RJ em Foco
Área de lazer na orla de Copacabana, a primeira do Rio, faz 50 anos; hoje, são mais de 1.200 em toda a cidade
Aberta para pedestres desde maio de 1976, a via inspirou experiências semelhantes até em outras cidades
A fila de crianças e adultos trazendo suas bicicletas pelas mãos se formou logo. A turma aguardava a hora de calibrar os pneus arriados das magrelas quando chegou a notícia: nada feito, a direção do posto de combustíveis mandou desligar o “sistema automático de ar comprimido”. A medida foi tomada porque o movimento para usar o aparelho naquela manhã de domingo estava muito acima do normal. Era dia 30 de maio de 1976 e, pela primeira vez, a Avenida Atlântica fora fechada aos automóveis e aberta como área de lazer. A iniciativa, que hoje completa 50 anos, foi um sucesso e tem se repetido desde então a cada domingo e feriado — para o deleite de cariocas e turistas.
Os donos do crime:
Caso Henry:
A queixa dos ciclistas diante do inesperado corte do funcionamento do compressor foi registrada pela equipe do GLOBO que percorreu a orla naquele dia. O texto revela ainda o mau comportamento de alguns motoristas. Teve um que “abalroou um dos três cavaletes colocados no centro da pista para impedir o tráfego de veículos motorizados”, quase atropelando “quatro policiais militares e dez crianças que brincavam nas proximidades”. Nada disso, porém, conseguiu atrapalhar o clima festivo que se instalou no trecho entre a Avenida Princesa Isabel e o Forte do Leme, das 8h às 16h.
Pioneirismo
A fotografia que ilustra a primeira página do GLOBO no dia seguinte (e que está na primeira página do jornal de hoje) mostra um homem sentado numa cadeira de praia em plena pista da Atlântica, lendo. Ao lado dele, uma mulher ajeita a criança num carrinho de bebê. A cena é completada por jovens de bicicleta — com os pneus cheios, diga-se — no espaço originalmente dedicado aos carros. A imagem foi clicada pelo fotógrafo Paulo Moreira, aos 36 anos de idade. Hoje, aos 86, ele diz que a memória às vezes falha, mas não se esquece que aquele foi um evento marcante para os cariocas.
— Era um momento diferente da cidade e permitiu que as pessoas ocupassem a pista, que antes era só dos carros. Foi um espaço a mais para o carioca fazer uma caminhada, andar de bicicleta e patins, este último muito comum naquela época. A iniciativa deu certo e foi levada para outros bairros — contou o morador do Méier, onde um trecho da Rua Dias da Cruz também se transforma em área de lazer aos domingos e feriados.
Caso Henry:
Paulo tem razão, a ideia deu frutos. Foi ampliada na própria Avenida Atlântica — onde o trecho aberto aos pedestres hoje vai da Avenida Prado Júnior à Rua Francisco Otaviano, nos domingos e feriados, das 7h às 18h — e extrapolou a orla de Copacabana. De acordo com a prefeitura, há 1.266 áreas de lazer regulamentadas, das quais 782 na Zona Norte, 439 nas zonas Oeste e Sudoeste, 31 no Centro e 14 na Zona Sul.
O pioneirismo da Atlântica acabou servindo de inspiração e modelo também para outras cidades Brasil afora. Na Avenida Paulista (São Paulo), por exemplo, a abertura para pedestres aos domingos começou em junho de 2015 e é um sucesso entre os frequentadores.
— Existiram outras iniciativas antes, mas geralmente eram eventos pontuais. A diferença é que a Avenida Atlântica acabou sendo apropriada pela população e continuou porque deu muito certo. Já tinha essa vocação, funcionando como uma extensão da praia — diz Camila Motoike Paim, arquiteta e urbanista formada pela FAUUSP e mestre pela mesma instituição com a pesquisa “O programa Paulista aberta: transformações na paisagem contemporânea”.
Urbanidade plena
Para a pesquisadora, as experiências na Atlântica e na Paulista são exemplos que convidam à reflexão sobre a forma como as grandes cidades se organizam:
— Existe um aspecto de resistência e de resiliência quando as pessoas ocupam esses espaços. Nem sempre é preciso uma grande obra, uma ponte ou um viaduto. Também podemos transformar a cidade pela forma como nos apropriamos dela.
Crime organizado:
Para Sydnei Menezes, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU/RJ), a experiência da Atlântica pode ser considerada um marco.
— Esse tipo de iniciativa representa aquilo que a gente chama de urbanidade plena, quando a população se apropria dos espaços públicos e utiliza esses espaços, no caso específico da Avenida Atlântica, como área de lazer. É uma iniciativa altamente importante, principalmente nas grandes cidades, que sempre carecem um pouco dessas áreas. A experiência de Copacabana foi super exitosa e funciona muito bem até hoje — diz.
Nascida e criada em Copacabana, a assistente executiva Cristina Grangier, de 54 anos, conta que já aproveitou o fechamento da Atlântica até para comemorar aniversário e que foi num trecho da via aberta para lazer que um de seus dois filhos, Ivan, hoje com 23 anos, aprendeu a andar de bicicleta aos 12.
—Ele aprendeu tardiamente. Como já era grandinho, lembro que as pessoas ficavam torcendo e, para incentivar, ficavam gritando “vai”, e ele ia — relembra a hoje moradora do Leme.
Thiago Gomide:
O uso da Atlântica como área de lazer é um barato, mas tem regras. Por lá, a permissão é apenas para a circulação de pedestres e bicicletas usadas por crianças de até 8 anos. Patinetes e bicicletas comuns e elétricas devem circular pela ciclovia, com velocidade máxima de 25km/h. Ciclomotores e autopropelidos não são permitidos.
A medida vale para todas as demais áreas na Zona Sul. Nos bairros sem infraestrutura cicloviária, a máxima permitida é de 6km/h. A fiscalização das áreas de lazer fica a cargo da Secretaria de Ordem Pública (Seop).
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