RJ em Foco
Policial Militar enganava CV ao vender supostos segredos do Gaeco
Relatórios mostram que policial militar mentia a traficantes ao dizer ter influência em setor do Ministério Público que investiga facções criminosas
As conversas por aplicativo de mensagens entre o cabo da Polícia Militar Luciano da Costa Ramos Júnior e um dos chefes do Comando Vermelho, Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, revelam a intimidade entre os dois. Ambos se tratam por “irmão”. De acordo com informações extraídas de seus celulares pela Polícia Federal, o PM supostamente repassava decisões judiciais sigilosas e, em alguns casos, dizia estar no Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio (MPRJ), no Centro. Uma perícia nas imagens das câmeras de vigilância dos quatro prédios do complexo-sede — inclusive das salas do Gaeco — não encontrou, porém, registros da presença do policial nas datas e horários alegados, o que levou à constatação de que o PM enganava a própria facção.
Uma década de VLT:
Caso Henry Borel:
Analistas do Gaeco e da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI) do MPRJ concluíram que prints de supostas denúncias atribuídas ao grupo apresentavam “falsificações grosseiras, seja pela forma, seja pelo conteúdo”. Em consulta à base de dados do Gaeco referente ao ano de 2025, o CSI não encontrou denúncias contra os criminosos indicados por Luciano. As peças foram classificadas como falsas. O caso foi revelado pelo GLOBO na série “Os donos do crime”, publicada a partir de 25 de maio.
Extração de celulares
O pedido para investigar as conversas partiu da coordenadora do Gaeco, a promotora Letícia Emile, e do procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira. Os relatórios, aos quais O GLOBO teve acesso, são datados de 5 de fevereiro e 25 de maio. No segundo, dados de três celulares do PM foram extraídos para checar a veracidade das mensagens. Em um dos diálogos, Luciano criava a figura de um "doutor" para "conferir aparência de respaldo institucional" às informações repassadas — como a de que o "suposto promotor entraria numa reunião com o governador em 20 minutos".
Crimes:
— O policial agiu de forma criminosa, implicando o MPRJ, em especial o Gaeco, em suas tramas. Valendo-se de falsas peças e de um inexistente prestígio, buscava convencer criminosos de seus propósitos. O relatório da Polícia Federal, que aponta que o policial militar possuía trânsito e acesso a dados sigilosos do Gaeco, afigura-se irreal — disse a promotora Letícia Emile.
Uma das conversas de Luciano é com Bruno Ramos de Oliveira, apontado pela PF como intermediário no tráfico de armas e na lavagem de capitais do Terceiro Comando Puro (TCP) nas favelas do Dendê e Boogie Woogie, na Ilha do Governador. No diálogo, de 7 de novembro, às 11h53, Luciano diz estar saindo do Gaeco — afirmação classificada como inverídica pelo MPRJ, que não encontrou registro de sua presença no controle de acesso naquele horário. Em 2 de dezembro, em outra troca de mensagens, desta vez com um homem identificado como Charles, Luciano volta a alegar presença no Gaeco, dizendo ter falado com alguém do setor. Os analistas concluíram tratar-se de mais uma tentativa de "simular acesso privilegiado a informações sigilosas".
Meio ambiente:
O MPRJ investigou também o sargento do Bope Rodolfo Henrique Rosa, preso pela PF no mesmo dia, suspeito de repassar informações sobre operações sigilosas da PM ao CV. Rodolfo era informante do traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal, subordinado, como Índio do Lixão, a Edgar Alves de Andrade, o Doca ou o Urso.
A PF revelou ainda que Luciano obteve cópias de alegações finais de processo envolvendo os traficantes Eduardo Luiz Paixão, o 2D, e Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, além de denúncias contra o chefe da facção rival, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. Ele afirmava contar com auxílio de funcionária do Gaeco para fotografar os documentos em horário de menor movimento. O material ia para Índio do Lixão — identificado nos autos como "Seja Grato" —, que cobrava:
Socorro aéreo:
“Irmão, vou descansar, amanhã não deixa de me mandar não, cara. Me manda as fundamentações, os nomes aí que tu falou, tudo, tanto da vítima quanto dos acusados. Porque essa parada que tu me mandou tá uma parada muito fraquinha, né. Me manda umas paradas mais a fundo. E fala 'isso aqui é um, isso aqui é dois, isso aqui é três'. Porque amanhã eu vou mandar pro amigo, eu falei pra ele que já tava na minha mão, ele tá me agoniando, porra, ligação toda hora, mano. (sic)”
Em 10 de julho, às 21h50, o PM enviou sete fotos de documentos sobre o Peixão. O traficante reclamou:
— É só isso? — perguntou ‘Seja Grato’, às 22h03.
Feminicídio:
Luciano alegou que o “servidor derruba a essa hora” e que o “expediente já acabou”, insistindo em dar a entender que estava dentro do Gaeco. Os analistas do MPRJ concluíram que a única peça original no material enviado eram as alegações finais de um processo de 2021 — e que o advogado de Eduardo Paixão, o 2D, é o mesmo de Luciano, Luiz Felipe Alves e Silva, o que pode explicar o acesso ao documento. A CSI solicitou ao TJRJ que apure todos os que acessaram o processo.
Documentos falsos
Os demais documentos foram considerados falsos: sem identificação do promotor, com nomes de policiais inexistentes na corporação, sem número de protocolo e com o artigo errado do crime de organização criminosa — o 288 do Código Penal, de associação criminosa, no lugar do artigo 2º da Lei 12.850/2013. O timbre do Gaeco também aparecia como nota de rodapé, e não no alto da página.
Após a PF deflagrar a Operação Oricalco, em setembro passado, Índio do Lixão foi preso. A investigação revelou conexões entre facções criminosas do Rio e servidores públicos, além do então deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Jóias. Do celular do traficante vieram as primeiras informações que incriminavam Luciano, preso em dezembro.
Suspeita de estelionato:
A PF também descobriu vínculos de TH Jóias com o ex-presidente da Alerj, o então deputado Rodrigo Bacelar (União), e com o desembargador federal do TRF-2 Macário Ramos Júdice Neto, presos na Operação Unha e Carne.
Os relatórios do MPRJ vêm a público dez dias após os Estados Unidos classificarem o CV e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
Luciano era lotado no 5º BPM (Praça da Harmonia) e estava à disposição do TJRJ, onde ficava fixo no II Tribunal do Júri. Após a prisão, o tribunal passou a fazer revezamento dos policiais nas varas do júri. Luciano continua preso na Unidade Prisional da PM em Niterói.
Até farinha controlada pelo crime:
Que dizem as defesas
O advogado de Luciano, Luiz Felipe Alves e Silva, confirmou defender Eduardo Paixão, mas negou ter repassado qualquer informação a terceiros. Segundo ele, o processo não tramitava em segredo de justiça — portanto, qualquer pessoa poderia ter obtido uma cópia.
— O próprio MP reconheceu que Luciano não tem qualquer informação privilegiada e que usava essa aparência de proximidade para se valorizar diante dos investigados. O promotor checou pessoalmente se ele teve acesso às dependências do MP: não teve — disse a defesa técnica de Luciano.
O advogado de Gabriel Dias, o Índio do Lixão, Anderson Peixoto de Freitas, disse que não irá se pronunciar sobre os relatórios do Gaeco:
“A defesa esclarece não existir participação dolosa de seu cliente nos fatos apurados em desfavor de Luciano”, afirmou por nota, negando vínculo entre seu cliente e Gabriel.
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