade e que, na verdade, havia um baile frequentado por integrantes do TCP da Maré e do Complexo de Israel (integrado por Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade Alta, Pica-Pau e Cinco Bocas), chefiado por Peixão.

O porta-voz da PM, major Maicon Pereira, disse que a operação foi realizada para combater a atuação do tráfico e a circulação de armas na Maré:

— Criminosos costumam se deslocar entre comunidades da mesma facção nos fins de semana para confraternizar. Temos várias informações que chegam aos nossos canais de inteligência. Por isso, chegamos a esse grande número de pessoas presas. Estamos, agora, fazendo o levantamento para tentar entender a importância e o papel de cada um dos presos dentro da facção.

De acordo com a PM, as três pessoas mortas eram suspeitas de envolvimento com o crime. Entre os 13 feridos, há ainda um adolescente de 15 anos que teria ficado sob custódia no hospital.