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‘Walking tours’ ganham adeptos entre turistas e moradores que buscam conhecer diferentes facetas do Rio

O conceito de passeio que nasceu na Alemanha, em 2004, e desembarcou no Brasil no começo da década passada só cresce em número de adeptos

Agência O Globo - 26/04/2026
‘Walking tours’ ganham adeptos entre turistas e moradores que buscam conhecer diferentes facetas do Rio
‘Walking tours’ ganham adeptos entre turistas e moradores que buscam conhecer diferentes facetas do Rio - Foto: Ilustração de IA

Imagine conhecer o Rio através de suas lendas urbanas, como as histórias de lugares assombrados que, a despeito de qualquer fantasia, revelam detalhes de particularidades e hábitos locais. Ou percorrer marcos da herança africana no país e pôr os pés onde floresceu a resistência negra e nasceu o samba. E que tal visitar cenários de clássicos da literatura brasileira ou sentir a aura das ruas por onde circularam personalidades icônicas? Pois é assim que muito turista — e morador também — tem decidido desbravar a cidade, de encantos mil para além dos cartões-postais famosos. E detalhe: todos esses trajetos são feitos a pé, num dos variados roteiros de passeio a pé que apresentam ao mundo outras facetas cariocas.

ambos rotativos

Vitrais da Candelária

O conceito de passeio que nasceu na Alemanha, em 2004, e desembarcou no Brasil no começo da década passada só cresce em número de adeptos. Os mais procurados costumam ser os que exploram a arquitetura histórica e os monumentos. Organizado pelo Be Free Walking Tour, só o roteiro que passa pelo Theatro Municipal e pelo Convento de Santo Antônio, vai à Escadaria Selarón, faz uma parada na Confeitaria Colombo e finaliza na Praça Quinze, no Centro do Rio, atraiu 15.700 turistas no ano passado.

— A pé, conhecemos melhor a cidade, por estarmos no nível da calçada, analisando tudo do ponto de vista do observador — avalia a funcionária pública Jacqueline Nascimento, de 44 anos, moradora do Mato Grosso do Sul que participou de um desses passeios no último dia 14.

Da feijoada ao nhoque

Há opções de itinerários para todos os gostos, idades e saberes a serem adquiridos. Os da Be Free que exploram o bairro de Santa Teresa e o Circuito da Herança Africana, na região da Gamboa, reuniram, juntos, quase 3.500 pessoas em 2025. Este último é organizado também pelo guia Cosme Felippsen e tem a próxima edição, com contribuição voluntária, marcada para 9 de maio. O caminho não poderia ser mais simbólico: começa no projeto Tramas do Porto, na Rua Sacadura Cabral, às 10h30, inclui o Largo de São Francisco da Prainha, os Jardins Suspensos do Valongo e o Cais do Valongo, e termina no começo da tarde ao som do samba e ao sabor da feijoada servida no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab).

O guia é criador ainda do Rolé dos Favelados — passeios guiados por comunidades como Rocinha e Salgueiro. Hoje, a andança é pelo Morro da Providência, considerada a favela mais antiga do Brasil e onde Cosme nasceu. Entre as atrações, há uma visita ao único terreiro de candomblé ativo da Pequena África e ao Bar da Jura, no alto do morro, com direito a degustar o famoso nhoque preparado pela dona do estabelecimento.

— Uma das coisas que os turistas mais gostam é conhecer a cidade de maneira livre. Querem ir aos pontos turísticos e, ao mesmo tempo, ter uma orientação para entender a importância histórica, geográfica e ecológica desse lugar. É isso que os passeios a pé agregam: uma atração turística nos espaços públicos, um aspecto vital para se conhecer uma cidade como ela é — afirma Alexandre Oliveira, country manager da Civitatis Brasil, plataforma onde é possível reservar passeios como os do Be Free Walking Tour.

Belga é:

Tanto agências quanto guias independentes oferecem os serviços, alguns deles divididos conforme o idioma — normalmente português, inglês e espanhol. E parte das rotas é gratuita, com contribuição livre dos visitantes.

Entre os passeios organizados pela guia de turismo e historiadora Amanda Carvalho, um dos mais curiosos é o das Lendas Urbanas, no qual ela viaja por histórias que povoam o imaginário do carioca. O passeio vai a locais como o Arco do Teles, na Praça Quinze, que seria assombrado pelo fantasma de Bárbara dos Prazeres, uma bela portuguesa que, em velhice, bebe sangue de crianças como feitiçaria para recuperar a beleza e juventude, segundo a lenda. O próximo passeio está agendado para o domingo que vem, com reservas pelo Sympla.

Malandragem

A guia faz ainda outros roteiros temáticos: o das Igrejas Históricas, como o Mosteiro de São Bento, tem próxima saída no dia 9 de maio (a R$ 44, já incluídas as taxas); e o tour literário Machado de Assis no Rio, inspirado no romance “Quincas Borba”, está marcado para 16 de maio (a R$ 60,50). Os dois estão com inscrições abertas pelo Sympla.

FOTOS:

Já a professora Samantha Lobo, conhecida por organizar passeios guiados pelos cemitérios da cidade, resolveu revisitar a trajetória de João Francisco dos Santos, o Madame Satã, no ano em que sua morte completou meio século. Uma caminhada, programada para 9 de maio (R$ 40), parte da Praça Tiradentes e visita pontos da Lapa, onde os personagens viveram e circularam, como as ruas da Lapa, Joaquim Silva e das Marrecas. A ideia é resgatar episódios marcantes de sua história entre a malandragem, os palcos e os confrontos com a polícia, contextualizando sua importância na formação da identidade cultural da cidade.

— Madame Satã é uma daquelas personagens que mais parecem lendas do que seres reais — afirma Samantha sobre a figura emprestada da boemia e do movimento LGBTQIAP+ carioca, morta em 1976.