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Quase 70 mil latinos já solicitaram visto para viver no Rio, diz pesquisa

Em 25 anos, mais de 22 mil argentinos recomeçaram suas vidas no estado, seguidos por colombianos e venezuelanos

Agência O Globo - 01/05/2026
Quase 70 mil latinos já solicitaram visto para viver no Rio, diz pesquisa
- Foto: Reprodução / Agência Brasil

No calçadão que liga Leme e Copacabana, o sorriso da adolescente Salma Isabel Herrera, de 14 anos, chamava atenção à distância, assim como a bandeira tremulante da Colômbia, às vésperas do show da cantora Shakira. Ela acompanhava a mãe, Patrícia Herrera, de 45 anos, durante as vendas de arepas e outros quitutes colombianos em meio ao vaivém da orla.

Show de Shakira terá segurança reforçada, semelhante à do réveillon

A jovem demonstra entusiasmo: agora vive em um lugar mais ameno do que sua terra natal, a caribenha Cartagena das Índias, já está matriculada em um curso de português para, no próximo ano, tentar uma vaga em um colégio da cidade, e a mãe conquistou mais autonomia do que quando trabalhava em restaurantes no país vizinho. Ela e a família chegaram ao Rio há um mês e desejam permanecer definitivamente.

— Meu irmão mora aqui há seis anos. Agora viemos nós: ele com a namorada e nós duas, numa casa de um quarto no Tabajaras. Viemos pelas oportunidades e pela paisagem — relata Salma, com eloquência de adulta.

Centralidade simbólica

Segundo levantamento realizado pelo GLOBO junto ao Banco Interativo do Observatório das Migrações da Unicamp, com base em dados da Polícia Federal, quase 70 mil latino-americanos solicitaram visto de residência para trabalhar no Estado do Rio nos últimos 25 anos (de 2000 a 2025). A maioria é de argentinos (22.131), seguidos por colombianos (10.468) e venezuelanos (8.198).

— Os registros oficiais mostram apenas a parte visível do fenômeno migratório. A presença latino-americana no estado tende a ser maior do que os números formais indicam. Eles registram quem entrou no sistema, não necessariamente todos que já chegaram ao território — explica Vitor de Pieri, professor do Departamento de Geografia Humana da Uerj.

As possibilidades de entrada no país sem passar pelo controle migratório também são consideradas, além das ondas de êxodo, como as de venezuelanos e argentinos.

— Na prática, existe um fenômeno conhecido como sub-registro, que envolve migrantes em processo de regularização, pessoas com permanência temporária, trabalhadores inseridos na informalidade e indivíduos que, por diferentes razões, ainda não acessaram os mecanismos institucionais de documentação — destaca o pesquisador.

O Rio ocupa uma posição particular dentro da dinâmica migratória brasileira, principalmente pela centralidade econômica, simbólica e urbana. Por isso, atrai muitos imigrantes em busca de oportunidades. É o caso da peruana Ruth Anani, de 28 anos, que chegou à cidade aos 17, sozinha, após deixar a vida em uma comunidade rural de seu país. No Rio, trabalha como ambulante perto do Largo da Carioca, no Centro, e construiu uma rede de amizades formada por argentinas, chilenas e brasileiras.

— Saímos pela Lapa, pelo Centro — conta ela, que deseja curtir o show de Shakira e planeja retornar definitivamente ao Peru em sete meses.

Mais uma atração

Ao lado de sua banca, que vende camisas do Brasil, bonés e chapéus, está a equatoriana Miriam Patricia, de 26 anos, grávida de seis meses. Ela se estrutura cada vez mais para seguir sua vida no Rio com o marido: estuda técnico em Enfermagem e frequenta cultos da igreja evangélica Divino Mestre da Galileia, também no Centro, frequentada principalmente por equatorianos.