RJ em Foco
Na plateia do Projeto Aquarius, histórias de gerações unidas pela música
De crianças diante de uma orquestra pela primeira vez a veteranos do projeto, público que foi à Praça Mauá conta como Leci Brandão, Emicida e a OSB atravessam idades, estilos e trajetórias
Dois ônibus e mais de duas horas separaram a casa da diarista Idivana Laureano Lino, em São Gonçalo, da Praça Mauá. Aos 56 anos, ela saiu ao meio-dia para garantir um lugar diante do palco. Não era sua estreia no Projeto Aquarius: os únicos concertos de uma orquestra sinfônica a que assistiu na vida foram justamente em edições do evento.
Público lota a Praça Mauá para ver Projeto Aquarius
Rio Gastronomia 2026:
Idivana esteve no Aquarius no ano passado e também em 2023, quando Belo se juntou à Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) na Marquês de Sapucaí. Neste sábado, voltou pela gratuidade e pela mistura que já conhecia: música de concerto dividindo espaço com artistas populares.
— Se pudesse, veria esse tipo de apresentação regularmente, mas quase sempre são concertos caros nos teatros. Não dá. E aqui é bom porque juntam todos os estilos. Será a primeira vez que verei Leci Brandão tão pertinho. A paixão pela música, aqui dentro de mim, é grande, viu?
Idivana conseguiu. E viu algo inédito até para Leci, aos 82 anos: sua primeira apresentação acompanhada por uma orquestra sinfônica.
— Vou ter que quebrar o protocolo porque é a primeira vez que canto com uma orquestra. Fiz 82 anos agora. Que maravilha — disse Leci, do palco.
Era uma das muitas primeiras vezes daquela tarde:
Sob a regência de Carlos Prazeres, cerca de 70 músicos da OSB atravessaram séculos e gêneros, de Carlos Gomes e Tchaikovsky a Villa-Lobos e Ennio Morricone, antes de encontrar o batuque de Leci e as rimas de Emicida. Tudo sob um céu que finalmente deu trégua depois de cerca de duas semanas de chuva no Rio.
Na grama ao lado do palco, Diego de Souza encontrou seu lugar. Morador de Padre Miguel, na Zona Oeste, levou o filho Theo, de 9 anos, para um passeio cultural pelo Centro. Praça XV e Museu do Amanhã entraram no roteiro antes do destino final, o Aquarius. Pai e filho estenderam uma canga, abriram os petiscos e esperaram por Emicida.
Diego tinha um propósito particular: apresentar ao menino um artista que faz parte de sua própria vida.
— Emicida é um dos meus artistas favoritos e quero passar isso para ele. Porque a arte faz a gente pensar, a arte liberta, a arte te tira da caixa.
Quando o rapper entrou em cena, pai e filho ouviram “Passarinhos”, “Pequenas alegrias da vida adulta”, “Quem tem um amigo tem tudo” e “AmarElo” ganharem roupagem sinfônica.
— Que honra estar aqui nesta noite. Vamos fazer barulho para essa orquestra e esse maestro, senhoras e senhores. Que experiência incrível. Isso é a alma de um país. Que tarde abençoada. As distâncias que esse país produziu se dissipam por meio da cultura — disse Emicida.
Pouco distante dali, outro pai acompanhava uma descoberta. O pesquisador Victor Garofano, de 36 anos, morador do Andaraí, já tinha visto “vários e vários” shows do rapper. Para a filha Flor, de 6 anos, era a primeira vez diante de uma orquestra completa. Emicida, ela já conhecia — dos livros infantis que lê com o pai.
— Já vi vários e vários shows de Emicida, mas desta vez foi diferente — contou Victor. — Achei interessantíssimo, e minha filha já o conhecia dos livros infantis. Lemos todos.
Entre o começo da tarde e o cair da noite, histórias como essas se espalhavam pelos arredores do Museu do Amanhã e do Museu de Arte do Rio, entre bancos de plástico, cadeiras de praia e cangas. As sombrinhas que por tantos dias protegeram os cariocas da chuva viraram guarda-sóis.
Lindalva Rodrigues, de 77 anos, transformou o programa numa excursão. A aposentada reuniu cerca de 20 amigas, todas vizinhas da Penha, na Zona Norte, e foi com o grupo à Praça Mauá. Abriu uma sombrinha num canto para se proteger do sol e ali ficou, quietinha no meio do povo, durante toda a tarde e o início da noite.
— A verdade é que vim para passear. Quem não gosta, né? E, olha, fazia tempo que não via um concerto grandioso assim. Em casa, só fico ouvindo Roberto Carlos... Mas é bom mudar.
Mudança não faltava no palco. Com o tema “A música e o tempo”, o programa promoveu encontros entre épocas e estilos. Em “Abraço no tempo”, arranjo de Marcelo Caldi, a Sinfonia nº 9, de Beethoven, encontrou “Oração ao tempo”, de Caetano Veloso.
Apresentado pelos jornalistas Pedro Bial e Maria Fortuna, realizadora do videocast “Conversa vai, conversa vem”, do GLOBO, o espetáculo também abriu espaço para Carlos Prazeres conversar com a plateia.
— Esse público é maravilhoso. Ouvem música clássica como se deve ouvir música clássica: em silêncio, prestando atenção. Essa é a interação que se faz com a alma. E este é o público exemplar, maravilhoso — elogiou.
Se Lindalva atravessou a cidade com as amigas, Beatriz Sant’Angelo foi a pé. Moradora do Centro, aproveitou a volta do sol para caminhar até a Praça Mauá com a amiga Mariana. Já tinha visto Leci Brandão ao vivo. Emicida seria uma estreia.
— Essa é a minha primeira vez num show do Emicida. Da Leci, já curti antes. Mas uma apresentação dessa, num espaço bacana como esse, não podemos perder. E moro aqui no Centro, então, depois de dias seguidos de chuva, vim passeando, sem pressa.
Lúcia Bento veio de mais longe. Moradora de Magé, chegou com o marido a uma região que já fazia parte de sua rotina: aluna do coral do Museu do Amanhã, ela se define como uma “senhora aventureira”.
— É cultural, é encontro, é música. Isso alimenta nossa alma, me faz sentir bem. Gosto de todos os estilos que vão se apresentar hoje.
No palco, a mistura que atraiu Lúcia ganhou força com Leci. Recebida com aplausos, gritos e saudações de “diva”, a sambista cantou “Só quero te namorar”, “O morro não tem vez”, “Encontros e despedidas” e “Isso é Fundo de Quintal”.
Adriana Martins, de 52 anos, acompanhava o concerto com a filha Maria Eduarda, de 13, e a sobrinha Anne Xiang, de 19. As três foram especialmente por Emicida, mas Adriana se encantou também com a combinação com a OSB.
— São dois mundos juntos, né? O erudito e o popular. Acho importante essa união, para mostrar que não deve haver hierarquia entre essas duas formas.
Criado pelo GLOBO em 1972, o Aquarius nasceu com a proposta de fazer a música de concerto reverberar para além das salas tradicionais.
Para a funcionária pública Claudia Jesus, de 58 anos, moradora de Santa Teresa, aquele encontro podia ser medido em gerações.
— São três potências de resistência. Leci, da idade da minha mãe; Emicida, que poderia ser meu filho; e a OSB, nem se fala...
Claudia soltou a voz quando começou “Zé do caroço”. Conhecia bem o efeito da música sobre diferentes gerações.
— Isso une gerações. Semana passada, estava num bar e começou a tocar essa música na caixa de som. Todo mundo levantou pra cantar junto. É uma peça histórica.
Projeto Aquarius
Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e Secretaria Municipal da Cultura apresentam o Aquarius RJ. O evento conta com o Patrocínio da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura e da Light e da Vale; Apoio da Porto, Vivo, IRB (Re) e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro e Participação de Président e Rede D'Or. Hotel Oficial Windsor, Assessoria de Imprensa da InPress, Parceria da P&G Cenografia e da Orquestra Sinfônica Brasileira, Produção da SRCOM e tem as rádios Globo e CBN como Rádios Oficiais. A Realização é do GLOBO e Ministério da Cultura.
Um dos momentos mais marcantes deste sábado foi a entrada de Leci Brandão. Aos 82 anos, completados em 12 de setembro, a sambista foi recebida de pé pelo público e contou que era a primeira vez que se apresentava acompanhada por uma orquestra sinfônica. Durante o show, o maestro Carlos Prazeres manteve atenção especial à cantora, indicando a ela os momentos de entrada nas músicas.
Leci também cantou “Zé do Caroço”, com participação de Emicida, que iniciou sua apresentação com “Passarinhos”, sucesso gravado originalmente com Vanessa da Mata. Antes de subir ao palco, o rapper destacou a importância de dividir a apresentação com Leci, a quem chamou de referência da música brasileira.
A Orquestra Sinfônica Brasileira teve seu momento de protagonismo. Antes de executar as obras, Prazeres explicou detalhes das composições ao público e, na “Alvorada”, de Carlos Gomes, mostrou como os instrumentos representavam diferentes momentos do dia, incluindo o canto dos pássaros. Em um formato mais intimista, artistas, orquestra e plateia ficaram próximos, com o público cantando junto especialmente nos sucessos conhecidos.
Mais lidas
-
1POLÍTICA
Gilmar Mendes envia advogado de confiança para falar com Flávio Bolsonaro
-
2ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
3ESPORTE
Luta nascida na União Soviética ganha o Ocidente; modalidade mistura judô, jiu-jitsu e wrestling
-
4SEGURANÇA PÚBLICA
Homem apontado como integrante de 'Equipe Caos' do CV no Morro do Fubá morre em confronto com PMs
-
5RECONHECIMENTO
Zico recebe título de Doutor Honoris Causa com beca nas cores do Flamengo