RJ em Foco
Projeto Aquarius une gerações e ritmos na Praça Mauá
Em trégua da chuva na cidade, Orquestra Sinfônica Brasileira recebe Leci Brandão e Emicida em concerto que reuniu repertório erudito, samba, pop e rap e atraiu uma plateia diversa
A música soou no tempo certo. Na primeira pausa de uma chuva que desafinava os planos dos cariocas havia cerca de duas semanas, uma multidão deixou as sombrinhas de lado (ou, melhor, ergueu-as como guardas-sóis) e ocupou a Praça Mauá, no Centro, para ouvir uma mistura de rap, pop, samba e obras eruditas. Tudo sob um céu, enfim, sem nuvens. Em mais uma edição do Projeto Aquarius — realizado pelo GLOBO desde 1972 —, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) recebeu Leci Brandão e Emicida, ontem à tarde, num encontro ao ar livre entre ritmos que, sim, falam a mesma língua. E coube justamente a “Alvorada”, da ópera “Lo Schiavo”, de Carlos Gomes, dar início ao espetáculo.
Mistura de ritmos:
Na Praça Mauá, entre o começo da tarde e o cair da noite, o público se acomodou nos arredores do Museu do Amanhã e do Museu de Arte do Rio, em bancos de plástico, cadeiras de praia e cangas, para acompanhar um programa que atravessou séculos e gêneros, numa viagem pelo tempo — passado, presente e futuro justapostos. Sob a regência de Carlos Prazeres, a OSB foi de Carlos Gomes e Tchaikovsky a Villa-Lobos e Ennio Morricone antes de encontrar o batuque de Leci e as rimas de Emicida. Está aí, nesse caldo de estilos aparentemente opostos, o ingrediente secreto do evento, criado para reverberar a música de concerto para além das salas tradicionais.
‘Paixão pela música’
Para Idivana Laureano Lino, de 56 anos, a receita já é conhecida. Moradora de São Gonçalo, a diarista só viu uma orquestra sinfônica de perto no Projeto Aquarius. Esteve nas edições de 2025 e 2023, quando Belo se apresentou com a OSB na Sapucaí. Desta vez, voltou atraída pela entrada gratuita e se emocionou com a execução de “Cinema Paradiso”, do filme de Giuseppe Tornatore.
— Se pudesse, veria esse tipo de apresentação regularmente, mas quase sempre são concertos caros nos teatros. Não dá. E aqui é bom porque juntam todos os estilos. A paixão pela música, aqui dentro de mim, é grande, viu? — celebrou.
Caso Regina Gonçalves:
Aquela também era uma tarde de novidades para quem estava no palco. Aos 82 anos, Leci Brandão entoou sucessos da carreira pela primeira vez acompanhada por uma orquestra sinfônica. Recebida com aplausos e gritos — muita gente a venerou saudando-a como “diva” —, a sambista emprestou sua voz a “Só quero te namorar”, “O morro não tem vez”, “Encontros e despedidas” e “Isso é Fundo de Quintal”. Letra mais conhecida no repertório da compositora e intérprete, “Zé do caroço” fechou o concerto, mais adiante, com Leci e Emicida dividindo os vocais. Nessa hora, leleleiêê, não teve jeito: lá estavam os celulares do público em punho, num mar de telas, para registrar o tal encontro inédito.
— Vou ter que quebrar o protocolo porque é a primeira vez que canto com uma orquestra. Fiz 82 anos agora. Que maravilha—, disse Leci, entre um número e outro no tablado. — É muito legal poder vir à Praça Mauá e ver o povo todo reunido aqui, num projeto que faz da nossa cultura um encontro maravilhoso.
Na plateia, a funcionária pública Claudia Jesus, de 58 anos, se impressionou com a vitalidade na voz da baluarte do samba. E se encantou com a parceria irreverente entre ela, Emicida e a OSB.
Um luxo:
— São três potências de resistência. Leci, da idade da minha mãe; Emicida, que poderia ser meu filho; e a OSB, nem se fala... — enaltece a moradora de Santa Teresa. — Isso une gerações. Semana passada, estava num bar e começou a tocar essa música na caixa de som. Todo mundo levantou pra cantar junto. É uma peça histórica.
A entrada de Emicida colocou o concerto em outro compasso. O rapper dividiu os arranjos da OSB em “Passarinhos”, cantada pelo público, “Pequenas alegrias da vida adulta”, “Quem tem um amigo tem tudo” e “AmarElo”. E exaltou os cerca de 70 instrumentistas:
— Que honra estar aqui nesta noite. Vamos fazer barulho para essa orquestra e esse maestro. Que experiência incrível. Isso é a alma de um país. As distâncias que esse país produziu se dissipam por meio da cultura — emocionou-se.
Resgatada por motoristas:
Mistura de repertório
Para o maestro Carlos Prazeres, que estreou no Projeto Aquarius à frente da OSB, a mistura de repertórios e o contato com o público marcaram o espetáculo, apresentado pelos jornalistas Pedro Bial e Maria Fortuna, realizadora do videocast “Conversa vai, conversa vem”, do GLOBO. Os dois deram a palavra ao regente em alguns momentos para contextualizar as composições.
— Esse público é maravilhoso. Ouvem música clássica como se deve ouvir música clássica: em silêncio, prestando atenção. Essa é a interação que se faz com a alma — elogiou Prazeres.
Palácios, chorinho, forró, feira e mercadinho:
O maestro regeu ainda “Abraço no tempo”, que funde o tema final da Sinfonia nº 9, de Beethoven, com “Oração ao tempo”, de Caetano Veloso, em arranjo de Marcelo Caldi.
O Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, a Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e a Secretaria Municipal da Cultura apresentam o Aquarius RJ. O evento conta com o patrocínio da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Cultura, da Light e da Vale; apoio de Porto, Vivo, IRB (Re) e Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro; e participação de Président e Rede D'Or. Hotel oficial Windsor; assessoria de imprensa InPress; parceria da P&G Cenografia e da Orquestra Sinfônica Brasileira; e produção da SRCOM. Tem as rádios Globo e CBN como rádios oficiais. A realização é do GLOBO e do Ministério da Cultura.
Mais lidas
-
1POLÍTICA
Gilmar Mendes envia advogado de confiança para falar com Flávio Bolsonaro
-
2ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
3SEGURANÇA PÚBLICA
Homem apontado como integrante de 'Equipe Caos' do CV no Morro do Fubá morre em confronto com PMs
-
4ESPORTE
Luta nascida na União Soviética ganha o Ocidente; modalidade mistura judô, jiu-jitsu e wrestling
-
5RECONHECIMENTO
Zico recebe título de Doutor Honoris Causa com beca nas cores do Flamengo