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Como será o futuro do Rio? Arquitetos apontam desafios para a cidade

Habitação no Centro, novo jeito de planejar bairros e adaptação às mudanças climáticas estão entre os temas discutidos no 1º Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Agência O Globo - 20/09/2026
Como será o futuro do Rio? Arquitetos apontam desafios para a cidade
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Na próxima quarta-feira, o Palácio Capanema recebe o 1º Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. O evento gratuito e aberto ao público terá cinco painéis, com representantes do poder público, da iniciativa privada e de profissionais da arquitetura.

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O GLOBO convidou três palestrantes para analisar, em artigos, alguns dos temas-chave para o futuro da cidade do Rio.

Participante do painel “Habitar o Centro: moradia e vida urbana”, Alexandre Pessoa, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, tratou do desafio de repensar a ocupação da região central, ampliando moradias populares.

A discussão também passa pela forma de planejar a cidade. Fundadora e diretora do Instituto Cidades Responsivas, Luciana Fonseca propõe um urbanismo mais flexível, que responda às transformações de cada território.

Diante das mudanças climáticas, Ilan Cuperstein, diretor regional da C40 Cities para a América Latina, destacou o urbanismo ambiental como uma questão de sobrevivência e justiça social.

Reconversão no centro do Rio

Alexandre Pessoa* Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ

O futuro do centro do Rio enfrenta o desafio urgente de reverter seu esvaziamento diante do baixo crescimento demográfico. Reportagens recentes do GLOBO revelam uma desaceleração populacional histórica na cidade, reflexo claro de um crescimento vegetativo. Esse panorama exige o redirecionamento imediato da expansão residencial: em vez de continuarmos estendendo a mancha urbana para encostas e periferias desprovidas de serviços, a prioridade absoluta deve ser o adensamento do perímetro central. É hora de aproveitar a robusta infraestrutura de transportes, serviços, cultura, educação, saneamento e energia que hoje se encontra ociosa. Felizmente, algumas ferramentas já existem e podem ser adaptadas.

O principal vetor dessa reconversão seria o “retrofit”. O novo Plano Diretor e as atualizações do Reviver Centro estruturariam essa transição por meio de licenças ágeis e do acionamento da Operação Interligada, transferindo o potencial construtivo para regiões próximas de baixa densidade como contrapartida. Paralelamente, o programa Reviver ProApac Patrimônio poderia ser expandido para incluir desapropriações e leilões de imóveis degradados, atrelando-os ao restauro obrigatório. Inspirada em modelos como o de Barcelona, a iniciativa incentivaria o direcionamento desses imóveis para formatos de habitação coletiva e uso misto, atraindo jovens, estudantes e artistas.

Outra frente seria a desburocratização de garantias locatícias ou a criação de um seguro público. Isso permitiria que trabalhadores informais alugassem imóveis ociosos. Nas novas construções, o licenciamento passaria a exigir térreos vivos. Os projetos não apresentariam muros cegos ou grades; as fachadas ativas com comércio local seriam determinantes para gerar fluxo de pedestres, ampliar a segurança e dinamizar a calçada.

Para mitigar a gentrificação, a política habitacional incluiria cotas de Habitação de Interesse Social e locação social, fixando a população de baixa renda perto dos empregos. Nesse processo, o poder público atuaria como indutor. Ao setor privado, caberia fornecer a diversidade imobiliária com qualidade projetiva e rigor ambiental. Diante da nova realidade demográfica, a moradia deixaria de ser um bem rígido, operando como serviço dinâmico via parcerias eficientes. Só essa união consolidaria o Centro como o eixo inteligente e democraticamente acessível de que o Rio e o Brasil precisam.

‘Urbanismo darwinista’

Luciana Fonseca* Diretora do Instituto Cidades Responsivas

O terceiro milênio impõe uma tarefa clara: superar o modelo tradicional de planejamento urbano e transformá-lo em uma base mais propositiva do que impositiva. Nessa ótica, planos diretores são desenhos dinâmicos de cidades, capazes de responder às transformações sociais, econômicas e ambientais. Trata-se menos de normativas rígidas e mais de capacidade de gestão, tendo a tecnologia como aliada.

As cidades são sistemas de trocas organizados de forma multiagente, articulando governos, mercados, academia e sociedade civil. É necessário promover cooperação, simplificar estruturas complexas e ampliar instrumentos que conectem agentes, oferecendo clareza jurídica e institucional. Essa dimensão estratégica permite articular oportunidades alinhadas às demandas reais da cidade. Envolve instrumentos como outorga onerosa, transferência do direito de construir, operações consorciadas, PPPs, Cepacs e planos setoriais para reprogramar áreas específicas, como centros históricos e antigas zonas industriais.

No Brasil, estamos gradualmente ampliando os exemplos de aplicação desse modus operandi. Recife, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre estão entre as cidades que desenvolvem iniciativas de retrofit e estímulo à ocupação de edifícios ociosos, com incentivos fiscais para ampliar a oferta de moradia e a diversidade urbana. São Paulo vem estruturando fundos para apoiar a requalificação de áreas centrais. No Rio de Janeiro, o Porto Maravilha combinou um mix programático potente e Cepacs como mecanismo financeiro para o desenvolvimento da Zona Portuária. E o Reviver Centro traz um dos exemplos que mais gosto de citar, porque mostra que o pulo do gato é saber o que perguntar ao território: quando o painel de monitoramento 3D apresenta edificações de dono único, seus dados facilitam a identificação de oportunidades para estratégias de retrofit, ampliando o potencial de transformação em escala.

Essas ações podem contribuir para cidades mais compactas, com ganhos potenciais de eficiência econômica e ambiental. O urbanismo contemporâneo exige menos rigidez e mais capacidade de adaptação, o que tenho chamado de “urbanismo darwinista”: planejar as condições para que a cidade se torne o sistema adaptável e responsivo que ela pode ser.

Cidade e natureza não são forças opostas

Ilan Cuperstein* Diretor regional da C40 Cities para a América Latina

Nossas cidades cresceram e se tornaram metrópoles sob a falsa premissa de que a cidade e a natureza eram forças opostas. Sob a lógica do progresso acelerado, rios foram canalizados e escondidos sob o asfalto, o solo foi impermeabilizado e a vegetação acabou confinada, salvo exceções em bairros de alta renda, a espaços delimitados, como parques e áreas de conservação. Essa abordagem moldou metrópoles vulneráveis, que hoje pagam um preço alto por tentarem domar os ecossistemas em vez de se integrarem a eles.

Diante do avanço das mudanças climáticas, manifestado em ondas de calor extremo, secas e enchentes devastadoras, essa divisão tradicional tornou-se insustentável. A gestão das cidades precisa migrar urgentemente de uma postura reativa para uma cultura de antecipação. Isso exige integrar a dimensão ambiental como um princípio transversal em todas as intervenções urbanas, das grandes obras de infraestrutura aos processos mais básicos da administração urbana: um projeto cicloviário deve prever, por exemplo, a arborização e o sombreamento do percurso, enquanto qualquer obra de calçamento deve adotar pisos drenantes.

A eficácia dessa visão alternativa já se reflete em casos concretos. Em Medellín, na Colômbia, a implantação de uma rede de corredores verdes integrando vias e praças reduziu a temperatura em até 5°C nas áreas de intervenção e em cerca de 2°C na média da cidade. Em São Paulo, mais de 200 jardins de chuva estão espalhados pela cidade para ampliar a capacidade de absorção da água pelo solo. No Rio, por sua vez, o avanço fica por conta de um sistema de monitoramento de chuvas e calor, que permite acompanhar em tempo real a evolução de eventos extremos e orientar a resposta do poder público. O próximo passo é transformar essa capacidade em uma estratégia de combate ao calor extremo, priorizando ações de mitigação nas áreas mais vulneráveis da cidade.

Mais do que uma estratégia de proteção da natureza, o urbanismo ambiental e climático é uma questão de sobrevivência e justiça social. Ao refundar a relação entre a cidade e a natureza, transformamos espaços vulneráveis em organismos vivos capazes de absorver impactos, salvar vidas e devolver a dignidade e a saúde ao cotidiano urbano. O planejamento climático não é um luxo do futuro, mas a ferramenta mais urgente para garantir o presente de nossas cidades.