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Roubo e furtos de carros elétricos e híbridos no Rio crescem quase 150% em 2026

O aumento estaria ligado a ostentação luxo durante os bailes funk do tráfico e que os veículos podem ser carregados nas próprias favelas a partir de ligações elétricas clandestinas

Agência O Globo - 27/04/2026
Roubo e furtos de carros elétricos e híbridos no Rio crescem quase 150% em 2026
- Foto: Reprodução / internet

Bairro Maria da Graça, na Zona Norte do Rio, por volta das 18h30 de 15 de março. Um advogado acompanhado da mãe, de 94 anos, e do filho, de 20, abriu a porta de um Omoda híbrido, avaliado em R$ 200 mil, comprado havia apenas 30 dias. Ele falou ao telefone quando um bandido armado desceu da garupa de uma moto e o rendeu. O assaltante pegou dinheiro e celulares das vítimas e, em seguida, fugiu com o carro. A ação, que durou pouco mais de um minuto, não foi um caso isolado. Números do Sindicato das Seguradoras do Rio de Janeiro (SindSeg-RJ) revelam uma onda crescente de roubos e furtos de veículos elétricos e híbridos no estado.

Onde o Rio é mais 'cool':

A menos de uma semana para show,

Segundo o sindicato, nos três primeiros meses de 2026, 366 carros do tipo foram roubados ou furtados no Rio. Significa que, em média, a cada dia, foram registradas quatro ocorrências. Nos primeiros 90 dias de 2025, tinham sido 150 registros. A comparação entre os dois períodos mostra um aumento de 144%.

A estatística do SindSeg-RJ é baseada em dados fornecidos pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), que, de acordo com o sindicato, obtém informações de uma base disponível nos Detrans de todos os estados sobre roubos e furtos de veículos.

Em 17 de abril, bandidos vindos do Complexo do Chapadão, na Zona Norte, usando um carro elétrico adquirido, foram perseguidos por policiais militares na Transolímpica, via expressa que liga o Recreio dos Bandeirantes a Deodoro. Na fuga, eles tentaram roubar um Fiat Toro e uma moto, na altura de Sulacap. Houve tiroteio, e um médico que estava no carro foi atingido por uma bala perdida. Dois suspeitos foram presos, e um terceiro confirmado. O veículo elétrico foi abandonado pelo trio.

Carregando na favela

Nenhum caso de crime ocorrido em Maria da Graça, o carro ainda não foi recuperado. A última posição passada por um rastreador indicou que o veículo foi transportado para o Complexo da Penha, na Zona Norte. O conjunto de comunidades tem territórios controlados pelo Comando Vermelho (CV) e serve como esconderijo para o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso.

— Na minha opinião, o que chamou a atenção dos bandidos foi o fato de o carro ser híbrido e de ser um modelo muito novo. Até hoje, minha mãe não esqueceu o que aconteceu. Ela chora muito — lamenta o advogado.

Policiais que investigam quadrilhas que roubam carros elétricos e híbridos têm opiniões semelhantes. Segundo eles, bandidos vêm roubando os veículos por dois motivos. O primeiro é rodar nas comunidades ostentando luxo durante os bailes funk do tráfico. A segunda é que os veículos podem ser carregados nas próprias favelas a partir de ligações elétricas clandestinas.

— Há funks que falam nesses carros, que acabam virando objeto de desejo desses criminosos. Servem para transporte e ostentação — explica um policial.

Impacto no seguro

No início de abril, na operação que apreendeu 48 toneladas de maconha na Nova Holanda, no Complexo da Maré, foram recuperados 26 veículos adquiridos. Vários deles eram elétricos.

Belga é:

Segundo Bernardo Câmara, vice-presidente do SindSeg-RJ, o aumento de registros envolvendo delitos com veículos elétricos e híbridos pode acabar afetando o custo final do seguro.

— Na verdade, o preço do seguro é resultado exatamente dos números e da frequência e severidade das ocorrências de roubos, furtos e de outras naturezas de sinistros. Se o roubo e o furto de uma categoria de veículo forem maiores, isso tende a levar as garantias a aumentar o preço do seguro para esse veículo, para essa região especificamente ou, eventualmente, até a subscreverem, que não é aceito nenhum risco — explicou Câmara.

Frota também aumentou

De acordo com o Detran-RJ, a frota de elétricos e híbridos vem aumentando no estado. Em março de 2025, havia 8.215 veículos elétricos em circulação. No mesmo mês deste ano, o número saltou para 14.898, uma alta de 81%. Os híbridos chegaram a 10.978 unidades circulando no estado em março do ano passado; No mesmo mês de 2026, já eram 18.692 em circulação, 70% a mais.

Somados, híbridos e elétricos têm 33.590 unidades em circulação, segundo o Detran-RJ. O quantitativo representa 0,4% da frota total de veículos do Rio de Janeiro, que tem 8.804.712 unidades e inclui motores movidos por combustíveis como álcool, GNV, gasolina e óleo diesel.

Alta no índice

Números do Instituto de Segurança Pública indicam que o roubo de veículos de todos os tipos subiu 18% no estado no acumulado de janeiro a março de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Mas municípios como São Gonçalo e Itaboraí tiveram um índice ainda maior. No primeiro, a estatística revela um aumento de 134% nos três primeiros meses deste ano, em relação ao mesmo período de 2025. No segundo, a subida foi de 120% na análise comparativa dos mesmos meses citados.

FOTOS:

Procurada, a Polícia Militar disse que uma corporação realiza o policiamento ostensivo em todo o estado por meio das unidades operacionais e que, neste ano, já efetuou a prisão de mais de 7 mil criminosos e apreendeu mais de mil adolescentes em todo o estado.

A PM disse ainda que a região de policiamento do município de São Gonçalo está dividida em duas áreas, sendo coberta pelo 1º BPM e o 7º BPM. Segundo o comando do 7º BPM (São Gonçalo), quanto ao aumento do roubo de veículos elétricos, a preferência por esse tipo de veículo se deve ao fato de o crime não precisar sair da comunidade para buscar postos de combustível para reabastecimento.

Veja onde:

A Polícia Civil disse que delegacias especializadas e distritais realizam continuamente a Operação Torniquete, que tem como objetivo reprimir roubos, furtos e recepções de cargas e de veículos — delitos que financiam as atividades das facções criminosas, disputas territoriais e ainda garantem pagamentos aos parentes de seus integrantes.

Desde setembro de 2024, segundo a corporação, já são mais de 900 presos, além de cargas e veículos recuperados, avaliados em mais de R$ 52 milhões. Segundo a polícia, a região de São Gonçalo é alvo de ações diárias contra a cadeia criminosa envolvida em roubos de veículos e de cargas.

Em fevereiro, agentes da 72ª DP (São Gonçalo), 60ª DP (Campos Elíseos), 66ª DP (Piabetá) e da PM prenderam na região um integrante do Comando Vermelho considerado braço direito de Antônio Ilário Ferreira, o Rabicó, chefe do Complexo do Salgueiro. Investigações demonstraram que ele tentou roubos de carros e de cargas nas rodovias que cortavam o município.