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Farsa exposta: imagens feitas por câmera em farda mostram que PMs monitoraram e mataram empresário na Pavuna; entenda

Ministério Público do Rio (MPRJ) diz que investiga se há outros PMs — até mesmo de uma patente superior — envolvidos na emboscada

Agência O Globo - 28/04/2026
Farsa exposta: imagens feitas por câmera em farda mostram que PMs monitoraram e mataram empresário na Pavuna; entenda
Pavuna

Imagens de câmeras corporais desmentem a versão de dois policiais militares envolvidos na morte do empresário Daniel Patrício Santos de Oliveira, de 29 anos, no último dia 22 na Pavuna, na Zona Norte do Rio. Não houve blitz, ordem de parada nem ocorrência da mesma vítima, como contaram os agentes em seus depoimentos.

Emboscada contra empresário na Pavuna:

Tragédia antes da festa:

O Ministério Público do Rio (MPRJ) informou nesta segunda-feira que investiga se, além do cabo e do sargento presos em flagrante, há outros PMs — até mesmo de uma patente superior — envolvidos na emboscada. Os vídeos, obtidos pelo Fantástico, da TV Globo, mostram ainda que um dos suspeitos do ataque recebeu, pelo telefone, informações sobre a entrega do empresário pouco antes dos disparos.

"Correto, comandante. Já apareceu aqui o dito cujo", diz um PM, depois de receber o aviso do informante de que o carro estava indo na direção deles. De acordo com as gravações feitas pela câmera na farda de um dos suspeitos, os agentes acompanhavam Daniel desde 1h53 da madrugada.

Os mais de 20 tiros em direção ao carro dirigido pela vítima foram feitos às 3h06. Nas imagens, um policial avisa: “Tá descendo o Russo agora!”. Em seguida, um dos agentes avança a pé e dispara contra o caminhonete. Daniel foi atingido na cabeça e morreu no local.

Após os disparos, moradores se aproximaram e perguntaram aos agentes o que havia acontecido. “Quando a conclusão foi feita a abordagem, ele acelerou contra a execução”, alegou um dos PMs. Apesar das duas prisões, a polícia diz que ainda não sabe a motivação da morte nem mesmo quem passa detalhes da trajetória da vítima.

— O que descobriu até agora é que não se trata de uma abordagem, mas de um monitoramento do carro e de uma pessoa. É preciso agora entender o porquê disso. Existe a possibilidade de essa pessoa (que está passando informações sobre os passos de Daniel) ser um policial. Observamos expressões como “chefe” e “comandante”, o que pode ser um indicativo. Ainda se busca a identidade daquela que chamamos de informante. Nenhuma hipótese está descartada, assim como nenhuma possibilidade de eventual responsabilização seja de outros policiais, de oficiais superiores ou mesmo de pessoas civis — disse o promotor Fábio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada de Segurança Pública (Gaesp).

Carros elétricos e híbridos entram na mira das quadrilhas:

O sargento Rafael Assunção Marinho e o cabo Rodrigo da Silva Alves foram presos em flagrante pela Corregedoria da PM por homicídio doloso (quando há intenção de matar), logo após o crime quando as imagens gravadas pela câmera instalada na farda de um deles foram vistas. Os dois passaram por audiência de custódia, na qual um juiz confirmou a validade do flagrante e os presos mantidos.

Além do MPRJ e da Corregedoria da PM, o caso é investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital. Três pessoas que estavam no carro de Daniel quando os tiros foram disparados não se feriram. Eles deverão prestar depoimento nos próximos dias a promotores.

Diante do resultado ainda que parcial da investigação sobre a emboscada na Pavuna, o governo informou que o estado vai conceder pensão à família de Daniel sem a necessidade de processo judicial assim como assistência psicológica a seus parentes. Dono de uma loja de eletrônicos na Pavuna, Daniel era casado e tinha uma filha de 4 anos.

A defesa de Rafael Assunção Marinho, de 43 anos, disse que a atuação dos PMs se deu em contexto de alta tensão e risco e que a análise dos fatos deve considerar o cenário enfrentado no momento da ocorrência. Em nota, acrescentou que “é importante destacar que não há elementos que indiquem, neste momento, qualquer intenção deliberada por parte dos policiais envolvidos em causar o resultado ocorrido”. O GLOBO não conseguiu contato com o advogado de Rodrigo da Silva Alves.

O sargento Assunção foi nomeado no ano passado para integrar uma comissão responsável por fiscalizar contratos da Polícia Militar com uma das empresas que fornecem sistemas que incluem comissões operacionais operacionais. O acordo firmado abrange desde o fornecimento de equipamentos até o armazenamento de imagens em nuvem e a gestão de evidências digitais. O nome do policial aparece na resolução da Secretaria estadual de Polícia Militar, publicado no Diário Oficial em agosto de 2025, como membro da comissão responsável por fiscalizar a execução do contrato número 111/2021. O acordo foi firmado entre a corporação e a empresa L8 & Group S/A.

Procurada, a Polícia Militar informou que o militar exerce uma atividade meramente burocrática e relativa apenas ao contrato do 41º BPM (Irajá).Já o cabo Rodrigo da Silva Alves é denunciado em um processo no âmbito da Lei Maria da Penha, em tramitação no Tribunal de Justiça do Rio. De acordo com a ação, a vítima pediu medidas protetivas em um caso que envolve acusações de lesão corporal grave.

A PM informou que há hoje 13.937 câmeras corporais e que existe uma licitação em andamento para a compra de mais 2.063 equipamentos. Há ainda monitoramento em 900 veículos da corporação.

Abaixo, algumas perguntas que ainda precisam ser respondidas pela investigação:

Qual a motivação do crime, ainda sob investigação do Ministério Público e da Delegacia de Homicídios?

Quem determinou ou tinha conhecimento da ação dentro do 41º BPM?

Por que Daniel passou a ser monitorado?

Quem é o olheiro que repassava a localização em tempo real e qual sua ligação com os policiais?

Por que não houve ordem de parada, blitz ou tentativa de abordagem?

Houve participação de outros policiais na ação ou na construção da versão posterior?

As câmeras corporais permaneceram ligadas ao tempo todo?

O sargento e o cabo que estão presos, acusados ​​de homicídio doloso, já foram investigados pela própria corporação por outros crimes ou desvios de conduta?

Quantos policiais, de fato, participaram da preparação da emboscada? Há mais investigados?