RJ em Foco
CV, classificado com terrorista pelos EUA, amplia interesse na política, treina 'soldados' na Ucrânia e se espalha pelo país
Veja como atua a facção, a maior do Rio de Janeiro e que intensifica uma sangrenta guerra pelo controle de territórios em vários estados
Classificado nesta quinta-feira pelos Estados Unidos como, o Comando Vermelho (CV) promove nos últimos anos uma guerra sangrenta para expandir seu controle armado não só no Rio de Janeiro, onde nasceu, mas em diferentes regiões do país. As investigações apontam que uma facção já instalou células em 25 estados e no Distrito Federal. Paralelamente, o grupo amplia sua atuação para além do tráfico de drogas e armas, passando a lucrar e lavar dinheiro em negócios ilegais em diversos setores da economia, da exploração de serviços de internet. São estratégias de nacionalização da facção e de domínio de rotas do tráfico pelo Brasil, em confronto direto também com o Primeiro Comando da Capital (PCC), outro grupo considerado terrorista pelos EUA.
Reação:
Os donos do crime:
Segundo a polícia, uma facção que surgiu no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, em 1979, tem chefes que comandavam a quadrilha de dentro de presídios e outros encastelados em verdadeiras fortalezas armadas, como os complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. Os dois conjuntos de favelas foram o cenário, em outubro do ano passado, sendo 117 deles suspeitos.
Na prisão:
No processo atual de expansão, há investigações mostradas ações cada vez mais ousadas do bando. A infiltração na política e a cooptação de policiais revelam como os criminosos tentam ganhar mais influência nas estruturas do governo. Na economia, uma operação recente descobriu que o grupo montou até uma fazenda de mineração de criptomoedas numa favela do Rio. Já na disputa de territórios com grupos rivais, a organização criminosa investe em armas de guerra e em drones de grande porte capazes de transportar fuzis de uma comunidade para outra. Ex-mercenários da guerra da Ucrânia treinaram os bandidos do Complexo do Alemão para operarem o equipamento, segunda apuração da Secretaria de Segurança do Rio. Veja abaixo como o CV atua.
Expansão pelo país e home office do crime
Levantamentos mostram que o Comando Vermelho já abriu “franquias” em 25 estados do Brasil e no Distrito Federal. Enquanto isso, o Rio transformou-se num espaço de intercâmbio, onde chefes de facção vindos de todo o Brasil ganharam blindagem e passaram a controlar territórios à distância, escondidos nos grandes complexos cariocas, numa espécie de home office do crime. Um episódio escanda esse movimento: grande parte dos mortos na megaoperação de outubro passado na Penha e no Alemão era de fora do Rio. Órgãos de segurança pública já identificaram a presença de traficantes de pelo menos outros 12 estados em territórios sob domínio do CV no Rio.
'Resort do NA':
Longe do estado onde surgiu, o CV impõe o terror com práticas semelhantes às impostas no Rio. Estados como Amazonas, Ceará, Bahia e Espírito Santo assistiram a episódios violentos como os ocorridos em agosto do ano passado na cidade capixaba de Serra. Uma menina de 6 anos estava sentada no banco de trás de um carro ao lado da mãe, grávida de oito meses. Ao se aproximar de casa, a família foi estudada com fotos disparadas de outro veículo. A criança, atingida na cabeça, morreu. Segundo a Polícia Civil, o crime foi provocado por traficantes do Primeiro Comando de Vitória (PCV), aliados do Comando Vermelho, que confundiram o automóvel da família com os rivais do Terceiro Comando Puro (TCP). A menina foi enterrada no dia de aniversário de casamento dos pais.
Infiltração na política
Investigações recentes mostram como o currículo se infiltra na política fluminense. O caso mais emblemático é a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, e o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Jóias. Segundo as apurações, eles foram acionados para obstruir investigações relacionadas à facção por meio do repasse de informações sigilosas sobre operações policiais. Ambos os políticos estão presos, e suas defesas negam as acusações.
'O Bacellar me avisou':
No caso da TH Jóias, as denúncias apontam que ele utilizaria o mandato parlamentar para favorecer os interesses do crime organizado, sendo acusado de intermediar negociações envolvendo drogas, fuzis e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão. A Polícia Federal revelou ainda que a TH Jóias e o CV planejavam lançar Gabriel Dias de Oliveira, o, preso por ligação com o tráfico, como candidato a vereador na cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Além disso, como mostrado na série “Os donos do crime”, do GLOBO, as investigações da PF demonstram o interesse da facção em cooptar outros políticos com o trânsito no governo do Rio. Numa troca de mensagens identificadas pela polícia, em 16 de janeiro de 2025 o traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal, encaminhou ao comparsa Edgar Alves de Andrade, o Doca, “01” do Comando Vermelho no Complexo da Penha — uma das fortalezas da facção no Rio —, uma foto do deputado Roosevelt Barreto Barcelos (PRD), conhecido como Val Ceasa. O político esteve no Palácio Guanabara, sede do governo do Rio, após uma reunião sobre o programa Segurança Presente, ao lado do então governador Cláudio Castro e dois vereadores.
Depois de enviar a foto, Gardenal escreveu: “Te falei, Val é o contato dele”, sem explicar a quem se referia o “dele”. Em seguida, Doca respondeu: “É, mano, esse cara tem que vir para nós”. A PF destaca que a troca de mensagens demonstra o “evidente” interesse da facção em aliciar agentes políticos para aumentar o poder do grupo, conquistar proteção institucional e exercer influência sobre decisões públicas. Segundo o pesquisador, a aproximação com políticas também teria como objetivo usar esses aliados como portas-vozes indiretas, influenciando ações sociais e garantindo que iniciativas do Estado não interfiram em áreas dominadas pela facção.
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Apesar de não ficar claro de quem Val seria contato, uma fonte da PF confirmou que uma conversa dos crimes remete a uma suposta aliança do político com Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP), facção rival do CV. A conexão entre os dois foi tema de uma reportagem do GLOBO publicada três meses após o diálogo. A matéria mostrou que a demolição de um resort de Peixão, na Cidade Alta, Zona Norte do Rio, foi adiada por 15 meses após uma suposta articulação política envolvendo Val Ceasa.
Crime organizado:
O caso é alvo de uma investigação da Procuradoria-Geral de Justiça que tramita sob sigilo. O deputado sempre refutou as acusações. Sobre as mensagens entre Doca e Gardenal, diz que a citação “não significa, em hipótese alguma, qualquer relação pessoal, aliança ou compromisso” e que repudia a tentativa de ligação da imagem dele ao crime organizado. Castro também rechaçou “qualquer tentativa de associação a organizações criminosas a partir de interpretações atribuídas a diálogos de terceiros” e disse que a foto retrata uma reunião institucional no Palácio Guanabara.
Drones de guerra e treinamento com técnicas da Ucrânia
Investigações da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança do Rio identificaram este ano que traficantes do Complexo do Alemão adquiriram drones de grande porte usados originalmente em atividades agrícolas e transporte de carga. Os equipamentos têm capacidade para carregar até 80 quilos — peso equivalente a cerca de 20 fuzis FAL ou AR-15 —, autonomia de até 12 milhas e custo superior a R$ 200 mil por unidade.
Imagens captadas por uma aeronave da Polícia Militar flagraram um treinamento com um drone de aproximadamente três metros de comprimento cercado por pelo menos dez pessoas momentos antes da decolagem. Segundo a polícia, o treinamento seria ministrado por um brasileiro que retornou da guerra na Ucrânia após atuar por pelo menos um ano como voluntário no conflito contra a Rússia.
A aponta inteligência que ele passou a repassar técnicas militares aos planos e chegou a apresentar Doca, integrante da cúpula do CV, com uma placa balística utilizada por ele no front europeu. Segundo a polícia, o CV subvenciona custos, incluindo despesas com passagens aéreas, para que membros do bando sem antecedentes criminosos deixem o país e lutem na guerra entre Ucrânia e Rússia.
Thiago Gomide:
Acesso a apêndice
A PF revelou também que membros do grupo tinham acesso indevido a decisões judiciais e documentos do Ministério Público do Rio ainda em fase de elaboração. Os arquivos, relacionados a rivais e membros da própria facção, foram encontrados após a análise de um backup pertencente ao policial militar Luciano da Costa Ramos Junior, que foi cedido ao Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) e foi preso no ano passado.
No armazenamento na nuvem do PM, o pesquisador achou a imagem de um texto em produção sobre uma denúncia contra um traficante do TCP e a foto de uma decisão, também em fase de edição, referente à representação de medidas cautelares contra familiares de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e de Doca.
O documento contendo mandatos de busca e apreensão, o que, segundo a PF, demonstra que o policial repassava aos traficantes conteúdos “altamente sensíveis e de natureza sigilosa”.
Corrupção policial
Um caso recente expõe como o CV utiliza policiais corruptos em sua atuação: são . Num grupo de WhatsApp, identificado como “PAZ CDD”, o policial repassava detalhes sobre as operações e orientava os crimes com base em informações recebidas de um superior, tratado como “chefe” e conhecido pelos bandidos.
Em uma das mensagens, foram ações antecipadas do Barricada Zero, programa de retirada de barricadas de comunidades que só seria anunciado oficialmente pelo governo fluminense cinco dias depois. O alerta aos criminosos descrevia com precisão como seriam as operações e o maquinário empresário.
Fazenda de Lesões
Durante mais uma fase da Operação Contenção, realizada neste mês no Complexo do Lins, policiais civis localizaram uma estrutura clandestina de mineração de criptomoedas operando em fundos de um mercado. O espaço abrigava coleções de computadores utilizados para validar transações de bitcoin e outras moedas digitais. Segundo o pesquisador, todos os equipamentos estavam ligados a uma rede improvisada de energia, reduzindo custos de uma atividade conhecida pelo elevado consumo elétrico.
A descoberta ocorreu durante uma intervenção externa contra membros do Comando Vermelho investigados por tráfico de drogas, roubos de veículos, assaltos a pedestres, ataques a instituições bancárias e vigilância armada dos acessos à comunidade. A polícia afirma que o grupo monitorava em tempo real deslocamentos de viaturas, blindados e aeronaves e utilizava canais restritos de comunicação para transmitir ordens operacionais e coordenar ações criminosas.
Transportes:
Central de desbloqueio de celulares
Em março do ano passado, uma operação no Morro do Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa, encontrou uma central clandestina de desbloqueio de celulares na favela, dominada pelo Comando Vermelho. No endereço foram encontrados 200 aparelhos adquiridos e furtados. A central funcionava em um cômodo escondido atrás de um bar, um local discreto utilizado para esconder a atividade criminosa. A polícia foi inicialmente até o endereço para apreender drogas, no entanto, acabou esbarrando na central de desbloqueio, que era utilizada para modificar os IMEIs (número único de cada aparelho) e revender os celulares roubados.
Além disso, programas automatizados permitiram que robôs testassem inúmeras senhas codificadas até conseguirem destruir os celulares. Em muitos casos, no momento do roubo, as vítimas foram coagidas a fornecer senhas ou retirar bloqueios de segurança, facilitando a ação criminosa.
Ataques a provedores de internet até no interior
As investigações sobre a exploração clandestina de serviços de internet mostram outra frente econômica cada vez mais relevante para organizações criminosas como o CV. Levantamento do GLOBO no início deste mês revelou que facções e milícias já atuam no mercado em pelo menos 37 dos 92 municípios fluminenses, alcançando cerca de 40% do território estadual. A prática, que surgiu em áreas dominadas por milicianos, teria sido posteriormente reproduzida em maior escala pelo Comando Vermelho.
Empresas que se recusam a pagar taxas ou perdem espaço para operadores ligados ao crime passaram a ser alvo de represálias. Somente nos primeiros quatro meses deste ano foram registrados incêndios contra veículos, escritórios e instalações de empresas de internet em Cachoeiras de Macacu, Japeri, Paracambi e Maricá.
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