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Paróquia de São Cosme e São Damião guarda ex-votos em gratidão aos santos

Devotos de gêmeos, festejados neste fim de semana, celebram graças na ‘Sala dos Milagres’

Agência O Globo - 27/09/2026
Paróquia de São Cosme e São Damião guarda ex-votos em gratidão aos santos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: OpenAI (GPT Image)

Uma mãe dirigia na Avenida Brasil com seu filho bebê acomodado em uma cadeirinha no banco de trás do carro. O veículo foi atingido por outro, e a colisão foi tão grave que o assento e a criança foram parar às margens da rodovia. Diante da situação, a mãe exclamou: “valei-me São Cosme e São Damião!” E os santos parecem ter atendido ao pedido: o menino saiu ileso do acidente. Agradecida pelo que considerou um milagre, a mulher foi à Paróquia de São Cosme e São Damião, no Andaraí, na Zona Norte do Rio, deixar a cadeirinha onde o filho estava como uma relíquia que remete a uma graça ou a um livramento concedido pelos santos.

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A atitude da mulher evoca a tradição da produção de quadros, inscrições ou ex-votos — peças de cera ou madeira que representam partes de corpos e objetos — em agradecimento a alguma graça alcançada. A igreja do Andaraí, que precisou criar uma sala para guardar esses itens referentes a preces atendidas, será elevada a santuário — lugar de peregrinação — em 2027. O anúncio foi feito ontem pelo arcebispo do Rio, o cardeal Orani João Tempesta, que celebrou uma missa na paróquia, o primeiro santuário dedicado a São Cosme e São Damião no Brasil.

Nessa mesma sala na igreja, fica o “Livro de registro de milagres”, que guarda o relato dessa mãe e de centenas de outras histórias de bênção dos gêmeos, celebrados hoje, dia 27 de setembro, na cultura das religiões de matriz afro-brasileira. Já a Igreja Católica decidiu, em 1969, mudar a data para 26 de setembro porque São Vicente de Paulo também é lembrado hoje.

— Ela veio aqui, contou a história, deixou o assento, acendeu velas e mandou celebrar uma missa. Na época, ela disse: “Foram São Cosme e São Damião que salvaram o meu filho, porque era para ele ter morrido ali” — contou Maria Torres Barbosa, aposentada de 77 anos, que desde 2025 ajuda como voluntária a cuidar do espaço chamado carinhosamente de “Sala dos Milagres”.

No local, há inúmeros ex-votos nos moldes mais tradicionais. Uma devota, que teve a visão do seu filho curada, levou à sala dois desses objetos feitos de cera. A mulher visitou a igreja em setembro de 2021, deixando um relato no livro dos milagres:

“Venho agradecer a São Cosme e São Damião a graça pela cura dos olhos do meu filho. Com apenas 4 anos de vida, teve a cura dos olhos e não precisou passar por cirurgia graças à intervenção de São Cosme e São Damião. Como agradecimento, eu deixei nesta sala uma vela de 80 centímetros, tamanho do meu filho, e um olho de cera”.

Santos médicos

Cosme e Damião viveram no século III, na região que hoje abriga países do ocidente da Ásia. Devotos de Jesus Cristo, os irmãos gêmeos eram médicos e ofereciam atendimento gratuito. No entanto, a profissão de sua fé desagradava ao imperador Dioclesiano, da Síria, que perseguia cristãos; a dupla teve a morte encomendada pelo líder político após se recusar a negar sua crença. A bravura dos dois atravessou os tempos e, no século VI, eles foram reconhecidos como santos pelo Papa Félix IV.

Por terem atuado como médicos, muitos fiéis enfermos direcionam preces a Cosme e Damião. Entre os itens deixados na “Sala dos Milagres” está uma roupa infantil, verde, vermelha e branca, que remete às vestimentas usadas por Cosme e Damião. O pequeno traje foi vestido em um menino que sobreviveu após uma cirurgia de alto risco. Os responsáveis levaram a criança à igreja usando a vestimenta e deixaram a peça lá como forma de agradecimento.

Outros objetos que estão no local são uniformes de cursinho de quem passou no vestibular de Medicina, além de veículos de brinquedo, levados por pessoas que sobreviveram a acidentes de trânsito. Maria Torres Barbosa não deixou itens nem relatos, mas virou devota dos gêmeos desde que se mudou para o Andaraí, em 1980:

— Eu caí, fraturei a bacia e fiquei 12 dias no CTI. Se tivesse quebrado mais, correria risco de ficar paralítica. Em um mês, voltei a andar, graças à intercessão de São Cosme e São Damião.

A tradicional distribuição de doces está entre os festejos que Maria ajuda a organizar. O calendário de celebrações na paróquia começou dia 13 de setembro e se estende até hoje. A programação deste domingo começa com queima de fogos, às 5h30, seguida de missas e almoço. A procissão sai às 18h da igreja. A última missa será às 19h30.

— Como todo carioca, vivi aquela febre de pegar doce nas ruas. Sou de Olaria, e lá, desde novo, eu, os meus amigos e os vizinhos pegávamos. Essa tradição é muito da cultura do Rio de Janeiro. Minha família também sempre deu doce — lembra o pároco Rodrigo Brum.

“A igreja dedicada aos gêmeos, no Andaraí, fica parecendo até quintal em dia de samba de roda: é alegria na veia”, diz um trecho de “O corpo encantado das ruas”, livro de Luiz Antonio Simas, historiador e entusiasta dos ritos populares do Rio.

A tradição de dar doce e o vínculo com as crianças vêm dessa reunião da fé com as ruas e com o sincretismo entre o catolicismo e religiões de matrizes africanas.

* Estagiária sob a supervisão de Rafael Galdo