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Rio concentra mais da metade dos roubos de carga do país; prejuízo já passa de R$ 200 milhões

Dado é do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Número no estado vem apresentando queda nos últimos meses, apesar de o prejuízo causado pelo crime ter aumentado 39% porque bandidos miram produtos mais valiosos.

Agência O Globo - 24/09/2026
Rio concentra mais da metade dos roubos de carga do país; prejuízo já passa de R$ 200 milhões
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Nos oito primeiros meses deste ano, o Estado do Rio concentrou 53% dos roubos de carga registrados em todo o país, segundo dados consolidados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Embora as ocorrências estejam em queda nos últimos meses, o prejuízo causado pelo crime aumentou 39% em comparação com o registrado no mesmo período do ano passado: cerca de R$ 201,1 milhões em produtos foram levados por criminosos, informou o Sindicarga. Em 2025, no mesmo período, o valor foi de R$ 144,4 milhões.

Viagens, notebooks e descontos:

Tolerância Zero:

De acordo com levantamento da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Polícia Civil (DRFC), já foram registrados 2.084 roubos de carga este ano. O número está em queda desde março, quando atingiu o pico de 397 registros. No mês passado, as delegacias receberam apenas 130 ocorrências, o melhor resultado de 2026 e o menor patamar para agosto em mais de 20 anos. A Polícia Civil atribui essa queda ao trabalho de inteligência e à cooperação com a Polícia Militar e a Polícia Rodoviária Federal.

Na estatística do Ministério da Justiça, porém, o total de casos no Rio até agosto é maior: 2.566 ocorrências, superando São Paulo, que soma 1.636 registros, segundo o órgão federal. O presidente do Sindicarga, Filipe Coelho, afirma que a diferença entre os números dos dois estados pode ser explicada pela falta de padronização na classificação de roubos de carga.

— Dificilmente o Rio ficará com números tão superiores a São Paulo porque lá há um volume muito maior de carga. Por isso, nós vamos apresentar ao Ministério da Justiça uma reivindicação para que esses dados sejam padronizados — afirma Coelho.

Fonte para o tráfico

O diretor da DRFC, André Prates, explica que, no Rio, o roubo de carga representa parte considerável do lucro do tráfico, que fornece armamento, veículos de apoio e suporte territorial para receber o caminhão e fazer o transbordo dos produtos. Em troca, os criminosos recebem uma comissão sobre o valor da mercadoria revendida.

— São mercadorias valiosas e, geralmente, eles já contam com uma rede de receptação e sabem como vão pulverizar esses produtos.

O delegado explica que os criminosos adotam diversas práticas para definir qual carga vão abordar, a depender do nível de especialização do grupo. Há casos em que eles contam com pessoas infiltradas nas empresas fornecedoras ou nas que fazem o monitoramento das cargas, mas também utilizam rondas em locais de pernoite de caminhões e olheiros nas rotas de transporte. Nesse universo, há ainda grupos que abordam um carregamento sem sequer saber do que se trata. Depois de render os motoristas, eles entram em contato com os chefes do tráfico para saber se a mercadoria interessa e para onde levar o material.

Os especialistas ouvidos pelo GLOBO também apontam uma mudança no perfil das cargas visadas pelos criminosos, com preferência por mercadorias maiores, que envolvem mais riscos, porém podem proporcionar um lucro superior, e por produtos de grande valor agregado, como medicamentos. Segundo levantamento da DRFC, mesmo com essa dinâmica, os produtos alimentícios ainda predominam entre as cargas roubadas, por serem de fácil distribuição e comercialização.

No dia 21 de maio, um motorista de caminhão aguardava para descarregar uma carga de leite condensado e creme de leite, estacionado em frente a um mercado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, quando foi abordado por assaltantes armados. “Perdeu, entra no carro; não queremos nada com você, só queremos a carga”, teriam dito os criminosos, segundo depoimento da vítima à polícia.

O motorista contou que os criminosos o levaram para a Penha, ordenando que ele mantivesse a cabeça baixa ao entrar na comunidade. A vítima disse que ficou horas no local enquanto ouvia os criminosos ligarem para consultar para onde o caminhão seria levado após a retirada dos produtos. Nesse tempo, recebeu ligações da empresa responsável pelo gerenciamento de risco, mas os traficantes não o deixaram atender. Depois de retirarem todo o material, os ladrões o levaram de carro até a Cidade Alta, em Cordovil, onde foi deixado. O caminhão foi encontrado pela polícia vazio, em outro lugar, no mesmo dia. A carga roubada foi avaliada em mais de R$ 260 mil.

94% de reincidentes

O presidente do Sindicarga diz que no Rio um dos principais problemas do roubo de carga está na reincidência dos criminosos. Ele conta que a entidade analisou cem processos judiciais envolvendo esse tipo de crime nos últimos três anos e identificou que, dos 168 réus acompanhados, 158 eram reincidentes — ou seja, 94%.

— Nós entendemos que não é necessariamente o trabalho da polícia que está faltando. A maioria dos ladrões de carga sai da cadeia antes de dois anos, e esse é um dos grandes pontos por que eles acham que o crime compensa, já que saem e fazem a mesma coisa — argumenta Coelho.

O delegado da DRFC afirma que, além da reincidência, outro problema é que as quadrilhas passaram a aliciar adolescentes para abordar caminhões nas estradas.

— Os veículos de carga contam com um sistema de bloqueio que é acionado quando a porta é aberta por fora durante o deslocamento. Então, os criminosos passaram a aliciar adolescentes para que abordem os veículos e consigam entrar com mais facilidade pela janela, o que um adulto não conseguiria com tanta rapidez — explica.