RJ em Foco
Dez dias de júri: entenda a linha do tempo do julgamento que condenou Jairinho e concedeu perdão judicial a Monique
Depoimentos emocionados, disputas periciais, relatos de agressões e decisão dos jurados marcaram o júri que definiu o destino dos réus pela morte de Henry Borel
Após dez dias de julgamento, debates entre acusação e defesa e oitiva de testemunhas, peritos, médicos, parentes e dos próprios réus, o caso Henry Borel chegou ao fim da madrugada desta quinta-feira. O Conselho de Sentença , a 43 anos, nove meses e 20 dias de prisão por homicídio duplamente qualificado, tortura e coação no curso do processo. Já Monique Medeiros sofreu a acusação de homicídio doloso — quando há intenção de matar — desclassificada para homicídio culposo — sem intenção —, e foi condenada por omissão diante da tortura sofrida pelo filho. Relembre, dia a dia, os principais momentos que se tornaram o julgamento mais longo da história do Tribunal de Justiça do Rio.
Pena de 43 anos:
Caso Henry:
Henry Borel morreu no dia 8 de março de 2021, no apartamento onde Vivia com a mãe e o então padrasto, na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. O menino, de 4 anos, deu entrada no Hospital Barra D'Or com múltiplas lesões internacionais e em parada cardiorrespiratória.
Primeiro dia: manobras de defesa e nenhum depoimento
O primeiro dia do julgamento de Jairinho e Monique Medeiros foi marcado por impasses processuais e terminou sem a oitiva de testemunhas. Prevista para começar às 9h, sessão teve início com cerca de duas horas de atraso após o réu destituir sua equipe de defesa ao alegar prejuízo pela ausência do advogado Fabiano Lopes, que havia sofrido um infarto dias antes. Pouco depois, porém, o ex-vereador voltou atrás e reconstituiu parte dos advogados.
A formou o Conselho de Sentença, composto por cinco homens e duas mulheres, leu a denúncia e deu início aos trabalhos. Ao longo da tarde, a defesa apresentou uma série de pedidos para anular parcial ou integralmente o julgamento. Ao todo, 23 requisitos foram negados pela magistrada.
Morte de Henrique:
Sem que nenhuma testemunha fosse ouvida, a sessão foi suspensa por volta das 17h. Na saída do plenário, a defesa negou que os pedidos exigiam o objetivo de protelar o júri e afirmou que buscava apenas garantir um julgamento justo.
Segundo dia: delegados detalham investigação e apontam contradições do casal
O segundo dia de julgamento foi dedicado aos depoimentos dos delegados Edson Henrique Damasceno e Ana Carolina Medeiros, responsáveis pela investigação da morte de Henry. As oitivas atravessaram a noite e terminaram apenas na madrugada do dia seguinte.
Primeira testemunha de acusação, Damasceno afirmou que o caso chegou inicialmente à polícia como um possível acidente doméstico, mas que a investigação apontou um cenário completamente diferente. O delegado também relatou que o apartamento onde Henry Vivia com a mãe e Jairinho já havia sido limpo antes da chegada da perícia, comprometendo a preservação da cena.
Fala de magistrada:
Durante o depoimento, ele afirmou que mensagens obtidas pela investigação demonstrada por Jairinho enviou um executivo da Rede D'Or para que a declaração de óbito fosse emitida pelo hospital, visando evitar que o corpo da criança fosse encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML).
Na sequência, a delegada Ana Carolina afirmou que Monique sustentou a versão de que o filho sofreu um acidente doméstico e omitiu, segundo a investigação, as agressões praticadas por Jairinho. Ela também relembrou relatos de mulheres que tiveram relacionamentos com o ex-vereador e relatou o depoimento de uma ex-companheira que afirmou ao pai de Henry que, se tivesse denunciado antes, o menino talvez ainda estivesse vivo.
Houve também sucessivos embates entre acusação e defesa, com diversas interrupções durante as oitivas. Em meio à discussão, Elizabeth Louro chegou a afirmar que se sentia em um "universo paralelo" e reclamou da lentidão dos trabalhos.
Terceiro dia: psiquiatra fala em ‘prazer em infligir dor’
O terceiro dia do julgamento foi marcado pelo depoimento do psiquiatra Rafael Bernardon, contratado pela assistência de acusação, que afirmou ter identificado em Jairinho sinais de satisfação ao causar sofrimento em crianças a partir da análise dos autos do processo. A declaração apresentada forte evidência de defesa, que questionou a legitimidade da participação do especialista e sustentou que ele não poderia emitir avaliações sobre alguém que nunca entrevistou.
Em um dos momentos de tensão, a juíza interrompeu os debates e afirmou que, se continuavam discutindo questões paralelas, o julgamento não terminaria.
Julgamento do caso Henry:
Também resolvi discutir por decisões elaboradas à defesa de Jairinho no Tribunal de Justiça do Rio. Os desembargadores autorizaram o depoimento de Miriam Santos Rabelo Costa, testemunhando que havia sido barrada pela justiça, e determinaram que o interrogatório de Jairinho ocorreu apenas após o de Monique Medeiros.
À noite, os jurados ouviram a médica Maria Cristina Souza Azevedo, responsável pelo atendimento de Henry no Hospital Barra D'Or. Ela relatou que uma criança chegou à unidade em parada cardiorrespiratória, com diversas marcas pelo corpo, e que as tentativas de reanimação duraram cerca de duas horas. A médica também afirmou que Monique aparentava estar em choque após a confirmação da morte do filho, enquanto Jairinho ficava ao seu lado durante o atendimento.
Durante o depoimento, a acusação exibiu um vídeo de Henry dançando na casa do pai na véspera da morte. Ao assistir às imagens, Monique chorou no plenário.
Quarto dia: as outras supostas vítimas de Jairinho
O quarto dia do julgamento foi marcado por depoimentos de testemunhas que relataram episódios de violência praticados por Jairinho contra crianças. A empregada doméstica Leila Rosângela Mattos, que trabalhava no apartamento onde Henry morreu, foi ouvida sob forte questionamento da acusação. Ao longo da oitiva, apresentou contradições em relação às declarações anteriores e acabou confirmando que Henry saiu assustado de um quarto onde havia permanência sozinho com Jairinho.
Também foram ouvidas funcionárias de um salão de beleza frequentado por Monique. A cabeleireira Tereza Cristina de Souza afirmou ter ouvido Henry dizer, durante uma chamada de vídeo, que havia levado uma “banda” do “tio”. Segundo ela, o menino estava choroso e aparentava dificuldades para andar. A manicure Paloma Meireles confirmou o relato.
Caso Henry:
O depoimento de maior impacto do dia foi de Kaylane Pereira, filha de uma ex-namorada de Jairinho. Hoje adulta, ela afirmou ter sofrido agressões físicas quando era criança e relatou que o então padrasto a levava para encontros que acredita terem ocorrido em motéis. Segundo a testemunha, ela não contou os episódios à mãe porque foi intimidada emocionalmente pelo ex-vereador.
Outra ex-companheira de Jairinho, Déborah Mello Saraiva, também afirmou que seu filho teria sido vítima de agressões. Ela relatou episódios que ocorreram quando uma criança tinha entre 2 e 3 anos, incluindo uma fratura no fêmur após um passeio a sós com o então namorado.
O dia ainda foi marcado pelo retorno ao plenário do advogado Fabiano Tadeu Lopes, que havia sofrido um infarto durante a preparação da defesa.
Quinto dia: peritos descartados acidente doméstico e Leniel presta depoimento
O quinto dia do julgamento foi marcado pelos depoimentos dos peritos responsáveis pela análise da morte de Henry Borel. O perito criminoso Luiz Carlos Leal Prestes e o médico-legista Luiz Airton Saavedra afirmaram aos jurados que as lesões causadas no corpo da criança eram incompatíveis com um acidente doméstico ou com manobras de reanimação realizadas no hospital. Ambos sustentaram que os ferimentos indicaram agressões e reforçaram a conclusão de que Henry já estava morto quando chegou ao Hospital Barra D'Or.
Durante uma exibição de fotografias da necropsia, Monique Medeiros passou mal e saiu do plenário. Horas depois, Jairinho também se aposentou alegando problemas de saúde. Com isso, nenhum dos dois acompanhou o depoimento de Leniel Borel, pai do menino.
O caminho da Região dos Lagos:
Em um dos momentos mais emocionantes do julgamento, Leniel relatou que Henry demonstrou resistência em voltar para a casa da mãe nos meses anteriores à sua morte, relembrou episódios como o relato do “abraço apertado” atribuído a Jairinho e afirmou que Monique ignorou sinais de que o filho Sofria agressões. Ao ser questionada por Elizabeth Louro sobre por que continuava evoluindo a criança à mãe diante das queixas, respondeu que temia perder a guarda compartilhada.
Sexto dia: defesa de Monique tenta afastar acusação de omissão
O sexto dia do julgamento foi dedicado às testemunhas de defesa de Monique Medeiros. Os jurados ouviram o irmão da Ré, Bryan Medeiros da Costa e Silva; o amigo e colega de profissão Ari Mamede; e a recepcionista de brinquedoteca Maria Eduarda Andrade Vieira.
Bryan afirmou que Monique ficou arrasada ao saber da morte de Henry e chegou a manifestar desejo de morrer para “ficar perto do filho”. Durante o depoimento, sustentou que a irmã não tinha conhecimento das agressões atribuídas a Jairinho e afirmou que ela jamais seria conivente com a tortura ou a morte da criança. Também atribuiu a responsabilização de Monique a uma campanha difamatória criada após o crime.
Está presa:
Na sequência, Mamede descreveu Monique como uma profissional respeitada e afirmou que ela era vista como uma professora e gestora dedicada. Segundo ele, ele demonstrou carinho e atenção com Henry no ambiente escolar.
A última testemunha do dia foi Maria Eduarda. Ela afirmou que frequentemente via Monique e Henry juntos e relatou uma relação marcada por afeto, atenção e brincadeiras entre mãe e filho. Ao final da sessão, a defesa de Monique dispensou outras duas testemunhas previstas.
Sétimo dia: babá relata episódios de agressão e diz ter sido orientado a apagar mensagens
O sétimo dia do julgamento foi marcado pelo depoimento da babá Thayná de Oliveira Ferreira, uma das testemunhas consideradas centrais para a acusação. Ouvida inicialmente como informante, ela afirmou ter presenciado situações que a fizeram suspeitar de agressões contra Henry e relatou ter recebido orientações para apagar mensagens e minimizar relatos sobre a família após a morte da criança.
Thayná descreveu episódios ocorridos no apartamento onde Henry morava com Monique e Jairinho. Segundo ela, em uma das graças, o menino saiu de um quarto onde ficou sozinho com o ex-vereador reclamando de dores e sem vontade de brincar. Em outro episódio, afirmou que Henry deixou o cômodo deixando após ficar sozinho com Jairinho. A babá disse ter gravado um vídeo da situação e enviado para Monique. Durante o depoimento, chegou a classificação que acreditava estar ocorrendo como uma forma de tortura.
A testemunha também afirmou que, após a morte de Henry, foi levada para um escritório de advocacia, onde teria recebido orientações para apagar mensagens do celular e sustentar que a convivência entre os membros da família fosse harmoniosa. Segundo ela, também foi incentivado a falar com jornalistas em defesa do casal.
No mesmo dia, os jurados ouviram o coronel reformado Jairo Souza Santos, pai de Jairinho. Testemunha de defesa, ele contestou relatos de agressões atribuídas ao filho por ex-companheiras e por crianças que conviveram com ele, afirmando que as acusações foram causadas. Também declarou que Jairinho mantinha uma boa relação com Henry.
Oitavo dia: embate de peritos marca o encerramento da fase de testemunhas
O oitavo dia do julgamento foi marcado pelo confronto entre as conclusões da perícia oficial e a análise apresentada por um assistente da defesa de Jairinho. Ao fim da sessão, foram encerrados os depoimentos das testemunhas, concluindo a fase de instrução do júri.
O perito do Instituto Médico-Legal Leonardo Tauil, responsável pelos laudos produzidos no caso, afirmou que a investigação não encontrou no apartamento onde Henry não havia nenhum objeto ou móvel capaz de explicar, por acidente doméstico, a laceração hepática que feriu sua morte. Segundo ele, a possibilidade de uma queda acidental foi comprovada e descartada.
Durante o depoimento, a defesa exibiu fotografias da necropsia de Henry. Diante das imagens, Monique Medeiros saiu do plenário pela segunda vez durante o julgamento.
Na sequência, o médico Jeferson Evangelista Correa, assistente técnico da defesa de Jairinho, apresentou versão divergente da perícia oficial. Ele afirmou considerar mais provável que a lesão hepática tenha ocorrido entre 24 e 48 horas antes da morte e sustentou que o ferimento poderia ter sido provocado por uma queda ou outro acidente. Também questionou a qualidade da documentação fotográfica produzida pelos peritos e expressou dúvidas sobre procedimentos realizados durante o atendimento médico no Hospital Barra D'Or.
O Ministério Público contestou as explicações do especialista, apontando divergências entre sua análise e os elogios oficiais.
Nono dia: interrogatórios de Monique e Jairinho
O nono dia do julgamento foi dedicado aos interrogatórios de Monique e Jairinho. Pela primeira vez desde o início do processo, a mãe de Henry Borel afirmou acreditar que o ex-companheiro foi o responsável pelas agressões que levaram à morte do filho. Já o ex-vereador voltou a negar qualquer participação no crime e apresentou sua versão para os acontecimentos da madrugada de 8 de março de 2021.
Durante cerca de seis horas de depoimento, Monique negou ter participação no crime e afirmou que foi enganada por Jairinho ao longo da investigação. Em diversos momentos, chorou ao falar de Henry e rejeitou a acusação de que teria sido conivente com agressões contra o menino. Ela também contestou o depoimento da ex-babá Thayná Ferreira, sustentando que jamais recebeu relatos sobre episódios de violência praticados pelo então namorado.
No fim da tarde, Jairinho iniciou seu interrogatório respondendo apenas às perguntas formuladas por sua defesa. O ex-vereador negou agressões contra Henry, ex-companheiras e outras crianças que depuseram ao longo do julgamento. Em um dos momentos mais emocionantes da sessão, afirmou que desejava que o menino estivesse vivo e declarou que sua vida foi destruída pela acusação.
Pela primeira vez, Jairinho admitiu que costumava brincar de "dar banda" com Henry, embora tenha afirmado que a expressão se referia a uma brincadeira inocente e não a uma rasteira. Ele também apresentou sua versão para a madrugada da morte da criança, dizendo que Henry acordou diversas vezes chamando pela mãe antes de passar mal.
Ao longo do depoimento, o ex-vereador voltou a questionar a investigação e o atendimento prestado no Hospital Barra D'Or. Na reta final da oitiva, Leniel Borel afirmou acreditar que o pai de Henry sabe que ele não foi o responsável pela morte do menino.
Décimo dia: debates e reportagens
O décimo e último dia do julgamento foi marcado pelos debates finais entre acusação e defesa, pela votação dos jurados e pela leitura da sentença que cerrou um dos júris mais longos da história do Tribunal de Justiça do Rio.
Na fase de sustentações finais, o promotor Fábio Vieira defendeu a tese de que Jairinho utilizava seu poder político e econômico para intimidar pessoas e se aproximar de mulheres. Segundo a acusação, o ex-vereador manteve um histórico de violência contra mulheres e crianças e teria encontrado em Henry uma vítima vulnerável. Afirmou ainda que Jairinho se valia de seu poder político e econômico para intimidar pessoas e sustentou que o ex-vereador apresentasse traços de.
O assistente de acusação Cristiano Medina reforçou a tese de que Jairinho era responsável pelas agressões que culminaram na morte de Henry e afirmou que dados extraídos dos celulares dos réus indicavam movimentações suspeitas dentro do apartamento na madrugada do crime. Medina também destacou elogios periciais que apontaram que o menino já estava morto havia algum tempo quando chegou ao hospital. Em sua fala final, diferenciou a responsabilidade dos dois réus, afirmando acreditar na possibilidade de ressocialização de Monique, mas não de Jairinho.
A defesa de Monique sustentou que a ré não tinha conhecimento das agressões sofridas por Henry e demonstrou ampliar a discussão social para as expectativas impostas à maternidade. Os advogados argumentaram que comportamentos apresentados ao longo do processo como sinais de omissão — como trabalhar, frequentar a academia, praticar esportes e manter uma rotina própria — acabaram sendo usados para julgar a forma como ela exercia a maternidade. A defesa também afirmou que mulheres independentes e profissionalmente bem-sucedidas podem ser vítimas de relacionamentos abusivos e sustentaram que não havia provas de que Monique tivesse plena compreensão da violência atribuída a Jairinho.
Já os advogados do ex-vereador concentraram os ataques na investigação e nos laudos periciais produzidos após a morte de Henry. A defesa voltou a direcionar críticas a Leniel Borel, sustentando que ele teria influenciado peritos responsáveis pelos exames do caso. Também retomou a tese de que um acidente sofrido por Henry antes do fim de semana de sua morte teria sido omitido durante as investigações.
Enquanto os jurados se preparavam para iniciar a votação, Leniel participou de uma corrente de oração na porta do plenário e afirmou acreditar que a decisão seria guiada pela “justiça divina”.
Já na madrugada de quinta-feira, os jurados condenaram Jairinho. Na sentença, Elizabeth Louro afirmou que o ex-vereador declarou uma “personalidade insidiosa, perfeitamente apta ao engano e à dissimulação” e destacou a extrema vulnerabilidade de Henry.
Em relação a Monique, os jurados afastaram a acusação de homicídio doloso e desclassificaram o crime de homicídio culposo, entendendo que houve negligência em sua conduta. A juíza concedeu perdão judicial pelo homicídio culposo, mas a condenou por omissão diante da tortura sofrida pelo filho.
Ao explicar o perdão judicial, Elizabeth Louro afirmou que Monique foi alvo de uma ocorrência social “desproporcional” e marcada por discriminação de gênero. A magistrada sustentou que, em situação semelhante, um pai dificilmente teria sido submetido ao mesmo julgamento público.
Após a sentença, a defesa de Monique celebrou a decisão e afirmou que os jurados resistiram à pressão da opinião pública. Já Leniel Borel criticou duramente o perdão judicial à ex-mulher e declarou que Henry havia sido “morto mais uma vez”. O Ministério Público e a assistência de acusação anunciaram que pretendem recorrer da decisão relacionada a Monique, buscando a realização de um novo julgamento.
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