RJ em Foco
Golpe da falsa audiência de Justiça fez vítima perder R$ 10 mil no Rio
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam que estelionato é o segundo crime mais registrado no estado. Média é de um caso a cada três minutos
Dois dias antes de uma audiência na Justiça, na qual seria julgado um pedido de indenização contra uma companhia aérea que havia desviado suas malas do destino e atrasado em mais de dez horas o horário de um voo internacional, uma jornalista recebeu uma mensagem por um aplicativo de conversas. Uma pessoa que dizia ser sua advogada revelou que o ato processual havia sido antecipado para aquele momento e que, em seguida, um juiz faria, por ali mesmo, o julgamento do caso. Era tudo uma farsa. Após um falso magistrado pedir, por meio de um áudio, dados da sua conta bancária, ela perdeu R$ 10 mil. O crime do qual X. foi vítima é o estelionato, o segundo delito mais registrado no Rio, com média de um caso a cada três minutos.
Tudo aconteceu no dia 30 de março, após uma conversa de quase meia hora pelo aplicativo de mensagens, que incluiu a participação da advogada de mentira. O falso magistrado instruiu a vítima a passar informações sobre sua conta bancária. O estelionatário também enviou um link para a jornalista clicar, o que pode ter facilitado o acesso dos golpistas a dados que constavam no celular dela.
— Ela (a falsa advogada) ficou o tempo inteiro me dando instruções. Falava tudo o que era do processo, o número, etc. Dizia: "Faça tudo que ele pedir, ele é um juiz". E ele disse assim: "Olha, me dá sua conta, para você não pagar imposto em cima do que você vai receber". Nem era uma fortuna. Mas você fica muito vulnerável, porque é tudo tão verídico. Ele falava um português impecável, educadamente, tinha uma postura de uma autoridade, sabe?
A vítima só desconfiou de que poderia ser um golpe quando o homem fez perguntas sobre aplicações financeiras. Naquele momento, ela desligou o telefone, mas era tarde. O golpe da falsa audiência com um juiz já havia sido aplicado. Com os dados da jornalista, os bandidos transferiram R$ 10 mil para uma conta. Ela registrou o caso na 15ª DP (Gávea), mas não conseguiu recuperar a quantia. A Polícia Civil afirmou atuar de forma permanente na repressão a todas as modalidades de estelionato.
Não foi um crime isolado. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam que o crime de estelionato está a poucos números de superar o total de furtos, delito mais registrado no estado desde o início da série histórica, em 2003. Em números absolutos, foram 113.068 ocorrências de golpes de janeiro a agosto de 2026 — uma média de um caso a cada três minutos. Já a quantidade de furtos no mesmo período foi de 113.896. A comparação entre os crimes revela uma diferença de apenas 828 casos.
A presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio (OAB-RJ), Ana Tereza Basílio, disse que a instituição recebeu mais de três mil denúncias de golpes envolvendo falsos advogados. Ela alertou que a simulação de uma audiência é mais uma forma usada para enganar as pessoas.
— O que nós temos percebido é uma sofisticação cada vez maior por parte dos criminosos, que usam recursos de inteligência artificial para copiar áudio e imagens dos verdadeiros advogados para enganar as vítimas. Infelizmente, essa simulação de audiência é mais uma forma de enganar as pessoas e tomar dinheiro de forma indevida — disse a presidente da OAB.
Nem todos os golpistas, no entanto, agem a partir de ferramentas digitais. No último dia 14 de setembro, por exemplo, policiais da 15ª DP prenderam três suspeitos de integrar um bando especializado no golpe do falso bilhete premiado. Segundo a investigação, o grupo abordava principalmente idosos em pontos da Zona Sul do Rio. Em seguida, convencia a vítima a entregar dinheiro, joias ou fazer transferências bancárias em troca de supostos bilhetes de loterias premiados. Uma aposentada abordada na Gávea perdeu R$ 60 mil no golpe.
Segundo a polícia, no último dia 2 de setembro, a vítima foi abordada por um casal, que afirmou ter um bilhete premiado de R$ 10 milhões. Os suspeitos disseram que não poderiam retirar o prêmio por motivos religiosos e ofereceram o bilhete por R$ 60 mil. O casal a acompanhou até uma agência bancária, onde ela fez uma transferência para a conta indicada pelos criminosos. Em troca, recebeu um bilhete falso.
Por meio de imagens de câmeras de segurança, agentes identificaram o carro usado pelos criminosos e, no dia 14, conseguiram interceptá-lo em Copacabana. No veículo, estava o casal que deu o golpe e outro comparsa, além de diversos bilhetes de loterias. Um quarto suspeito ainda é procurado.
Sobre o golpe da falsa audiência, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) alertou que os magistrados e os servidores da Corte não solicitam a transferência de dinheiro para contas bancárias, Pix ou qualquer outra forma de envio de valores, nem pedem senhas bancárias, tokens, códigos de segurança ou credenciais de acesso a dados pessoais.
Ainda segundo o TJ, diante de qualquer pedido envolvendo quantias ou dados bancários supostamente relacionados a um processo judicial, a orientação é interromper o contato e fazer uma checagem. O tribunal afirma que o cidadão deve procurar seu advogado ou a Defensoria Pública pelos telefones ou outros canais que já utilizava anteriormente, sem responder ao número que iniciou o contato.
Em nota, a Polícia Civil disse atuar na investigação e na repressão a todas modalidades de estelionato. E que o avanço das tecnologias e dos meios digitais também tem sido utilizado pelos criminosos. Abaixo, a íntegra do documento enviado pela corporação.
" Polícia Civil atua de forma permanente na investigação e repressão a todas as modalidades de estelionato. O avanço das tecnologias e dos meios digitais também tem sido utilizado por criminosos para ampliar as formas de abordagem e alcançar potenciais vítimas, o que exige constante aprimoramento das técnicas de investigação e do trabalho de inteligência policial.
Não há um perfil único de vítima. Pessoas de diferentes faixas etárias podem ser alvo de golpes, que envolvem desde falsas ofertas e empréstimos até fraudes praticadas por meio de aplicativos, redes sociais e serviços bancários. A Instituição orienta que todos os casos sejam registrados para que possam ser investigados de forma individual e para que os autores sejam identificados e responsabilizados criminalmente.
Vale destacar que a Polícia Civil mantém investigações em andamento para identificar e responsabilizar autores de estelionatos e associações criminosas envolvidas nesse tipo de prática. Denúncias também podem ser encaminhadas ao Disque Denúncia (2253-1177). O anonimato é garantido."
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