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Aniversário do Rio: conheça a história da cidade a partir de objetos, como a roleta do jogo do bicho e o violão de Cazuza

Historiadores relembram itens de acervos de museus que marcaram a história da cidade

Agência O Globo - 01/03/2026
Aniversário do Rio: conheça a história da cidade a partir de objetos, como a roleta do jogo do bicho e o violão de Cazuza
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Quanta coisa seria revelada sobre a humanidade se os objetos falassem. Já pensou se eles abrissem uma boca imaginária e contassem o que testemunharam ou sobre um momento do tempo e do espaço em que foram inseridos? No caso da cidade do Rio, aniversariante de hoje, o violão de Cazuza entoaria versos sobre a boemia carioca e a cena do rock brasileiro da década de 1980, no contexto da redemocratização do país. A escultura de dragão que ficava na base da escadaria das primeiras escolas públicas do município, da época do Império, talvez diria sobre as conversas de corredor das crianças cariocas no século 19. A lanceta de vacinação – bem mais rudimentar do que a seringa que conhecemos hoje – usada a partir de 1904, falaria dos gritos e do pavor das pessoas quando ela se aproximava, além da perseguição na época da Revolta da Vacina.

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Fora esses, uma série de outros objetos ajuda a narrar a história da cidade do Rio, desde a fundação, até os dias de hoje. Seja um canhão usado pelos soldados da Guerra de Canudos, que vieram morar no Morro da Providência, seja a roleta usada no jogo do bicho em meados do século 20, não é preciso mágica ou fantasia para que as memórias que esses itens evocam sejam contadas. Eles foram listados por três historiadores que organizaram o livro “História do Rio de Janeiro em 45 objetos”, lançado em 2019. A pedido do GLOBO, eles revisitaram a obra e incluíram outros itens à coleção.

– A gente pode ver a história do Rio por meio das coleções dos museus e instituições da cidade, basta ter um olhar direcionado para esse ponto de vista. Esses objetos ajudam a entender passado, presente e como a gente chegou até aqui, e estão em toda parte – reflete o historiador Paulo Knauss, diretor do Museu Histórico Nacional e professor do Departamento de História da UFF.

Além da lanceta de vacinação, do acervo da Fiocruz, o violão de Cazuza, no Museu Histórico Nacional, e a escultura de dragão, no Museu Histórico da Cidade, Knauss acrescenta à lista um objeto que deu rosto ao Cristo Redentor, símbolo do Rio: o molde da cabeça do monumento, esculpida pelo francês Paul Landowski, por volta de 1920. Ele mantém viva a memória de um movimento de separação entre a igreja e o Estado, na transição do século 19 para o século 20, em uma empreitada carregada de mobilização social – a sociedade católica ajudou a pagar pelo monumento.

Ali perto no tempo, acontecia a Exposição Internacional do Centenário da Independência, mais precisamente em 1922. Dela restou, entre outros vestígios, uma vitrine de madeira entalhada e placas de vidro, listada no livro, e presente no acervo do Museu Histórico Nacional.

O evento teve a participação de 14 países estrangeiros, descritos pela historiadora Marize Malta como “testemunhas de uma cidade que desejava ser vista como se projetando para o futuro e com a capacidade de construir uma urbe tão grande quanto sua paisagem natural”. Assim, foi abaixo um dos berços da cidade, o Morro do Castelo, arrasado por jatos d’água. As casas dos moradores deram lugar à nova área urbana que seria ocupada pelos pavilhões.

Em paralelo, corria o movimento modernista no Brasil, com a Semana de Arte Moderna também de 1922. Inspirada nas cores dos trópicos explorada por Di Cavalcanti, a saia usada por Carmen Miranda no final dos anos 1930 remonta, justamente, a um momento em que os cariocas estavam amadurecendo a participação na arte nacionalista, popular e irreverente. O figurino era usado na fase áurea dos cassinos da cidade, como o da Urca, o Copacabana e o Atlântico. Hoje, a peça pertence ao acervo do Museu Carmen Miranda.

A identidade carioca, que também passava pelo vestuário, se consolidou ao longo dos anos com a famosa sandália de dedo. Apesar de ser sido criado em São Paulo, em 1962, foi no Rio de Janeiro que o chinelo se tornou símbolo de um calçado praiano, descontraído e que todos usam.

– O período de sua criação corresponde à perda do prestígio do Rio de Janeiro como capital, com a criação de Brasília, mas permanecendo como epicentro cultural e referência de novos modismos e comportamentos. De “chinelo de pobre” se tornou um sinônimo de calçado da moda, para todas as idades e classes sociais, virando símbolo nacional – explica a historiadora Marize Malta.

Resistência popular

Assim como a saia de Carmem Miranda, que também é citada no livro, outros objetos representam movimentos históricos que ultrapassam as fronteiras da cidade, como os estandartes abolicionistas da década de 1880. De sete peças, apenas duas sobreviveram a um incêndio em 1938: os estandartes do Centro Abolicionista Ferreira de Menezes, e da Caixa Emancipadora Joaquim Nabuco, presentes hoje no Museu do Negro, lembranças da luta pela libertação de negros escravizados.

No fim da década de 1960, outro objeto guardou a memória de uma cena que marcou para sempre o movimento estudantil e a resistência social à ditadura. Na Câmara de Vereadores do Rio, uma mesa em madeira maciça apoiou o corpo do estudante Edson Luís, assassinado em uma ação de repressão política da ditadura militar, em 1968. Ele foi levado por uma multidão para dentro do Palácio Pedro Ernesto, onde foi velado. No dia seguinte, aconteceu a famosa Passeata dos 100 mil.

No rol dos mais recentes, está a bandeira que a Mangueira levou para o desfile no carnaval de 2019. Criada a partir da bandeira do Brasil, com as cores verde e rosa, a peça levava a inscrição "Índios, pretos e pobres”, e foi vista como um símbolo da história de violência e da exclusão social na cidade.

– É um desfile que mostra como as escolas passaram do discurso cívico até a década de 1970, como a representação da história de Tiradentes, a cartilha cívica do Brasil, para enredos, na era democrática, que discutem os desafios contemporâneos da sociedade, como o Cristo Redentor coberto do desfile do Joãosinho Trinta na Beija-Flor – explica Knauss.

Para a pesquisadora Maria Isabel Lenzi, ainda que não falem, os objetos ajudam a relembrar e situar as transformações de um Rio de Janeiro múltiplo, com mazelas e encantos: da cidade colonial à cena do rock, das revoltas populares à paisagem-cartão-postal.

– O aniversário do Rio é importante para a gente lembrar as diversas cidades que o Rio de Janeiro já foi ao longo desses 461 anos. Diferentes entre si, mas ainda assim a mesma. Os objetos ajudam relembrar e situar as transformações da cidade com suas mazelas e seus encantos. Formam uma corrente da memória. Quando esse elo se parte, é como se nós, cariocas, nos perdêssemos um pouco. Sem a memória, é difícil pensarmos em uma identidade e um futuro – defende Maria Isabel.