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OEA cobra investigação e reparação após megaoperação policial mais letal do Brasil

Relatório aponta graves discrepâncias após a morte de 122 pessoas nos complexos da Penha e do Alemão e classifica a Operação Contenção como a mais letal da história recente do país.

Agência O Globo - 06/03/2026
OEA cobra investigação e reparação após megaoperação policial mais letal do Brasil
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um relatório contundente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), elaborado após a megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, classifica a "Operação Contenção" como a ação policial mais letal da história recente do Brasil. O documento, ao qual O GLOBO teve acesso, traz recomendações finais da CIDH, que aponta "graves discrepâncias" no posicionamento do governo fluminense e exige investigação independente das mortes causadas por policiais, conduzidas por órgãos sem vínculo com as corporações envolvidas.

Entre as recomendações, estão o fortalecimento do papel do Ministério Público na fiscalização da atividade policial; assistência médica, psicológica e compensação financeira às vítimas e familiares; além de maior transparência em operações futuras, com implementação rigorosa de câmeras corporais e protocolos padronizados de registro de ações.

Letalidade e contexto da operação

A operação, realizada em 28 de outubro de 2025, resultou em 122 mortos — sendo 117 civis e cinco agentes — e mais de cem prisões. Liderada pelo comissário José Luis Caballero, uma delegação da CIDH reuniu-se com autoridades brasileiras, incluindo o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, além de ouvir familiares das vítimas e realizar inspeções nos locais dos confrontos.

Equipe eBs

O relatório detalha que a operação mobilizou cerca de 2.500 agentes, 32 blindados e drones, utilizando uma tática definida pelas autoridades como “martelo e bigorna”, com o objetivo de confinar suspeitos em áreas delimitadas para “neutralização”. Há denúncias de execuções extrajudiciais, tortura e falhas na preservação das cenas dos crimes. Relatos apontam que os familiares precisaram buscar e carregar seus próprios mortos, muitos deles com marcas de possíveis abusos. A experiência no Instituto Médico-Legal (IML) foi descrita como "desumanizadora", com relatos de armazenamento inadequado, atrasos na liberação e tratamento desrespeitoso às famílias.

Racismo estrutural e crítica à narrativa oficial

Segundo a CIDH, a violência policial não é um episódio isolado, mas consequência de um racismo estrutural que estigmatiza moradores de favelas. Em 2024, 82% dos mortos por intervenção policial no Brasil eram afrodescendentes. O relatório também critica a narrativa oficial de "sucesso operacional" baseada no número de mortes e alerta que a letalidade não é específica especificamente de eficácia. Destaca ainda o aumento expressivo de seguidores do governador Cláudio Castro nas redes sociais após a operação, diminuindo uma "normalização da morte" como instrumento político.

Conclusão da CIDH

O relatório conclui que as megaoperações de alta letalidade não desmantelam o crime organizado, “mas apenas perpetuam ciclos de violência e exclusão social”. Até o momento, o governo do Rio de Janeiro não se manifestou sobre as recomendações e críticas da CIDH.