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Após desmontar esquema bilionário de propinas no Porto do Rio, Receita vai recrutar fiscais de todo país para trabalhar no local

Prioridade será substituir servidores afastados por suspeita de corrupção

Agência O Globo - 30/04/2026
Após desmontar esquema bilionário de propinas no Porto do Rio, Receita vai recrutar fiscais de todo país para trabalhar no local
Receita Federal - Foto: Reprodução / internet

A Receita Federal vai recrutar servidores de todo o país para A prioridade é recompor os quadros do Despacho Aduaneiro, onde são liberadas as mercadorias pela Receita, após análise das notas fiscais e o cálculo do imposto que deve ser pago. A informação é do corregedor da Receita, Guilherme Bibiani Neto. Ele explicou que, dos 25 afastados, 13 trabalharam no setor aduaneiro, o que equivale a 65% dos servidores designados para o serviço.

Análise:

Couto quer criar regra

— Os agentes afastados responderão ao Processo Administrativo Disciplinar (PAD), em que terão direito ao contraditório e à ampla defesa. Comprovada a responsabilidade, serão demitidos. Por lei, o limite para tomar uma decisão é de cinco anos. Mas na Receita Federal esses processos duram em média um ano. Pode haver punições também na esfera penal, por improbidade administrativa — explicou o corregedor.

No caso das empresas, o próximo passo é aprofundar a análise de cerca de 17 mil Declarações de Importação (DIs) suspeitas de terem sido fraudadas desde 2021. A estimativa é de que tenham sido sonegadas pelo menos R$ 500 milhões.

— Os valores que sobrarem de serem recolhidos serão cobrados com multa, variável conforme cada caso. Além disso, as empresas podem receber outra multa, que pode chegar a 20% do faturamento bruto, com base na Lei 12.846/2013, que pune instituições envolvidas na corrupção de agentes públicos — explicou Bibiani.

Sobre o esquema

O GLOBO também apurou com fontes da Receita como funcionava o esquema. Despachantes contratados pelos importadores abordavam os fiscais. Ao calcular o valor do Imposto de Importação, que varia conforme o produto, os servidores suspeitos atribuíram uma alíquota menor do que a devida. A propina variava de R$ 5 mil a R$ 70 mil.

Outra estratégia envolve a categorização das mercadorias. Os itens que deveriam ser classificados como de importação em definitivo eram declarados como temporários, ou seja, voltariam ao país de origem — e, por isso, teriam tributação menor.

O esquema foi descoberto pela Receita durante processo de auditoria nas guias de importação. A identificação de um erro grosseiro do servidor na hora de estimar o tributo a instalar foi feita com que as investigações fossem aprofundadas. Esse caminho também permitiu observar que as fraudes envolviam os mesmos despachantes.

Confira o balanço final da operação

Ao cumprir mandatos de busca e apreensão, os agentes recuperaram US$ 358 mil (cerca de R$ 1,78 milhão, na cotação atual) em Niterói. Em Copacabana, na Zona Sul do Rio, foram encontrados R$ 233.750. Já na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, uma outra mantinha investigada cerca de US$ 166 mil (R$ 830 mil) escondidos num piano, além de R$ 1.248.800. O total, de acordo com a PF, passa dos R$ 4 milhões. Na lista, há ainda nove caixas de vinho francês Chateau Odilon — cada garrafa do tinto custa, em média, R$ 700.

Dinheiro em espécie: R$ 1.517.750; US$ 467.750 (cerca de R$ 2,35 milhões, na cotação atual); € 50.265 (o equivalente a R$ 294 mil); £ 140 (R$ 947, aproximadamente);

Celulares: 54;

Veículos: 17;

Relógios de luxo: 11;

Passaportes: 17;

Armas: um revólver;

Munições: 10 (calibre .38).

Com o apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Federal (MPF), e da Corregedoria da Receita Federal, a Operação Mare Liberum — mar livre, em tradução livre — mirou uma associação entre servidores públicos da Receita lotados na alfandega do Porto, empresas importadoras e despachantes aduaneiros. A quadrilha atuava, principalmente, para facilitar a entrada de produtos sem o devido pagamento de impostos. Os contêineres de mercadorias eram liberados sem passar pelo crivo da fiscalização, mediante propina.

Os investigados poderão responder por corrupção, associação criminosa, contrabando, descaminho e lavagem de dinheiro.