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'Medo de se relacionar e de sair de casa': que traumas afetam vítimas de estupro? Especialistas explicam

Os impactos se agravam quando os alvos são pessoas em formação, caso da adolescente de 17 anos vítima de um estupro coletivo em Copacabana

Agência O Globo - 04/03/2026
'Medo de se relacionar e de sair de casa': que traumas afetam vítimas de estupro? Especialistas explicam
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Se o medo da violência sexual assombra meninas e mulheres diariamente, quem já foi vítima pode desenvolver transtornos mentais em diferentes níveis de gravidade, como depressão, ansiedade e crises de pânico, dizem especialistas. Os impactos se agravaram ainda mais quando os crimes recairam sobre pessoas ainda em formação, como é o caso de um adolescente de 17 anos vítima de um estupro coletivo em Copacabana, Zona Sul do Rio, no dia 31 de janeiro.

Estupro coletivo em Copacabana:

'Ela quis desistir da vida por vergonha':

— A violência sexual coletiva faz com que uma pessoa se sinta com a vida ameaçada, humilhada e desumanizada. E a manipulação é um grande combustível para traumas. A partir de então, a vítima pode entrar num processo de quebra de confiança no outro, e fica com recebimento de se relacionar. Há quem não consiga mais sair de casa, por medo, vergonha e culpa, alimentando até vontade de morrer — pontua a psicóloga Roberta Barzaghi, mestre em Saúde Coletiva.

Um dos primeiros efeitos de um episódio de violência como o de Copacabana na vida da vítima é a alteração da sociabilidade. Uma pessoa pode se tornar mais antissocial, além de ter dificuldades em futuras relações amorosas. As consequências podem se estender para a vida escolar, com problemas de concentração na aprendizagem, explica Maria Beatriz Ferreira, psicóloga do Instituto de Defesa da Mulher Érica Paes.

— A vítima perde a confiança não só nos outros, mas em si mesma. E, sem autoconfiança, acaba se retraindo, por medo de se expor. Isso pode impactar seu futuro, já que a vida exige certa exposição em alguns momentos, como na faculdade ou no mundo do trabalho. Além disso, o episódio de violência pode se tornar um marco sempre lembrado, abalando a autoestima — observe.

'Sociedade machista'

No caso de Copacabana, a avó da vítima relatou que a neta disse se sentir culpada e com ideias suicidas logo após o episódio. Na visão dos especialistas, a sensação de constrangimento da vítima é causada por uma “sociedade machista”.

— A mulher é sempre revitimizada por indagações como "Com que roupa ela estava", "Será que ela consentiu" e "Será que ela disse sim e depois disse não". Isso é fruto do machismo estrutural e torna o cenário ainda mais cruel — analisa Maria Beatriz Ferreira.

Após o crime de Copacabana vir à tona e os acusados ​​do crime se tornarem conhecidos, outros adolescentes foram até a Polícia Civil denunciadores dois deles por outros dois casos de estupro. São réus no caso Bruno Felipe dos Santos Allegretti e Vitor Hugo Oliveira Simonin, ambos de 18 anos, Mattheus Veríssimo Zoel Martins e João Gabriel Xavier Bertho, que têm 19, podem pegar penas de até 18 anos de prisão. Mattheus e João foram presos na terça-feira. O quinto envolvido, um adolescente, que já havia tido um relacionamento com a vítima, é apontado como articulador do encontro e teve seu caso planejado para apuração na Vara da Infância e Juventude.

— Essa repetição de comportamento violento diz muito do papel em que a sociedade coloca a mulher e a objetificação de seus corpos. Assim, os homens, principalmente, acham que podem fazer o que quiserem com esses corpos. Isso traduz o quanto a misoginia dá a ideia de poder sobre o feminino. É um movimento dinâmico e que faz com que várias mulheres se acalmem. Quando uma mulher se levanta para falar, ela salva muitas outras. E isso é muito importante que possamos criar um ambiente de proteção para que eles possam, sim, expor as situações, para que haja consequências significativas para o agressor. Isso faz com que possamos colaborar para a construção de uma sociedade melhor — ressalta Roberta Barzaghi.

O recomeço

Na conversa após a vitimização envolveu o fortalecimento da autoestima, destaca Maria Beatriz Ferreira:

— É um trabalho de formiguinha. Inclui um exercício de reconhecimento da própria história e do próprio valor antes do trauma, o que de bom foi vivenciado e as relações positivas, num esforço para um resgate da identidade. A família é fundamental nessa etapa. Deve exercer uma função de escuta cuidadosa, sem julgamento e culpabilização da vítima. E os pais também precisam buscar apoio psicológico.

Já o caminho para que o ciclo se violência seja interrompido envolve uma mudança de comportamento na formação dos meninos.

— O mais importante é que não se reproduzam práticas e narrativas que sustentam a submissão da mulher. Em vez de ‘lugar da mulher é na cozinha’, lance mão da equidade da divisão das tarefas e pratique o cuidado e a parceria com o sexo oposto, por exemplo. Isso é fundamental para que criemos crianças capazes de romper com essa estrutura patriarcal.