RJ em Foco

‘É possível deixar a Engenharia mais atraente’: diretora da Coppe defende mais diversidade e aproximação com o mercado

À frente do principal centro de pesquisa em engenharia da América Latina, Suzana Kahn destaca crescimento de alunos, parcerias bilionárias com empresas e defende mais diversidade na universidade

Agência O Globo - 08/03/2026
‘É possível deixar a Engenharia mais atraente’: diretora da Coppe defende mais diversidade e aproximação com o mercado
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), principal núcleo de pesquisa e ensino de Engenharia da América Latina, registrou aumento de 25% no número de alunos para o primeiro quadrimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025. O volume de contratos ativos também chama a atenção: são mais de 400 projetos desenvolvidos com 130 empresas, que somam cerca de R$ 1,4 bilhão.

Ipanema S/A:

Calor dá lugar à chuva

Os números expressivos do instituto são equiparáveis aos títulos do currículo de sua diretora. Suzana Kahn, de 66 anos, engenheira mecânica, mestre em Planejamento Energético e doutora em Engenharia de Produção, acumula experiências como secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente e subsecretária estadual do Ambiente do Rio.

Só 20% são mulheres

A trajetória da carioca de Ipanema contrasta, no entanto, com a realidade feminina em seu mercado. De acordo com pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura, o percentual de mulheres na área correspondia, há três anos, a apenas 20% do total. Ao lembrar sua carreira, a cientista conta que sua motivação para a escolha profissional se deu de maneira estratégica:

— Na juventude, eu não tinha vocação para a Engenharia. Gostava de História. Foi uma escolha pela empregabilidade. Meu foco era a independência financeira. “Que profissão eu vou escolher para ter autonomia?” Sou de uma família de classe média, de Ipanema, não sofria. Tive privilégios. Mas é importante para a mulher não depender do marido ou do namorado financeiramente — frisa ela, que na graduação, na Uerj, mais de 40 anos atrás, era uma das três mulheres ao lado de 22 alunos homens. — Ainda há muito o que melhorar. Um dos caminhos é ampliar o acesso à ciência.

Enquanto se desenvolvia acadêmica e profissionalmente e acumulava bagagem na Secretaria de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente — na articulação da primeira lei federal, de novembro de 2009, com metas para a redução das emissões de gases do efeito estufa — e no governo do estado, foi mãe dedicada de três filhos, intercalando temporadas como aluna de pandeiro e de artes plásticas.

— Até aula de grafite ela fez (risos). Ela tinha seus 50 e muitos e ia fazer aula com grafiteiros de 15, 20 anos — diverte-se o filho mais velho, Felipe Ribeiro, de 41 anos. — Ela está sempre querendo experimentar hobbies, tendências.

Se encarar novos desafios nunca a amedrontou, ocupar espaços em que fosse minoria despertava mais gana. Ou a certeza de que não estava com ela a falta de tato para lidar com a diversidade. Suzana lembra que foi na faculdade, nos anos 1980, que percebeu o despreparo dos docentes para lidar com as mulheres da Engenharia.

— Na faculdade, fiquei grávida do meu filho mais velho. Ele nasceu em abril, época de provas bimestrais. Perdi uma porção de testes e tive que fazer segunda chamada na sala do professor. Chegou a hora de o meu filho mamar e começou a sair leite. O professor não sabia onde se enfiava. Ele dizia: “Vai embora, pode ir”. E eu falava: “Eu não vou!” — recorda-se, às risadas.

Anos depois, quando estava na vice-direção do grupo de cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) — órgão da ONU que ganhou o Nobel da Paz, em 2007, pela dedicação a estudos sobre mudanças do clima e o aquecimento global —, houve o primeiro desconforto: o preconceito.

— Era um mundo de gente, pessoas de diferentes nacionalidades. Eu me lembro da sensação de ser olhada como mulher brasileira. Num jantar, me perguntaram como a gente se vestia no Rio. Isso me incomodou. Fiquei sem graça. Fingi que não liguei, mas liguei — conta ela.

Brigar em inglês

Para se fortalecer, Suzana buscou os estudos. Aprimorou o inglês para adquirir mais segurança profissional e no trato interpessoal:

— Eu contratei um professor particular para me ensinar a brigar em inglês. Na argumentação e contra-argumentação, se você parar para pensar, perde a discussão. O timing era importante para mim. O fato de eu me expressar com mais dificuldade impactava no respeito.

Nas vésperas deste Dia Internacional da Mulher, ao receber a equipe do GLOBO em sua casa, Suzana pausou o home office. Ela fazia a análise do Coppe Review, um mapeamento de estudos dos laboratórios do instituto.

— Muitas vezes o aluno não tem noção da aplicabilidade do que é estudado. Então, estamos criando um cardápio para que esse conteúdo possa ser explorado por investidores e pela sociedade. Não tem sentido a gente formar tantos mestres e doutores e limitar a um concurso para professores — diz ela.

Para a diretora, é possível aproximar academia e mercado, além de abrir ao público o que se pesquisa no instituto.

— Para fazer xampu, por exemplo, há estudos não óbvios. Ao analisar como se comporta um fio de cabelo, se vê que é como se fosse um tubo. Então, você vai à Engenharia Metalúrgica. Eles estudam o que acontece com o tubo tal qual se estuda um fio de cabelo. Me dá vontade de fazer as pessoas deixarem de lado a ideia de que a Engenharia é só construir ponte, prédio, colocar asfalto. Há processos bem interessantes que também são da área. E as pessoas gostam das curiosidades não óbvias. É possível deixar a engenharia mais atraente — diz.

No cargo de diretora da Coppe, Suzana assinou parcerias que ganharam notoriedade: uma delas é um laboratório de Inteligência Artificial. O hub de IA que ocuparia o prédio do antigo Automóvel Club, no Centro, numa parceria com a prefeitura, vai para outro edifício, ainda não definido.

Na Coppe, também ganhou força a Engenharia da Saúde, que se vale da aplicação de conhecimentos junto às Ciências Biomédicas, Econômicas e Sociais para desenvolver equipamentos com o objetivo de diminuir o impacto dos custos da Saúde, aperfeiçoar procedimentos médico-hospitalares e desenvolver dispositivos que melhorem a vida de quem tem doenças crônicas. Para a academia se abrir para a sociedade e mais inovações, a engenheira defende uma revisão de perspectivas sobre recursos.

— A parceria com o setor privado é essencial. Grande parte dos recursos deveria vir do setor público, já que é responsabilidade do Estado fornecer a educação, mas ter parceiros privados é bem-vindo — destaca Suzana.

A palavra é diversidade

Segundo ela, a diversidade é essencial na universidade:

— Falamos de diversidade de gêneros, fundamental. Mas a diversidade nas fontes de recursos e entender as necessidades do mercado também é importante.

Ao assumir o posto de diretora em 2023, outra de suas bandeiras era a de elevar o número de alunos da pós-graduação, mais um objetivo alcançado. Segundo a assessoria da UFRJ, em 2024 ingressaram 645 alunos; e em 2025, 696.

Seu braço direito na Coppe, o vice Marcello Campos, ressalta o jeito objetivo e direto com que Suzana lida com o trabalho e a gestão humana:

— Nosso projeto contínuo é de uma excelência acadêmica na Coppe. Temos um escritório conhecido e importante, inclusive internacionalmente, mas hoje o desafio é manter o destaque, já que outros centros surgiram no Brasil. Este é um projeto contínuo: de formação de pessoal e produção científica.