RJ em Foco

Rio registra 2,1 mil chamados por ameaça de desabamento em 2026; número já supera todo o ano passado

Casarão que desabou no Cosme Velho havia sido vistoriado três vezes e estava interditado; mãe e filha ficaram feridas

Agência O Globo - 21/09/2026
Rio registra 2,1 mil chamados por ameaça de desabamento em 2026; número já supera todo o ano passado
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O desabamento parcial de um casarão no Cosme Velho, na Zona Sul do Rio, que deixou uma mulher de 43 anos e a filha dela, de 2, feridas no sábado, é parte de um problema que se repete em diferentes pontos da cidade. De acordo com dados do site 1746, da Prefeitura do Rio, foram registrados 2.121 chamados para vistoria por ameaça de desabamento de estrutura entre janeiro e setembro deste ano. O número já supera as 2.005 solicitações registradas em todo o ano passado.

Dos chamados feitos neste ano, 65 permanecem em aberto e 1.244 foram solucionados. A Zona Norte concentra a maior parte das solicitações, com 1.074 registros. Na região, Tijuca e Engenho Novo aparecem com os maiores números. Na Zona Oeste, Campo Grande é o bairro com mais chamados, com 122.

No Cosme Velho, mãe e filha passavam pelo corredor de acesso à vila onde moram quando parte do segundo pavimento de um casarão caiu sobre elas. A menina estava em um carrinho. Câmeras de segurança registraram o momento do desabamento. As duas foram socorridas pelo Corpo de Bombeiros e levadas inicialmente para o Hospital Miguel Couto, na Gávea. Depois, foram transferidas para um hospital particular. Segundo os bombeiros, mãe e filha foram classificadas como vítimas amarelas, de gravidade moderada.

O imóvel que desabou, na Rua Cosme Velho, já era conhecido pelas autoridades e por moradores. Seis meses antes do acidente, a associação Viva Cosme Velho havia entregue à Subprefeitura da Zona Sul um dossiê de 51 páginas com problemas identificados em cinco casarões da região. Entre eles estava o número 370, onde ocorreu o desabamento.

Segundo o levantamento, o imóvel apresentava infiltrações, revestimentos se desprendendo, esquadrias danificadas, problemas no telhado e vegetação avançando sobre a construção. O documento também alertava para a faixa de interdição colocada pela Defesa Civil no local e para a falta de uma alternativa segura de circulação para os moradores da vila vizinha.

Segundo a prefeitura, o casarão havia passado por três vistorias da Defesa Civil. Em 2023, o proprietário foi orientado a fazer obras de recuperação. Em duas novas inspeções realizadas em 2025, foi constatado que as intervenções não haviam sido feitas, e o imóvel acabou interditado. A Secretaria municipal de Desenvolvimento Urbano também intimou o proprietário a recuperar o casarão, inclusive a fachada.

Moradores, porém, afirmam que os problemas eram anteriores à interdição. Segundo a associação Viva Cosme Velho, houve um pedido de vistoria pelo 1746 no fim de 2025. A Defesa Civil foi ao local e instalou a faixa de interdição.

— A associação vem denunciando e fazendo pedidos à prefeitura não só para esse casarão, mas para outros imóveis que também estão em risco. Fizemos um pedido pelo 1746 no fim de 2025, a Defesa Civil veio aqui e colocou a faixa. Nós voltamos a insistir, mas infelizmente aconteceu essa tragédia — diz Luciana Falcão, integrante da Viva Cosme Velho e moradora da região.

O município anunciou, após o acidente, a desapropriação do imóvel. A Defesa Civil também interditou o segundo pavimento do imóvel vizinho, que foi atingido pelos escombros. Os andares superiores das construções serão demolidos pela Secretaria municipal de Conservação, enquanto a Comlurb faz a retirada dos destroços.

A deterioração do casarão também já havia sido percebida por moradores. Michael Rock, que vive na região há cerca de 20 anos, conta que não foi a primeira vez que partes da construção atingiram alguém.

— Era uma tragédia anunciada. A gente já tinha tido problemas antes, já tinha caído coisa sobre uma pessoa e ela chegou a quebrar o nariz. Depois da pandemia, quando a padaria fechou, a situação piorou — afirma Rock.

O desabamento aconteceu por volta das 9h de sábado. Moradores ouviram um estrondo e, em seguida, os gritos das vítimas. Isolda Rabelo, que mora há 45 anos na vila e conhece mãe e filha, estava saindo de casa quando viu as duas feridas no chão.

— Não consegui dormir com aquela imagem na cabeça. Ainda tive tempo de vê-las no chão, muito machucadas. Foi uma imagem horrível. Estamos muito abalados — conta Rabelo.