RJ em Foco
Após estupro coletivo em Copacabana, especialista explica efeitos do trauma no cérebro
Quase metade das vítimas pode desenvolver transtorno de estresse pós-traumático; apoio social e atendimento adequado são fatores-chave para a recuperação
O estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, na Zona Sul do Rio, reacendeu o debate sobre as consequências psicológicas da violência sexual. Os impactos podem se estender por anos e, em muitos casos, evoluir para transtorno de estresse pós-traumático (Tept). Psicóloga com doutorado em Saúde Mental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do artigo “Violência sexual e neurociências — interfaces acerca do enfrentamento do trauma” junto com outras três especialistas, Raquel Gonçalves pesquisa o tema há duas décadas. Segundo ela, quase metade das pessoas que passam por violência sexual desenvolve o transtorno. Ao GLOBO, Raquel explica como o trauma afeta o cérebro, quais são os principais sintomas e de que forma o apoio social e o atendimento às vítimas influenciam na recuperação.
Adolescente apreendido
Mês da Mulher:
Do ponto de vista psicológico, o que caracteriza um evento como traumático?
O trauma é um evento que tem que envolver morte ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual. A principal sequela é o desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático. Diferentemente dos outros transtornos, não tem uma causa única.
Qual é o percentual de vítimas de estupro que desenvolvem esse tipo de transtorno?
O estupro é um dos eventos que geram a maior chance de desenvolvimento do transtorno. Muito maior do que se você passar por um desastre natural ou um assalto. Sem tratamento, você tem 44% de chance de desenvolver Tept.
Quem pode desenvolver o transtorno? Apenas quem sofreu a agressão diretamente?
Você pode desenvolver ao sofrer o evento traumático diretamente, como no caso de um estupro. Também acontece ao testemunhar uma situação, como ver alguém ser atropelado. Outra possibilidade é ficar sabendo que um ente querido passou por esse tipo de experiência; uma mãe cuja filha foi estuprada, por exemplo. Por fim, há a categoria de profissionais que são expostos a detalhes aversivos de eventos traumáticos. É o caso, por exemplo, de policiais que trabalham com abuso sexual infantil e lidam com esse tipo de relato.
Existe um tempo de observação necessário para que se feche um diagnóstico de Tept?
Após o trauma, o diagnóstico só pode ser feito se os sintomas persistirem por pelo menos um mês. É esperado que a pessoa tenha pesadelos, fique sobressaltada ou mais vigilante, mas isso não significa necessariamente que adoeceu.
Quais são os sintomas que indicam que o trauma se tornou uma patologia?
São 20 sintomas, divididos em quatro categorias. Primeiro, as memórias intrusivas, que vêm como pesadelos, pensamentos invasivos ou flash-backs com detalhes sensoriais — a pessoa sente no corpo a dor do estupro. Segundo, a evitação: a vítima evita lugares, pessoas ou cheiros, como bebida alcoólica, que lembrem o evento, o que a leva ao isolamento. Terceiro, as alterações de humor e cognição, como culpa infundada, incapacidade de sentir alegria e lacunas na memória. Por fim, a vítima fica sobressaltada com qualquer estímulo que apareça, dorme mal, fica irritável, pode ter surtos de raiva ou comportamentos autodestrutivos, como beber ou fazer uso de substâncias para anestesiar a dor.
O que acontece fisicamente no cérebro de uma pessoa traumatizada?
O trauma provoca mudanças. A amígdala funciona como um detector de perigo e fica hiperativada. O hipocampo, responsável pela memória, pode sofrer danos devido à grande liberação de hormônios do estresse. Em algumas pessoas, diminui de volume. Isso faz com que a memória do trauma não seja armazenada adequadamente. Já o córtex pré-frontal, que regula as emoções, fica menos ativo, diminuindo a capacidade de “avisar” ao cérebro que o perigo já passou. Quem desenvolve Tept passa a interpretar situações neutras como perigosas. Fica em modo permanente de alerta.
A culpa pode ser determinante no agravamento do quadro?
É um dos fatores de risco para desenvolver Tept. E, até pela estrutura social em que vivemos, é muito comum a culpabilização da vítima. Além disso, quando a pessoa tem um histórico de algum transtorno mental, isso aumenta as chances de você “acumular” transtornos.
Diante de uma violência tão brutal, qual é o papel do apoio social e psicológico imediato?
Dependendo de como isso é conduzido, pode funcionar como um amortecedor de estresse. Uma coisa é você cair em um chão de concreto, outra é cair em um acolchoado. Você ainda pode se machucar, mas vai estar amortecido. O principal fator de proteção é o apoio social. Quando a pessoa passa por essa situação e tem apoio — chega em casa, conta para a mãe, que a abraça e incentiva a ir à delegacia denunciar, não invalida ou julga a atitude — amortece muito o impacto. O apoio psicológico também vai funcionar como um elemento de proteção.
Um atendimento inadequado pode ser considerado um “segundo trauma”?
Não é qualquer atendimento que vai ajudá-la. Se, por exemplo, ela é atendida num pronto-socorro e a pessoa fica pedindo para ela recontar aquilo, isso pode piorar e aumentar as chances de ela desenvolver Tept, em vez de proteger. Por isso, tem que ser uma terapia especializada para o tratamento de trauma.
Algumas vítimas relatam ficar paralisadas durante o abuso sexual. Por que isso acontece?
A imobilidade tônica é uma reação ao trauma que pode acontecer no momento da violência. Trata-se de uma paralisia temporária do corpo. A pessoa continua consciente, entende tudo o que está acontecendo, mas não consegue se mexer. Isso não é voluntário. Quando acontece, muitas se sentem culpadas, pensando que deveriam ter reagido. Além disso, explica por que algumas não apresentam marcas de luta.
Existe esperança de recuperação total do Tept?
Há estudos que mostram cerca de 80% de chance quando o tratamento é feito. Esses sintomas podem remitir, e a pessoa consegue levar uma vida normal. O trauma continua sendo um evento muito triste, mas ele não domina mais o presente como se estivesse acontecendo de novo. O trauma não vai ser apagado, mas é possível deixá-lo no passado.
Quais são as principais técnicas para aumentar as chances de recuperação?
Um elemento muito importante é o vínculo terapêutico. A pessoa precisa ser respeitada no tempo dela, porque ela não chega querendo falar do trauma. Aos poucos, com confiança, começa a baixar as defesas. Depois, ela precisa adquirir estratégias de regulação emocional para acalmar o corpo. Com isso, chega à fase principal, que é a exposição imaginária. Nessa técnica, a pessoa reconta o trauma repetidas vezes, de forma protegida pelo terapeuta, para ativar a memória e integrá-la à linha do tempo da vida. Assim, ela deixa de invadir de forma involuntária. O trauma continua sendo uma experiência triste, mas passa a ficar no passado.
Atendimento a mulheres vítimas de violência
Central de Atendimento à Mulher
Ligue 180, de segunda a segunda, 24 horas por dia. São passadas orientações sobre leis e direitos das mulheres, assim como informações sobre rede de atendimento. Também é feito o registro e o encaminhamento de denúncias.
Centros de atendimento
A Secretaria estadual da Mulher mapeou a rede de proteção e atendimento em 67 endereços no estado, como os Centros Integrados de Atendimento à Mulher (CIAMs). A lista com todos os locais e telefones está aqui.
Aplicativo Rede Mulher
Disponível para Android e iOS, o aplicativo permite a solicitação de ajuda à Polícia Militar. No app, também é possível cadastrar uma rede de proteção de amigos e parentes, assim como cadastrar a solicitação de medida protetiva. Pelo Rede Mulher, a vítima pode ainda acessar o serviço de registros de ocorrência.
Patrulha Maria da Penha
O programa conta com 50 equipes nos BPMs. O trabalho inclui visitas regulares às residências de vítimas com medidas protetivas, assim como o monitoramento para garantir o cumprimento das determinações judiciais.
Maria da Penha virtual
O web app gera automaticamente uma petição para medida protetiva de urgência, que é distribuída na mesma hora ao juizado competente, sendo passível de consulta pela vítima. É acessado pelo .
Casas da Mulher Carioca
Ligadas à Secretaria de Política para Mulheres e Cuidados do município, as unidades oferecem atendimento psicossocial, orientação jurídica e assistência social na capital. Também há orientação sobre encaminhamentos para atendimento psicoterapêutico e para abrigo sigiloso para mulheres sob risco de morte.
As Casas da Mulher estão em Madureira (Rua Júlio Fragoso 47), Realengo (Rua Limites 1.260), Padre Miguel (Rua Marechal Falcão da Frota s/n), Campo Grande (Rua Mario Barbosa 137) e Coelho Neto (Avenida Pastor Martin Luther King Jr 10.055), com funcionamento de segunda a sexta, das 8h às 20h. Dúvidas podem ser sanadas pelo WhatsApp da pasta: (21)96659-3810.
Núcleo Especial de Direito da Mulher e de Vítimas da Violência (NUDEM)
Órgão da Defensoria Pública do Rio especializado na promoção e defesa dos direitos das mulheres. Funciona de segunda a sexta, das 10h às 16h, na Avenida Marechal Câmara 271 - 7º andar - Centro do Rio. Telefone: (21)2526-8700.
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