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Painel de Millôr Fernandes em muro demolido na Praça Sarah Kubitschek, em Copacabana, ganhará réplica em escola no mesmo bairro

Demolição de estrutura com obra do escritor e desenhista atende a pedido antigo de moradores e abre caminho para revitalização

Agência O Globo - 28/04/2026
Painel de Millôr Fernandes em muro demolido na Praça Sarah Kubitschek, em Copacabana, ganhará réplica em escola no mesmo bairro
Millôr Fernandes

Um muro, mas também a base para uma obra de arte: um painel de Millôr Fernandes (1923–2012). Esse impasse esteve no centro de uma disputa que se arrastava há anos e agora chega ao fim em Copacabana. Conforme antecipou o blog de Ancelmo Gois, do GLOBO, teve início na manhã desta segunda-feira a demolição do paredão que protege a Praça Sarah Kubitschek, impedindo que o espaço seja avistado por quem passa pela via principal do bairro. O mural ganhará réplica no muro da Escola Municipal Cócio Barcellos, também no bairro, a cerca de cinco quarteirões do painel original.

Shakira em Copacabana:

Na Barra da Tijuca:

A ação atende a um antigo pedido de moradores, afirma Tony Teixeira, presidente da Associação de Moradores de Copacabana (Amacopa):

— Estamos lutando há mais de 13 anos por isso. É a devolução da praça para os moradores. A praça não pode ter muro, é lugar de encontro, ainda mais em um bairro altamente adensado.

Segundo ele, a presença do muro contribuiu para a manipulação do espaço ao longo dos anos e levou frequentadores:

— Era um lugar ocupado por criminosos e usuários de drogas. Além disso, serve como um mictório público, sempre com odor forte de urina e fezes.

A obra, realizada pela Secretaria Municipal de Conservação, após articulação do vereador Flávio Valle (PSD) — que defendeu a proposta desde que foi subprefeito da Zona Sul —, prevê uma requalificação completa do local.

Nova praça

Estão previstas a recuperação de pisos, novos canteiros, instalação de rampas de acessibilidade e reforma de escadas, além da revitalização das mesas de xadrez e dos bancos sob as árvores.

O projeto inclui ainda novos brinquedos, parede de escalada e piso emborrachado para o público infantil. A ideia é devolver a praça como área de convivência, cultura e lazer para o bairro.

— Com a remoção do muro, finalmente teremos um espaço aberto e mais seguro para todos, refletindo o desejo da própria vizinhança — diz o vereador.

Tragédia antes da festa:

O muro polêmico chegou a ser alvo de um abaixo-assinado neste ano, com 472 assinaturas de moradores e comerciantes. O pedido por sua derrubada foi encaminhado ao município por meio de ofício e coletado pela administração pública em março. À época, o superintendente estadual da Zona Sul e do Centro, Marcelo Maywald, esteve no local e disse que a abertura da área poderia permitir a implantação de uma base da Polícia Militar, como medida para melhorar a segurança no espaço.

A expectativa, agora, é que os casos de violência no ambiente também diminuam. Em fevereiro, um bando usou uma van para roubar uma moto no local e, antes de ir embora, ainda assaltou um turista que estava com suas malas na portaria de um prédio.

A Praça Sarah Kubitschek fica na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, entre as ruas Djalma Ulrich e Almirante Gonçalves.

Sigiloso:

A revitalização do espaço é uma demanda antiga. Ainda em 2009, moradores e comerciantes se reuniram com o vereador Carlo Caiado (PSD), atual presidente da Câmara do Rio, para apontar a insegurança gerada pelo muro. Segundo eles, a construção deixou a praça “enclausurada”, com pouca iluminação e visibilidade para a rua. Em 2015, Caiado liderou um abaixo-assinado com mais de três mil assinaturas, que embasou sucessivas reuniões com a Fundação Parques e Jardins. Entre 2016 e 2019, o vereador encaminhou funcionários da Prefeitura e do Ministério Público relatando o estado de abandono e solicitando intervenções.

— A realização dessa obra é a vitória de uma luta histórica. Conseguimos, após uma longa batalha junto a diversos órgãos públicos, transformar a reivindicação popular em política eficaz para devolver a segurança ao bairro, respeitando sua memória — diz Caiado.