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É a primeira vez que canto com uma orquestra: saiba tudo que rolou no Projeto Aquarius, com Emicida, Leci Brandão e OSB

O evento reuniu samba, rap e música clássica em encontro de gerações na Praça Mauá

Agência O Globo - 20/09/2026
É a primeira vez que canto com uma orquestra: saiba tudo que rolou no Projeto Aquarius, com Emicida, Leci Brandão e OSB
Emicida - Foto: Reprodução / Instagram

A música soou no tempo certo. Na primeira pausa de uma chuva que desafinava os planos dos cariocas havia cerca de duas semanas, uma multidão deixou as sombrinhas de lado (ou, melhor, ergueu-as como guarda-sóis) e ocupou a Praça Mauá, no Centro do Rio, para ouvir uma mistura de rap, pop, samba e obras eruditas. Tudo sob um céu, enfim, sem nuvens. Em mais uma edição do Projeto Aquarius — realizado pelo jornal O Globo desde 1972 —, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) recebeu Leci Brandão e Emicida, na tarde deste sábado (dia 19), num encontro ao ar livre entre ritmos que, sim, falam a mesma língua. E coube justamente a "Alvorada", da ópera "Lo Schiavo", de Carlos Gomes, dar início ao espetáculo.

Entre o começo da tarde e o cair da noite, o público se acomodou nos arredores do Museu do Amanhã e do Museu de Arte do Rio, em meio a bancos de plástico, cadeiras de praia e cangas, para acompanhar um programa que atravessou séculos e gêneros, numa viagem pelo tempo — passado, presente e futuro, tudo justaposto. Sob a regência de Carlos Prazeres, a OSB foi de Carlos Gomes e Tchaikovsky a Villa-Lobos e Ennio Morricone antes de encontrar o batuque de Leci e as rimas de Emicida. Está aí, nesse caldo de estilos aparentemente opostos, o ingrediente secreto do evento, originalmente criado com o intuito de reverberar a música de concerto para além das salas tradicionais.

Figurinha repetida

Para Idivana Laureano Lino, de 56 anos, a receita musical tem um sabor conhecido. As únicas vezes em que a diarista, moradora de São Gonçalo, viu uma orquestra sinfônica de perto foram no Projeto Aquarius. Ela esteve no evento no ano passado e em 2023, quando o pagodeiro Belo se juntou à OSB na Avenida Marquês de Sapucaí. Chegou à Praça Mauá atraída, mais uma vez, pelo fato de a entrada ser gratuita. E acabou encontrando, como de praxe, arranjos instrumentais que a emocionaram, a exemplo da comovente execução de "Cinema Paradiso", do filme homônimo dirigido por Giuseppe Tornatore, de 1988.

— Se pudesse, veria esse tipo de apresentação regularmente, mas quase sempre são concertos caros nos teatros. Não dá. E aqui é bom porque juntam todos os estilos. Será a primeira vez que verei Leci Brandão tão pertinho. A paixão pela música, aqui dentro de mim, é grande, viu? — celebrou a diarista.

Aquela também era uma tarde de novidades para quem estava no palco. Aos 82 anos, Leci Brandão entoou sucessos da carreira pela primeira vez acompanhada por uma orquestra sinfônica. Recebida com aplausos e gritos — muita gente a venerou saudando-a como "diva" e berrando seu nome em uníssono —, a sambista emprestou sua voz a "Só quero te namorar", "O morro não tem vez", "Encontros e despedidas" e "Isso é Fundo de Quintal". Letra mais conhecida no repertório da compositora e intérprete, "Zé do caroço" fechou o concerto, mais adiante, com Leci e Emicida dividindo os vocais. Nessa hora, leleleiêê, não teve jeito: lá estavam os celulares do público em punho, num mar de telas, para registrar o tal encontro inédito.

"Vou ter que quebrar o protocolo porque é a primeira vez que canto com uma orquestra. Fiz 82 anos agora. Que maravilha", disse Leci, entre um número e outro no tablado. "É muito legal poder vir à Praça Mauá e ver o povo todo reunido aqui, num projeto que faz da nossa cultura um encontro maravilhoso."

Na plateia, a funcionária pública Claudia Jesus, de 58 anos, impressionou-se com a vitalidade na voz da baluarte do samba. E se encantou com a parceria irreverente entre ela, Emicida e a OSB.

— São três potências de resistência. Leci, da idade da minha mãe; Emicida, que poderia ser meu filho; e a OSB, nem se fala... — enalteceu a moradora de Santa Teresa, que soltou a voz, e muito, com "Zé do caroço". — Isso une gerações. Semana passada, estava num bar e começou a tocar essa música na caixa de som. Todo mundo levantou pra cantar junto. É uma peça histórica.

Figurão pop aplaudido

A entrada de Emicida colocou o concerto em outro compasso. O rapper subiu ao palco para dividir os arranjos da OSB em "Passarinhos", que o público cantou junto, "Pequenas alegrias da vida adulta", "Quem tem um amigo tem tudo" e "AmarElo". Ele exaltou os cerca de 70 instrumentistas ao seu lado. "Que honra estar aqui nesta noite. Vamos fazer barulho para essa orquestra e esse maestro, senhoras e senhores. Que experiência incrível. Isso é a alma de um país. Que tarde abençoada. As distâncias que esse país produziu se dissipam por meio da cultura", emocionou-se.

Entre os que aguardavam especialmente por ele estava o pesquisador Victor Garofano, de 36 anos. Morador do Andaraí, ele tinha a companhia da filha, a pequena Flor, de 6, que assistiu à performance de uma orquestra completa pela primeira vez. Acostumado a ouvir o rapper em outro tipo de formação, Victor aprovou a roupagem sinfônica dada às canções.

— Já vi vários e vários shows de Emicida, mas desta vez foi diferente — exaltou. — Achei interessantíssimo, e minha filha já o conhecia dos livros infantis. Lemos todos.

Adriana Martins, de 52 anos, também foi ao show atraída por Emicida. E também pela mescla "original", como definiu, entre samba, rap, pop e clássico. Ela levou a filha Maria Eduarda Martins, de 13, e a sobrinha Anne Xiang, de 19.

— São dois mundos juntos, né? O erudito e o popular. Acho importante essa união, para mostrar que não deve haver hierarquia entre essas duas formas — avaliou Adriana.

A grama ao lado do palco também virou espaço para quem chegou preparado para passar algumas horas por ali. De Padre Miguel, Diego de Souza levou o filho, Theo, de 9 anos, para um passeio cultural pelo Centro. Antes de chegar ao Aquarius, os dois passaram pela Praça XV e pelo Museu do Amanhã. Com uma canga e petiscos, instalaram-se para acompanhar o show.

— Emicida é um dos meus artistas favoritos e quero passar isso para ele. Porque a arte faz a gente pensar, a arte liberta, a arte te tira da caixa.

Maria Fortuna e Pedro Bial no comando

Para o maestro Carlos Prazeres, que estreou no Projeto Aquarius à frente da OSB, a mistura de repertórios e o contato com o público em praça aberta foram também uma das marcas do espetáculo, que teve apresentação dos jornalistas Pedro Bial e Maria Fortuna, realizadora do videocast "Conversa vai, conversa vem", de O Globo.

Ambos conduziram o espetáculo e deram a palavra ao regente durante alguns momentos do concerto para que ele contextualizasse parte das composições. Afinal, música também é história, por vezes com agá maiúsculo, como sugere o regente.

— Esse público é maravilhoso. Ouvem música clássica como se deve ouvir música clássica: em silêncio, prestando atenção. Essa é a interação que se faz com a alma. E este é o público exemplar, maravilhoso — elogiou o maestro, que chamou a atenção ao orquestrar o número "Abraço no tempo", que funde a Sinfonia n°9 "Tema final", de Beethoven, com a conhecida "Oração ao tempo", de Caetano Veloso, num arranjo especialíssimo de Marcelo Caldi.

A aposentada Lindalva Rodrigues, de 77 anos, era só sorrisos diante da mistura. Ela se juntou a cerca de 20 amigas, todas vizinhas do bairro da Penha, e montou uma pequena "excursão" ao evento. Surpreendeu-se, quietinha no meio do povo, com os números no palco. E espantou-se com o tempo, tema geral do espetáculo. Para se proteger do sol durante o dia, acomodou-se num cantinho, onde abriu uma sombrinha sem atrapalhar ninguém. E ali ficou, ao longo de toda a tarde e início da noite.

— A verdade é que vim para passear. Quem não gosta, né? — disse. — E, olha, fazia tempo que não via um concerto grandioso assim. Em casa, só fico ouvindo Roberto Carlos... Mas é bom mudar.

O Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, a Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e a Secretaria Municipal da Cultura apresentam o Aquarius RJ. O evento conta com o patrocínio da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Cultura, da Light e da Vale; apoio de Porto, Vivo, IRB (Re) e Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro; e participação de Président e Rede D'Or. Hotel oficial Windsor; assessoria de imprensa InPress; parceria da P&G Cenografia e da Orquestra Sinfônica Brasileira; e produção da SRCOM. Tem as rádios Globo e CBN como rádios oficiais. A realização é do GLOBO e do Ministério da Cultura.