RJ em Foco
'A gente se sente desprotegido. Virou terra de ninguém a unidade' diz funcionário de clínica da família fechada há seis dias por guerra do tráfico
Funcionários relatam episódios de violência com a tentativa do CV de tomar Acari, hoje controlada pelo TCP
Em 22 de maio, um “indivíduo portando fuzil entrou armado na unidade, após abordar dois adolescentes que utilizavam o bebedouro, ameaçando agredi-los”. No mesmo dia, um funcionário “foi abordado para identificação, sendo obrigado a apagar as luzes da unidade e impedido de realizar rondas, sob ameaça de ser alvejado”. Três dias antes, outro funcionário “foi ameaçado por indivíduo armado em frente à unidade, enquanto utilizava seu telefone celular pessoal”. No primeiro de abril, mais duas pessoas foram coagidas por indivíduo armado a realizar atendimento domiciliar, sob ameaça”.
Vítima:
'Apaga as ’:
Esses e outros episódios de violência são relatados em uma reunião extraordinária, realizada na Clínica de Família Enfermeira Edma Valadão — que funciona na Avenida Brasil, atrás do Ciep Adão Pereira Nunes, em Acari. O quadro se agravou por causa da guerra do tráfico pelo controle da favela, hoje nas mãos do Terceiro Comando Puro (TCP), mas sobrevivência de tentativa de invasão pelo Comando Vermelho (CV).
Na reunião, foi deliberado solicitar o fechamento temporário da unidade à Coordenadoria de Área Programática (CAP) 3.3 da Secretaria Municipal de Saúde e à empresa SPDM (Organização Social que administra a clínica). A suspensão das atividades iria do dia 27 de maio a 8 de junho. Mas os funcionários atenderam um pedido da CAP e concordaram em reabrir a clínica nesta terça-feira, dia 2 de junho. Também ficou acertado que será feita uma denúncia ao Ministério Público do Trabalho.
— A gente se sente desprotegido. Virou terra de ninguém para a unidade. Não temos nenhuma garantia de que a situação vai melhorar, mas concordamos em voltar dia 2. Estamos numa comunidade que é 100% SUS dependente, Até dia 8 muitas pessoas ficariam com alguns prejuízos, como tratamento de tuberculose, pré-natal...Concordamos com a CAP que, de fato, fechar por mais de uma semana, seria muito — disse o funcionário X.
Segundo o mesmo funcionário, uma consequência da violência que não pode ser revertida é a limitação do uso da clínica por pacientes apenas de Acari:
— Antes, o nosso raio-x era aberto para pacientes do Sisreg (Sistema de Regulação) de fora da comunidade. Agora, só podemos marcar pacientes cadastrados de Acari.
Ação em favela:
No mês passado, seis funcionários — entre médicos, dentistas, pessoal administrativo e agentes de saúde — pediram transferência da clínica. Houve ainda quem se atrasou por problemas de saúde.
— Tudo piorou no início de maio, porque outros visitantes entraram ali, de outros territórios, até de fora do Rio de Janeiro. Diariamente a gente encontra em torno de seis ou sete atores armados na frente da unidade E aí esses atores armados abordam as pessoas — conta X.
A Clínica de Família Enfermeira Edma Valadão tem cerca de 95 funcionários e faz de 600 a 700 atendimentos por dia, entre coleta de sangue, vacinações, procedimentos, visitas domiciliares e terapêuticas, além de consultas médicas e de enfermagem. A unidade tem aproximadamente 20 mil pessoas cadastradas.
A clínica chegou a divulgar nota de repúdio ao que classifica de “atos de vandalismo, violência física, agressões verbais, ameaças, intimidações e tentativas de coação”.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que “em razão da instabilidade no território, para a segurança de usuários e profissionais de saúde, a Clínica da Família Edma Valadão precisou suspender o funcionamento na última quarta-feira (27/05). O atendimento será retomado amanhã (02/06), caso haja segurança na região. Todas as consultas que foram agendadas para este período serão devidamente remarcadas”.
A SMS disse ainda que, “desde o início do ano, a rede de Atenção Primária (clínicas da família e centros municipais de saúde) registrou 304 fechamentos totais de unidades decorrentes da violência”.
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