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Especialistas fazem simulações sobre o Super El Niño, fenômeno que assusta quem viveu tragédia com 900 mortos na serra

Estudos apontam possibilidade de calor extremo, chuvas intensas e eventos climáticos mais severos, enquanto comunidades vulneráveis acompanham o avanço do fenômeno com apreensão

Agência O Globo - 07/06/2026
Especialistas fazem simulações sobre o Super El Niño, fenômeno que assusta quem viveu tragédia com 900 mortos na serra
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Desastre natural com a maior perda de vidas no país, a tragédia das chuvas em 2011 na Região Serrana do Rio, que deixou mais de 900 mortos, permanece viva na memória de seus moradores. Outros temporais com mortes se sucederam na região. Agora, 15 anos após o triste marco histórico, associações comunitárias da região vivem outro pesadelo: a chegada do super El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Também preocupados com as consequências do acontecimento, especialmente em áreas vulneráveis, como a Serra, especialistas de laboratórios de universidades do Rio e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) se debruçam sobre estudos.

Segundo divulgação Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) no mês passado, há 82% de chances de o El Niño se formar até julho. Coordenador do Laboratório de Monitoramento e Modelagem de Sistema Climático (Lammoc) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Márcio Cataldi explica que, pelas simulações feitas, há possibilidade de haver manifestações fortes do fenômeno no Brasil, incluindo o Estado do Rio de Janeiro:

— Junho, julho e o início de agosto geralmente são muito secos. Mas, este ano, devem ser mais chuvosos que o normal. O que se observa é que a época seca vai atrasar um pouco, começando em agosto e se estendendo até o início de dezembro. Deve-se ter um período seco prolongado, com ondas de calor e riscos de incêndios. A partir da segunda quinzena de dezembro, quando o El Niño mudar de fase e começar a esfriar o Pacífico, é que vem o risco maior de chuvas prolongadas.

Cataldi esclarece que a Região Serrana do Rio, geralmente fresca, poderá ter altas temperaturas entre agosto e o início de dezembro. E, depois, como a capital do estado, conviver com Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), corredor de nuvens que se estende da Amazônia até o Oceano Atlântico e é o principal sistema meteorológico responsável por chuvas persistentes e volumosas.

— Essas previsões podem mudar, porque o horizonte é muito longo. Mas isso é o que se tem hoje — diz ele.

O meteorologista Fabio Hochleitner, do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce), da UFRJ, chama a atenção para o aumento anômalo de temperatura que poderá acontecer na Região Serrana do Rio, em decorrência do El Niño, a partir de meados de agosto. Lembra que a intensificação do calor pode criar tempestades rápidas e localizadas, as chamadas tempestades convectivas (quando o calor evapora a umidade do solo, fazendo com que o ar quente suba e se formem grandes nuvens).

— Esses episódios acabam sendo potencializados pelo El Niño, podendo ocasionar granizo, descargas atmosféricas intensas e rajadas de vento. Em áreas mais montanhosas de Petrópolis e Teresópolis, por exemplo, podem provocar enxurradas. Além da descida desse material dos morros, pode haver o aumento do nível e o transbordamento dos rios — analisa Hochleitner.

O professor acrescenta que ainda estão sendo feitas simulações para entender e, assim, traçar um diagnóstico mais preciso do impacto que o El Niño vai ter no Rio de Janeiro, que fica entre o Norte, o Nordeste e o Sul do país, regiões que deverão sofrer os grandes efeitos do fenômeno.

Intensificação aos poucos

Já o coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, informa que ainda não há parâmetros para assegurar que o El Niño já se estabeleceu, mas afirma que o fenômeno vai se configurar e intensificar aos poucos. De acordo com Seluchi, ainda é cedo para saber qual será a máxima intensidade que ele irá atingir:

— A expectativa é que isso ocorra no fim deste ano ou início do próximo. E existe uma certa probabilidade de ele ser um fenômeno de forte intensidade, embora ainda seja cedo para ter uma previsão sobre a intensidade. Na verdade, hoje sabemos muito pouco sobre os impactos desse fenômeno.

O pesquisador utiliza o ocorrido em anos do El Niño para traçar consequências:

— Normalmente, a Amazônia e a Região Nordeste sofrem com secas em anos do El Niño, e a Região Sul tem chuvas acima do normal. O Rio de Janeiro não é claramente impactado. Diria que, também usando conhecimento de casos passados, as chuvas podem se tornar mais irregulares. Isto é, haver momentos com chuva mais intensa, e outros onde ela pode parar, mesmo dentro da estação chuvosa.

Independentemente do que possa ocorrer, a Região Serrana e o Rio como um todo precisam se preparar para estações chuvosas, diz ele:

— Tem que ter planos de contingência para esses eventos de chuva mais volumosa que podem ocorrer independentemente do El Niño, do La Niña...

Pesquisadores à parte, na Região Serrana, independentemente das tragédias, as construções em áreas de risco não tiveram freio. Na BR-116, na altura de Teresópolis, por exemplo, se observam casas até coladas à rodovia. Nos bairros Caleme e Rosário, muito afetados pela tragédia de 2011, há adensamento nas encostas.

— O Caleme sofreu com as chuvas de 2011 e, mesmo assim, depois da tragédia, foram feitas muitas construções. Muitos retornaram para casas interditadas, outros venderam ou alugaram. No Caleme, estão construindo vários condomínios e destruindo a mata. É muito triste — lamenta Lucineia da Silva, líder do movimento popular de apoio às vítimas da tragédia em Teresópolis. — Estamos preocupados com o El Niño, porque há muitos morando em área de risco.

Uma situação semelhante à de Nova Friburgo.

— Em grandes centros, na beira de rodovias, onde o poder público passa todos os dias, deixam acontecer essas ocupações em áreas de risco. Estamos preocupados, porque os índices de chuva que têm caído já são muito altos — afirma Luiz Cláudio Rosa, presidente voluntário do Instituto Friburgo Solidário.

‘Acaba ficando invisível’

Presidente do Movimento do Aluguel Social e Moradia de Petrópolis e da Comissão das Vítimas das Tragédias da Serra, Cláudia Renata Ramos conta que bairros do Alto da Serra (como Chácara Flora, Rua Nova, 24 de Maio, Morro dos Ferroviários, Lopes Trovão e Frei Leão) e o Vale do Cuiabá tiveram casas interditadas e não demolidas reocupadas, alugadas ou vendidas.

— Qualquer alerta de chuva, fico preocupada. A gente acaba ficando invisível. Em Petrópolis, temos 72 mil pessoas morando em áreas de risco e três mil aguardando receber casa desde a tragédia de 2011. Sempre que chove, ruas alagam. O que fazem é paliativo, não tem eficiência. Até o centro histórico passou a alagar perto da rodoviária.

A Prefeitura de Petrópolis informa por nota que adquiriu um radar meteorológico, que é usado pela Defesa Civil. Em relação a investimentos em obras, desde o ano passado, 45 intervenções de contenção e drenagem estão em execução ou tendo projetos elaborados, representando investimento de quase R$ 62,5 milhões.

A Prefeitura de Nova Friburgo diz que, desde 2011, o município não registra morte por eventos climáticos. Informa ainda que, em janeiro, lançou a pedra fundamental das obras da chamada “Barreira Sabo”, com tecnologia japonesa, para retenção de fluxo de detritos, com recursos do PAC.

A Prefeitura de Teresópolis, por sua vez, destaca que a Defesa Civil “mantém uma política permanente de prevenção, monitoramento e preparação para eventos climáticos extremos”. Entre as principais iniciativas está a elaboração e a implementação do Plano Municipal de Redução de Riscos.

Colaborou: Carmélio Dias