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Policial preso por morte de empresário na Pavuna integrava comissão de fiscalização de câmeras corporais

Gravações revelam perseguição prolongada, disparos sem abordagem e combinação de versões entre policiais; investigação apura motivação da execução.

Agência O Globo - 27/04/2026
Policial preso por morte de empresário na Pavuna integrava comissão de fiscalização de câmeras corporais
Daniel Patrício Oliveira

Um dos policiais militares presos pela morte do empresário Daniel Patrício Oliveira, de 29 anos, na Pavuna, Zona Norte do Rio, integrava, desde o ano passado, uma comissão encarregada de fiscalizar contratos da Polícia Militar com empresas fornecedoras de sistemas de câmeras corporais. O contrato da PM com a empresa envolve desde o fornecimento dos equipamentos até o armazenamento das imagens em nuvem e a gestão das evidências digitais. A informação vem à tona no momento em que gravações dessas câmeras desmontaram a versão apresentada pelos agentes sobre a abordagem que terminou na morte do empresário, atingido na cabeça na última quarta-feira, dia 22.

Quem são os policiais

O nome do 3º sargento Rafael Assunção Marinho, de 43 anos, consta em resolução da Secretaria de Estado de Polícia Militar, publicada no Diário Oficial em agosto de 2025, como membro de uma comissão responsável por fiscalizar a execução do contrato nº 111/2021, firmado entre a corporação e a empresa L8 & Group S/A.

Embora o documento não detalhe o objeto específico do contrato nº 111/2021, a L8 & Group S/A, integrante do consórcio OX21, mantém outros contratos com a Polícia Militar para soluções tecnológicas de monitoramento. Em uma dessas contratações, também de 2025, a empresa foi contratada para prestar “serviços contínuos e especializados” de captação, armazenamento, transmissão, gestão e custódia de evidências digitais, incluindo o fornecimento de câmeras operacionais portáteis.

Já o cabo Rodrigo da Silva Alves é citado em processo que tramita no Tribunal de Justiça do Rio no âmbito da Lei Maria da Penha. Segundo documento do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Regional da Leopoldina, a vítima solicitou medidas protetivas em caso que envolve acusações de lesão corporal (formas grave e gravíssima), violência doméstica e possível crime ou contravenção contra criança e adolescente. O registro de ocorrência foi feito na 27ª Delegacia Policial.

Imagens contradizem versão de legítima defesa

Vídeos divulgados pelo Fantástico, da TV Globo, mostram que o 3º sargento Rafael Assunção Marinho e o cabo Rodrigo da Silva Alves, ambos do 41º BPM, monitoraram Daniel por horas antes da abordagem.

De acordo com a investigação da Corregedoria da Polícia Militar, a vítima passou a ser acompanhada desde 1h53 da madrugada, com o auxílio de um olheiro que repassava informações em tempo real. Por volta das 3h, já com a localização atualizada, os agentes se posicionaram na via por onde o empresário passaria. Nas imagens, um policial avisa: “Tá descendo o Russo agora!”. Em seguida, um dos agentes avança a pé e dispara dezenas de tiros de fuzil contra a caminhonete. Daniel foi atingido na cabeça e morreu no local.

As imagens não mostram qualquer ordem de parada, bloqueio ou tentativa formal de abordagem, contradizendo o relato inicial dos policiais, que alegaram ter agido em legítima defesa após o motorista supostamente avançar com o carro contra a equipe.

Após os disparos, uma das gravações registra um dos agentes orientando o outro sobre o que deveria ser dito: “A gente fala que na tentativa de abordagem o elemento tentou jogar o carro contra a guarnição”.