RJ em Foco

Caso Henry: sexto dia de julgamento chega ao fim após mais de oito horas de sessão e depoimento de três testemunhas

A sessão será retomada neste domingo, às 10h, com o depoimento da babá

Agência O Globo - 31/05/2026
Caso Henry: sexto dia de julgamento chega ao fim após mais de oito horas de sessão e depoimento de três testemunhas
Caso Henry: sexto dia de julgamento chega ao fim após mais de oito horas de sessão e depoimento de três testemunhas - Foto: YOUTUBE/Reprodução Fonte: Agência Senado

O sexto dia de julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, do ex-vereador Jairinho, e da professora Monique Medeiros, réus pela morte do menino Henry Borel, em 2021, chegou ao fim às 23h40 deste sábado, após mais de oito horas de sessão e depoimento de três testemunhas: o irmão de Monique, o mecânico Bryan Medeiros da Costa e Silva; Ari Mamede, amigo e colega de profissão da área; e Márcia Eduarda Andrade Vieira, recepcionista da brinquedoteca do condomínio onde os dois réus moraram, na Barra da Tijuca. A sessão será retomada neste domingo, às 10h. 

Bryan contou sobre a ocorrência do ocorrido ao saber da morte de Henry. De acordo com Bryan, Monique teria ficado "fora de si" e expressou interesse em tirar a própria vida, "para ficar perto de Henry", ao que o pai dela teria respondido: "Não tire sua vida. Se você fizer isso, não vai encontrar Henry", relatou Bryan. Mais adiante, durante o interrogatório, a defesa de Jairinho fez uma série de questionamentos a Bryan, incluindo perguntas sobre contradições nos laudos do Instituto Médico Legal, na tentativa de confessar que Leniel Borel, pai da criança, teria manipulado os peritos que produziram o documento, tese sustentada pela defesa de Jairinho desde o início do processo. 

Durante a oitiva, Bryan corroborou a tese de que Jairo foi o autor das agressões que levaram à morte de Bryan. A defesa de Jairinho, então, argumentou que o mesmo inquérito policial que Bryan usa como base para imputar Jairinho também indicia Monique. E perguntou: "Então, o senhor concorda com o inquérito em relação ao Jairo, mas não em relação à Monique". Ao que Bryan respondeu:

— O que o senhor está tentando sugerir é que o inquérito policial é o único elemento para que eu possa concluir dessa forma, mas não é. Nas mensagens interceptadas de Thayná, ela, ao falar com o noivo, por exemplo, é categórica ao falar das sessões de agressão a que Monique e Henry foram submetidos. 

O advogado Zanone Manoel de Oliveira Júnior, da equipe de Jairinho, disse que não há registro sobre agressões em nenhuma delegacia. E Bryan argumentou que Monique não poderia ter total consciência da situação de violência que estava vivendo:

— Ela não faz acompanhamento psicológico. E, na época, não tinha condições de identificar que aquela situação era de agressão e que estava vivendo um relacionamento tóxico. 

Por fim, Bryan foi interrogado pelo promotor do Ministério Público Fábio Vieira, que reforçou que o que pesa contra Monique é que ela "sabendo de toda a situação, preferiu fingir que não sabia de nada e entregar seu sobrinho como oferta", disse o promotor. Fábio Vieira lembrou que, ao ser alertado por Leniel Borel, pai de Henry, de que o menino reclamou de um "abraço apertado" de Jairinho, Monique disse que a criança "sonhou com a situação", numa tentativa de "proteger Jairo". O promotor citou ainda outras situações, como a ocasião em que Monique estava no salão e recebeu uma ligação da babá Thayna dizendo que Jairo estava trancado com Henry no quarto, com música alta, e, em seguida, a criança saiu mancando e chorando. 

— Não tenho conhecimento de que ela tentou minimizar as situações de agressão — respondeu Bryan. — Ela jamais permitiria que ele sofresse agressão; ela jamais seria convencida com a tortura e a morte do filho dela. Infelizmente, foi criada uma campanha difamatória contra ela, com ataques deliberados contra pessoas que não a conhecem. 

Ari Mamede, que escreveu por menos de dez minutos, defendeu que Monique Medeiros era "excelente colega de trabalho. Uma boa professora e boa gestora"

— Monique era amada na escola. Eu presenciei algumas cenas de mãe de aluno se exasperar com alguma professora, a mãe estava incontrolável, e Monique conseguiu controlar com maestria, diálogo e placidez a situação — disse. — Todas as vezes que Henry esteve na escola com ela, eu percebia a atenção, carinho e zelo da mãe com ele.       

Já Maria Eduarda Andrade Vieira, última testemunha a ser ouvida no sábado e cujo depoimento durou cerca de 15, relatou que sempre era Monique quem levava Henry à brinquedoteca e que "percebia a relação de afeto entre os dois":

— Eles brincavam de lego, um brinquedo de encaixe. Me chamou muita atenção o fato de ela dar muito carinho ao Henry. 

Outras testemunhas que seriam ouvidas nesta noite são Rosângela Medeiros da Silva e Costa, mãe de Monique, e Ana Paula Medeiros Pacheco, prima da ré. Mas a defesa de Monique optou por dispensá-las.

Cronologia do julgamento

Até esta manhã, 13 das 27 testemunhas previstas já foram ouvidas pelos jurados. Entre elas estão testemunhas de acusação, do juízo e peritos considerados centrais para a sobrevivência da morte de Henry Borel. Na segunda-feira, o julgamento foi iniciado após tentativa de defesa de Jairinho de adiar o julgamento, apontando um dos motivos do infarto do advogado Fabiano Tadeu Lopes, o principal responsável pela estratégia jurídica do réu. Na terça, prestou depoimento as primeiras testemunhas de acusação, o delegado Edson Henrique Damasceno, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca) quando Henry morreu, em março de 2021, e a delegada Ana Carolina Lemos Medeiros de Caldas, ambos responsáveis ​​pelas investigações do caso. No mesmo dia, Fabiano Lopes anunciou que voltaria à banca de defesa de Jairinho.

O terceiro dia, na quarta-feira, foi marcado por debates entre acusação e defesa e depoimentos que detalharam os últimos momentos da vida de Henry Borel. Ao longo da tarde e da noite, os jurados ouviram o psiquiatra Rafael Bernardon e a médica Maria Cristina Souza Azevedo, responsável pelo atendimento do menino no Hospital Barra D'Or na noite da morte. Durante a sessão, a defesa questionou a atuação de testemunhas da acusação e a condução do julgamento, enquanto a médica relatou os fatos de Monique após a confirmação do óbito e as tentativas de reanimação de Henry. 

Já na quinta-feira teve o retorno do advogado que infartou, Fabiano Tadeu Lopes, e depoimentos com relatos de supostas agressões atribuídas ao ex-vereador, contradições em depoimentos de testemunhas e novos momentos de tensão no plenário. Uma das testemunhas ouvidas foi Kaylane Pereira, filha de uma ex-namorada de Jairinho. Hoje maior de idade, ela teve episódios de agressões que afirmam ter sofrido quando era criança.

A sexta-feira foi destacada pelo fortalecimento da linha de acusação sobre a morte de Henry Borel. Ao longo da sessão, o perito criminal Luiz Carlos Leal Prestes e o médico-legista Luiz Airton Saavedra descartaram as hipóteses de acidente doméstico, rejeitaram a tese de que as lesões poderiam ter sido causadas por manobras de reanimação e apontaram sinais compatíveis com agressões sofridas pela criança. Os especialistas também reforçaram a conclusão de que Henry já estava morto quando chegou ao Hospital Barra D'Or. O dia ainda foi marcado pela saída dos dois réus do plenário por alegados problemas de saúde e pelo depoimento de Leniel Borel, pai do menino.

Até o momento, já foram ouvidos o delegado Edson Henrique Damasceno; a delegada Ana Carolina Lemos Medeiros de Caldas; o psiquiatra Rafael Bernardon Ribeiro; a médica Maria Cristina de Souza Azevedo; Kaylane de Oliveira Duarte Pereira; Natasha de Oliveira Machado; Débora Mello Saraiva; a empregada Leila Rosângela de Souza Mattos; a cabeleireira Tereza Cristina dos Santos; a manicure Paloma dos Santos Meireles; o perito Luiz Carlos Leal Prestes; o médico-legista Luiz Airton Saavedra de Paiva; Leniel Borel de Almeida Júnior; o irmão de Monique, o engenheiro mecânico Bryan Medeiros da Costa e Silva; e a babá Thayná de Oliveira Ferreira.

Uma morte

Henry Borel morreu em 8 de março de 2021, aos 4 anos, após dar entrada no Hospital Barra D'Or, na Barra da Tijuca, com múltiplas lesões internacionais e em parada cardiorrespiratória. Jairinho e Monique responderam por homicídio triplamente qualificado, tortura, coação no curso do processo, fraude processual e falsidade ideológica. Segundo a denúncia do Ministério Público, o menino foi submetido a agressões dentro do apartamento onde morava com a mãe e o então padrasto, na Zona Oeste do Rio.