RJ em Foco
Ataque aéreo: drones que lançam bombas mudam padrão dos confrontos do crime organizado no Rio
Levantamento interno da Polícia Civil aponta 17 ataques com drones desde o ano passado
De ferramenta de vigilância a arma de guerra, os drones passaram a ocupar um papel cada vez mais estratégico nos conflitos armados do Rio. Para as forças de segurança, os equipamentos são usados em operações e no monitoramento de inteligência, ajudando a estudar territórios, identificar a presença de traficantes e milicianos e planejar incursões em comunidades. Do outro lado, o tráfico incorporou a tecnologia à disputa pelo controle territorial, usando para monitorar a movimentação da polícia, transportar armas e lançar explosivos. Um levantamento interno da Polícia Civil, com base em registros de ocorrências, identificou pelo menos 17 ataques com uso do equipamento desde o ano passado — sendo 12 deles somente neste ano.
Mãe e filha atingidas por desabamento de casarão no Cosme Velho
Após desabamento,
A popularização e sofisticação do uso de drone pelo crime organizado colocam o Rio diante de uma mudança que remete à chegada dos fuzis às comunidades, nos anos 1980. Naquela época, a nova arma alterou a dinâmica dos confrontos e obrigou as forças de segurança a rever estratégias, equipamentos e treinamento. Agora, os drones começam a produzir um efeito semelhante, ampliando o alcance e a capacidade de ataque das organizações criminosas.
— É uma nova mudança de paradigma. E, assim como foi naquela época, é algo que não vai regredir mais. Pelo contrário, pode ter uma escalada — explica Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador na Universidade de Coimbra.
Prova de conhecimentos:
Na disputa por territórios no Rio, os drones já fazem parte da rotina dos conflitos. Em uma troca de mensagens do início do ano passado, obtida pela polícia, um traficante enviou a Edgar Alves de Andrade, o Doca, imagens de drone de uma comunidade dominada pelo Terceiro Comando Puro (TCP), em Irajá, na Zona Norte. A resposta do criminoso foi direta: “É isso, vamos matar”. Além de serem usados no planejamento de ataques contra grupos rivais, os equipamentos são frequentemente empregados para monitorar as comunidades e identificar a movimentação das forças de segurança. Em outra conversa, Doca recebeu imagens feitas por um drone equipado com câmera térmica que mostravam a movimentação em um dos acessos ao Complexo da Penha, um dos principais redutos da facção criminosa.
Embora a maioria dos ataques com drones esteja relacionada a disputas entre facções rivais, a tecnologia também já foi usada contra forças de segurança. Um episódio recente ocorreu em julho, quando uma equipe do 16º BPM, durante uma operação na comunidade Cinco Bocas, no Complexo de Israel, área controlada pelo Terceiro Comando Puro (TCP), foi alvo de explosivos lançados por drones.
De vitrolas e câmeras analógicas a fitas VHS e outros objetos:
‘Potencial de destruiçã
O coronel Sylvio Ricardo Ciuffo Guerra, secretário da Polícia Militar, afirma que a utilização dessas tecnologias reproduz estratégias empregadas em conflitos de guerra ao redor do mundo. No Rio, porém, a preocupação é agravada por serem empregados em áreas densamente povoadas.
— Quando uma granada é lançada no interior de uma comunidade, o potencial de destruição e de danos às pessoas é enorme. Por isso, o investimento em equipamentos e tecnologias antidrones é fundamental para que possamos realizar nossas operações com mais segurança, protegendo nossos policiais e quem vive nessas comunidades — explica.
Ex-hotel:
Para transformar drones comuns em armas, criminosos recorrem a diferentes tipos de adaptações caseiras. Um equipamento originalmente usado para soltar pétalas em casamentos, por exemplo, ganhou outra função nas mãos de criminosos no Rio: acoplado a um drone e acionado por sensor de luz, o dispenser já foi usado para liberar explosivos a distância. Segundo a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas da Polícia Civil, só neste ano foram apreendidos 31 drones com pessoas suspeitas de integrar organizações criminosas. O baixo custo para transformar as aeronaves remotamente pilotadas em armas também é destacado em relatório recente da ONG Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) sobre o uso de drones por organizações criminosas na América Latina. A entidade aponta que enquanto é fácil adaptar em arma drone comercial barato, as medidas de combate, como sistemas de detecção e bloqueio de sinais, são caras e complexas. Especialistas ouvidos pelo GLOBO, porém, alertam para o risco de que as organizações criminosas avancem da improvisação para equipamentos cada vez mais sofisticados.
— É só olhar para o que tem sido utilizado em outros cenários, como na Colômbia e na Ucrânia, onde já sabemos que há muitos brasileiros atuando. Se essas pessoas retornarem e repassarem esse conhecimento, vamos criar sério problema no futuro — aponta Uchôa.
Carnaval 2027:
busca por antidrone
No início do mês passado, após troca de tiros entre policiais militares e traficantes na comunidade do Corte 8, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, agentes encontraram, com grupo de criminosos do Comando Vermelho (CV) que se preparava para invadir a região, um aparelho capaz de detectar a presença de drones. O equipamento é mais um indício de que as organizações criminosas também estão investindo em tecnologia para blindar o monitoramento de policiais e rivais.
E não é só o CV que busca esse tipo de tecnologia. Em denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra o ex-deputado estadual Thiago Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Jóias, o também denunciado Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, ex-assessor do parlamentar, aparece em conversas com um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP) falando sobre a aquisição de equipamentos. No diálogo, Wallace da Costa Trindade, o Lacoste, envia um áudio a Dudu: “E o identificador de drone? Tô precisando, cara. Andando muito drone pra lá e pra cá”.
Diversidade:
A denúncia também diz que os dispositivos eram comprados pela internet e repassados aos traficantes. Em uma conversa obtida na investigação, TH Jóias recebe uma foto com R$ 55 mil e a mensagem: “Da bazuca dos drones”. Segundo o MPF, o equipamento teria sido vendido para integrantes do CV.
Para o delegado Fabrício Oliveira, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), é urgente que as forças de segurança também tenham acesso a equipamentos antidrones:
— A resposta precisa acompanhar a velocidade da ameaça. A burocracia não pode determinar o ritmo da proteção de policiais e da população. É urgente que o estado supere a morosidade burocrática para colocar nas mãos das forças de segurança os recursos necessários para detectar, localizar e neutralizar esses drones, com protocolos compatíveis com o ambiente urbano.
Fim de estação:
No ano passado, o governo do Rio iniciou um processo para adquirir equipamentos antidrones, mas, segundo o Governo do Estado, a iniciativa foi interrompida após mudanças na regulamentação federal sobre o uso de radiofrequências dos equipamentos. O Ministério da Justiça afirmou que está adquirindo sistemas antidrones para repassá-los aos estados que registraram o uso do equipamento por organizações criminosas em ataques contra pessoas e edificações. “O primeiro contrato já foi assinado e, em breve, alguns equipamentos estarão à disposição das forças de segurança pública do Rio de Janeiro e dos demais estados”, informou o ministério, em nota.
Para Uchôa, porém, é preciso ir além do investimento em tecnologia e também mirar os explosivos e a rede de fornecimento desses materiais:
— O que não dá para fazer é repetir com os drones o que a gente fez com os fuzis: fingir que está combatendo ou fazer de forma errada e deixar que ele se agrave ao longo do tempo.
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