RJ em Foco
Rio 461 anos: veja os objetos que ajudam a história da cidade
Historiadores relembram relíquias dos acervos de museus cariocas que marcaram época ao longo dos mais de quatro séculos e meio do Rio
O aniversariante da semana exibe-se em todo o seu esplendor: foi a primeira cidade reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial na categoria Paisagem Cultural Urbana. A beleza do Rio de Janeiro, no entanto, também se encontra nos detalhes. Basta querer ver e aprender. Há objetos que guardam histórias surpreendentes do nosso passado, tanto o mais recente quanto o mais remoto. Algo sobre a carioquice ao longo do tempo é revelado, por exemplo, pelo violão do cantor e compositor Cazuza (1958-1990), símbolo da boemia e dos primeiros passos do rock brasileiro, ali pelos anos 1980, momento de redemocratização. Mais antiga, a escultura de dragão que ficava na base da escadaria das primeiras escolas públicas, construídas na época do Império, evoca conversas de corredor das crianças do século XIX. Entre uma peça e outra, a lanceta de vacinação — antepassada rudimentar da seringa que conhecemos hoje — foi usada a partir de 1904. É testemunha de uma outra época de medo da ciência, explorado a ponto de culminar na violenta Revolta da Vacina.
O Rio em cem anos:
Aniversário do Rio:
A lanceta, no acervo da Fiocruz, o violão do criador da banda Barão Vermelho, guardado no Museu Histórico Nacional (MHN), e a escultura de dragão, relíquia do Museu Histórico da Cidade, são lembranças apontadas pelo historiador Paulo Knauss. Ele também chama atenção para um canhão usado pelos soldados da Guerra de Canudos — que, depois de combaterem no sertão baiano, vieram morar no Morro da Providência, dando origem à primeira favela da cidade — e para o molde da cabeça do Cristo Redentor, esculpida pelo francês Paul Landowski por volta de 1920. As duas peças estão, respectivamente, nos já citados MHN e Museu da Cidade. Ou seja, basta querer ver.
Diretor do MHN e professor do Departamento de História da UFF, Knauss foi um dos três organizadores do livro “História do Rio de Janeiro em 45 objetos”, lançado em 2019. A convite do GLOBO, eles revisitaram a obra e sugeriram outros itens para integrar essa coleção histórico-afetiva.
— A gente pode ver a História do Rio por meio das coleções dos museus e das instituições da cidade, basta ter um olhar direcionado para esse ponto de vista. Esses objetos ajudam a entender passado, presente e como a gente chegou até aqui, e estão em toda a parte — reflete Knauss.
O jogo na roda
O livro revela curiosidades como uma roleta de jogo do bicho remanescente dos anos 1920, hoje no Museu da Polícia Civil. Tem ainda a vitrine de madeira entalhada e placas de vidro, no MHN, relíquia preservada da Exposição Internacional do Centenário da Independência, um tremendo acontecimento do ano de 1922. O megaevento contou com a participação de representantes de 14 países estrangeiros. Esses visitantes são descritos pela historiadora Marize Malta, outra organizadora do livro, como “testemunhas de uma cidade que desejava ser vista como se projetando para o futuro e com a capacidade de construir uma urbe tão grande quanto sua paisagem natural”.
Esse ímpeto modernizador contribuiu para a derrubada do Morro do Castelo, recanto mais protegido para o qual a cidade foi transferida em 1567 — apenas dois anos depois de ser fundada em uma paliçada à beira da baía —, e de onde cresceu em direções variadas até os dias de hoje. O vazio deixado pelo morro, que foi arrasado por jatos d’água, deu lugar à nova área urbana que seria ocupada pelos pavilhões da Exposição do Centenário.
Em paralelo, corria na vizinha São Paulo a Semana de Arte Moderna de 1922. O tipo de acontecimento que, segundo o jornalista, escritor e cronista da História carioca Ruy Castro, não faria sentido por aqui: o Rio, àquela altura, já era moderno não precisava de um marco para se afirmar.
Inspirada nas cores dos trópicos exploradas pelas telas de Di Cavalcanti, a saia usada por Carmem Miranda no fim dos anos 1930 remonta, justamente, a um momento em que os cariocas estavam amadurecendo sua participação na arte nacionalista, popular e irreverente. O figurino era usado na fase áurea dos cassinos da cidade, como o da Urca, o Copacabana e o Atlântico. Hoje, a peça pertence ao acervo do Museu Carmem Miranda.
A identidade da cidade também passa pela moda. Foi por aqui que a sandália de borracha de dedo, apesar de criada em São Paulo, em 1962, se tornou símbolo de um calçado praiano, descontraído e que todos usam.
— O período de sua criação corresponde à perda do prestígio do Rio de Janeiro como capital, com a criação de Brasília, mas permanecendo como epicentro cultural e referência de novos modismos e comportamentos. De “chinelo de pobre”, se tornou um sinônimo de calçado da moda, para todas as idades e classes sociais, virando símbolo nacional — explica a historiadora Marize Malta.
Assim como a saia de Carmem Miranda, que também é citada no livro de 2019, outros itens representam movimentos históricos que ultrapassam as fronteiras da cidade, como os estandartes abolicionistas da década de 1880. De sete peças, apenas duas sobreviveram a um incêndio em 1938: os estandartes do Centro Abolicionista Ferreira de Menezes e da Caixa Emancipadora Joaquim Nabuco, presentes hoje no Museu do Negro, são lembranças da luta pela libertação de negros escravizados.
No fim da década de 1960, outro objeto guarda a memória de uma cena que marcou para sempre o movimento estudantil e a resistência à ditadura. Na Câmara Municipal do Rio, uma mesa de madeira maciça apoiou o corpo do estudante Edson Luís, assassinado em uma ação de repressão política durante o regime militar, em 1968. Ele foi levado por uma multidão para dentro do Palácio Pedro Ernesto, onde foi velado. No dia seguinte, aconteceu a famosa Passeata dos Cem mil.
No rol dos objetos históricos mais recentes, está a bandeira que a Mangueira levou para o desfile no carnaval campeão de 2019. Criada a partir da bandeira do Brasil, mas com as cores verde e rosa, a peça levava a inscrição “Índios, pretos e pobres”, e foi vista como um símbolo da história de violência e da exclusão social na cidade.
— É um desfile que mostra como as escolas passaram do discurso cívico, até a década de 1970, como a representação da história de Tiradentes e a cartilha cívica do Brasil, para enredos, na era democrática, que discutem os desafios contemporâneos da sociedade, como o Cristo Redentor coberto do desfile do Joãosinho Trinta na Beija-Flor — compara Knauss.
‘Corrente de memória’
Para a pesquisadora Maria Isabel Lenzi, a terceira organizadora de “História do Rio de Janeiro em 45 objetos”, esses fragmentos da cidade registram transformações de um Rio de Janeiro múltiplo, com mazelas e encantos: da cidade colonial à cena do rock, das revoltas populares à paisagem de cartão-postal.
— O aniversário é importante para a gente lembrar as diversas cidades que o Rio já foi ao longo desses 461 anos. Diferentes entre si, mas ainda assim a mesma. Os objetos ajudam a relembrar e situar as transformações da cidade com suas mazelas e seus encantos. Formam uma corrente da memória. Quando esse elo se parte, é como se nós, cariocas, nos perdêssemos um pouco. Sem a memória, é difícil pensarmos em uma identidade e um futuro – defende Maria Isabel.
E você: que pedacinho favorito do Rio guardaria com mais carinho? Um que fosse testemunho resistente do momento no tempo e no espaço em que foi inserido?
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