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Violência contra as mulheres: Ciúme e ódio marcados a fogo na pele das vítimas

Casos de feminicídio em que agressores incendeiam companheiras são, segundo especialistas, uma tentativa de apagar a identidade das mulheres, deixando cicatrizes, desfigurando e prolongando o sofrimento

Agência O Globo - 31/05/2026

Era noite de 21 de abril deste ano quando Fabrícia Dias, de 30 anos, teve metade do corpo queimado após ser encharcada de álcool. A vítima sofreu lesões no tórax, braço, antebraço e cabeça, e segue internada em estado estável, aguardando uma cirurgia. O principal suspeito do crime é seu ex-companheiro, Jefferson Lopes da Silva, de 29 anos, que teria ateado fogo em Fabrícia depois de tentar reatar, sem sucesso, um relacionamento de 11 anos. O homem fugiu após cometer o crime, que aconteceu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, mas foi entregue dois dias depois e está preso por tentativa de feminicídio.

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A escolha de matar uma mulher com uso do fogo não é mera coincidência nem fruto do acaso. Segundo Silvana Mariano, socióloga e coordenadora do Levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), da Universidade Estadual de Londrina, no feminicídio pelo fogo o objetivo final do agressor nem sempre é apenas a morte.

—O fogo, nesse contexto, tem um simbolismo muito forte porque, além de matar, representa também a tentativa de apagar essa mulher e eliminar seus vestígios. E, se ela sobreviveu, pode ficar profundamente desfigurada. O feminicídio pelo fogo é uma expressão extrema de um poder que busca o aniquilamento da identidade da mulher, é uma destruição objetiva e subjetiva—diz.

A delegada titular da Delegacia Virtual da Mulher do Rio de Janeiro, Renata do Amaral, afirma que o uso do fogo está associado a situações de sentimento de posse por parte do criminoso:

—Normalmente, as pessoas percebem que o emprego do fogo é mais comum em situações de ciúme, quando o autor tem uma incapacidade de aceitar o fim de uma relação. Fora que é um crime muito mais premeditado e revela essa questão da brutalidade e do simbolismo. Além do objetivo de prolongar o sofrimento da vítima.

Seis dias depois do ataque contra Fabrícia, o fogo voltou a ser usado como meio de violência contra a mulher. Desta vez, com um estágio fatal. Ana Lúcia Alves, de 64 anos, foi encontrada carbonizada, embaixo da cama, após ter uma casa incendiada pelo companheiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. O homem foi encontrado por policiais militares no local do crime, machucado, após ser agredido por populares.

—Ele sempre fez de tudo para agradar a ela, nunca demonstrou nada de errado para a gente, mas não sei como era quando os dois ficaram sozinhos— conta o filho da vítima, Bruno Marins.

Guimba de cigarro

Segundo ele, o suspeito alegou que o fogo teria sido causado por uma bituca de cigarro:

—Uma guimba de cigarro não faria aquele fogaréu tudo, e se fosse um incêndio acidental minha mãe gritaria por socorro. Os vizinhos me disseram que quando viram as chamas preocupadas em socorrer minha mãe, mas ele não queria deixar ninguém entrar. Ele matou minha mãe e, para esconder a prova do crime, colocou fogo em tudo. Foi um feminicídio e não apenas um incêndio.

Em nota, a Polícia Civil informou que o homem foi indiciado em flagrante por incêndio com resultado em morte, crime com pena inferior ao feminicídio.

De acordo com o Dossiê Mulher do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro de 2025 (ano-base 2024), na maioria das tentativas de feminicídio no estado não havia informações registradas sobre o meio empregado (58,6%). Entre os casos de concepção, os meios mais utilizados foram “arma branca” com 21,2%, e “asfixia, envenenamento ou material inflamável” com 12,3%. Já os feminicídios consumidos, por sua vez, foram cometidos majoritariamente por meio de “arma branca” com 38,3% e, em segundo lugar, por “asfixia, envenenamento ou material inflamável” com 23,4%.

Em relação ao local do crime, as residências continuam sendo o local mais recorrente, concentrando 69 feminicídios consumidos (64,5%) e 250 tentativas (65,4%).

Ação calculada

Para Silvana Mariano, apesar de não ser a forma mais comum, a feminicida que utiliza o fogo para cometer o crime tende a agir de maneira ainda mais calculada que os demais:

—O feminicídio, em si, é um crime premeditado, mas quando o homem decide matar uma mulher por asfixia, por exemplo, ele vai diretamente com as mãos e tem um tempo muito curto entre a decisão e a execução. No caso de fogo, é preciso um tempo maior de premeditação sobre o modo, o material que vai ser usado e até para ele pensar em como pode se proteger das chamas. Tudo isso envolve um tipo de feminicida que tem mais frieza e é mais calculista que os outros.

Crimes semelhantes aos de Fabrícia e Ana Lúcia já marcaram o noticiário fluminense. Em 4 de abril de 2009, o ex-marido de Rosângela Sá, descrito como um homem frio e distante, invadiu a casa da ex-companheira com uma garrafa PET cheia de gasolina e ateou fogo diretamente no rosto da ex-companheira.

O agressor, que não aceitou o fim do relacionamento de 21 anos, queimou 65% do corpo da vítima, que sofreu uma recuperação dolorosa e carrega até hoje as marcas da violência.

— Meu relacionamento todo foi à base de chantagem e eu não percebia que isso também era uma violência. Quando decidiu pedir a separação, com minhas duas filhas já adultas, ele não aceitou. Vivia me procurou e falou que não tinha medo da polícia. Era um aviso, mas eu nunca imaginei que ele fosse fazer isso — diz Rosângela, que passou dois meses internada no CTI e que ainda carrega as marcas do crime. — Lembro de sentir minha bola de fogo vindo em direção ao meu rosto e depois sentir pele descolando.

Rosângela hoje atua na ONG Movimento de Mulheres, em São Gonçalo, ajudando outras vítimas de violência.

—As minhas cicatrizes, para mim, não são marcas de derrota, são marcas de vitória, porque eu entrei numa batalha e eu venci. Mas infelizmente nem todos conseguem isso— disse.

Após atear fogo em Rosângela, o criminoso também provocou queimaduras no sobrinho da vítima e, na época, respondeu por duas tentativas de homicídio. Na ocasião, o crime de feminicídio ainda não constava na legislação brasileira.

—Ele foi preso em 2009 e cumpriu apenas um terço da pena. Acredito que não ficou no máximo dez anos. Nem eu nem minhas filhas tivemos mais contato com ele ou com alguém da família dele — explica ela.

Dez anos depois, em 2019, outro caso chocou o estado pela crueldade e pelo desfecho judicial. Em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, Rodrigo Marotti invadiu a casa da ex-namorada, Alessandra Vaz, e da amiga dela, Daniela Mousinho, trancou as duas em um banheiro, iniciou um incêndio e usou um colchão em chamas para bloquear a porta do cômodo.

Com mais de 80% dos corpos queimados, as duas morreram. A motivação do crime teria sido por conta de desentendimentos em relação à empresa que o crime tinha com uma ex-companheira.

Em 2022, Rodrigo foi a julgamento por feminicídio, mas os jurados entenderam que não houve intenção de matar, desclassificando o crime e o condenando pelo crime de incêndio qualificado com resultado morte e furto praticado durante o descanso noturno, o que provocou indignação nos parentes das vítimas. Ele foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão, inicialmente em regime fechado. Atualmente, cumpre pena no semiaberto.

*Estagiária sob coordenação de Cláudia Meneses