RJ em Foco
O que pode ter provocado a explosão que matou dois trabalhadores em Volta Redonda
Especialista explica como a combinação de etanol, oxigênio e fonte de ignição pode gerar explosões em tanques; acidente na base da Vibra deixou dois mortos e um jovem gravemente ferido
A explosão que matou dois trabalhadores dentro de um tanque de etanol na base da Vibra Energia, em Volta Redonda, na madrugada de domingo, pode ter sido causada por uma combinação perigosa: vapores inflamáveis, oxigênio e uma faísca. O acidente deixou mortos os sergipanos Oberdan Santos de Jesus, de 28 anos, e Antony, de 29. Um terceiro trabalhador, de 24 anos, ficou gravemente ferido e segue internado em estado grave. Os corpos foram encontrados às 3h40 da madrugada desta segunda-feira pelo Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, após o esvaziamento completo do tanque, que armazenava cerca de 350 mil litros de etanol no momento da explosão.
Segundo familiares, os trabalhadores realizavam um serviço de soldagem quando ocorreu a explosão. As causas ainda estão sendo investigadas.
Para entender o que pode ter acontecido, o GLOBO conversou com Leandro Ducioni, especialista em áreas classificadas da Schmersal, empresa que atua com segurança industrial.
Por que um tanque pode explodir?
Muita gente imagina que o perigo está apenas no líquido armazenado. Mas, segundo o especialista, o maior risco está no vapor que o combustível libera.
— Existe risco de formação de uma atmosfera explosiva devido à presença de vapores de líquidos inflamáveis. Como a solda gera faíscas, que são fonte de ignição, a interação dessas faíscas com uma atmosfera potencialmente explosiva pode resultar em explosão — explica Ducioni.
Tanque mais vazio pode ser 'ainda mais perigoso'
Um ponto que chama atenção é que o tanque não estava cheio. Havia 350 mil litros de etanol, mas a capacidade total é de dois milhões de litros. Mesmo assim, o risco não era menor — pelo contrário.
— O risco de explosão ocorre quando vapores inflamáveis se misturam com o oxigênio do ar em proporções adequadas e encontram uma fonte de ignição. Em tanques, quanto mais vazio o espaço acima do líquido, maior é a quantidade de vapores inflamáveis misturados com o ar, aumentando o risco de formação de uma atmosfera explosiva no interior — revela o especialista.
Ou seja, o perigo não está só no combustível líquido, mas principalmente no vapor invisível que se forma acima dele.
O 'triângulo do fogo'
Segundo o especialista, o acidente pode ser compreendido a partir do chamado “triângulo do fogo”:
Combustível (no caso, o vapor de etanol);
Oxigênio (presente no ar);
Uma fonte de ignição (como a faísca da solda).
— O oxigênio atua como elemento oxidante, sendo consumido no processo de reação autossustentada de liberação de energia. Já os vapores são o combustível. Quando misturados ao oxigênio, criam a atmosfera explosiva pronta para entrar em ignição. Basta a fonte de ignição, como a faísca de uma solda, para gerar incêndio ou explosão — detalha.
Falhas que podem levar à explosão
Embora as causas oficiais ainda estejam sendo apuradas, Ducioni aponta que falhas na avaliação de risco são um fator recorrente em acidentes desse tipo.
— Não realizar uma avaliação de riscos para trabalhos a quente e não garantir que todos os vapores inflamáveis foram completamente eliminados antes da manutenção pode resultar em condições perigosas e aumentar o risco de explosão — afirma.
Ele ressalta que é provável que tenha ocorrido falha na análise prévia da atmosfera interna do tanque.
— A presença de uma atmosfera explosiva pode não ter sido devidamente identificada ou controlada antes da execução da atividade. A utilização de equipamento gerador de faíscas em ambiente com vapores inflamáveis contribui diretamente para a ocorrência do acidente — diz.
O que deveria ser feito antes de soldar um tanque?
Intervenções com fonte de ignição em áreas classificadas exigem uma série de protocolos obrigatórios. Antes de qualquer trabalho de soldagem, deve ser emitida uma Permissão de Trabalho “a quente”, documento que formaliza:
Avaliação completa dos riscos;
Identificação de instrumentos e ferramentas;
Definição de medidas de mitigação;
Planejamento de controles de emergência.
Entre os procedimentos que devem constar nessa autorização estão:
Avaliação e contenção de líquidos inflamáveis;
Garantia de estanqueidade das linhas de alimentação;
Purga e ventilação do tanque;
Monitoramento contínuo da atmosfera com medidor de gás calibrado;
Aterramento e equipotencialização de equipamentos elétricos;
Remoção de materiais combustíveis do entorno;
Disponibilidade de equipamentos de combate a incêndio;
Supervisão e definição clara de responsabilidades.
— O monitoramento deve ocorrer antes e durante o trabalho. Não basta medir uma vez. É necessário garantir que os níveis de vapores estejam dentro de limites seguros ao longo de toda a atividade — ressalta Ducioni.
Setores mais vulneráveis
Ambientes com risco de atmosfera explosiva não são raros na indústria. Segundo o especialista, eles estão presentes principalmente em:
Indústria de petróleo e gás;
Minas de carvão;
Indústrias químicas;
Envase de gases inflamáveis;
Reservatórios de combustíveis;
Cabines de pintura;
Indústrias de tintas e vernizes.
A base onde ocorreu o acidente em Volta Redonda se enquadra nesse contexto de armazenamento de combustível, atividade que exige controle rigoroso de riscos.
Sem comentar diretamente o caso específico, que ainda está sendo apurado, Ducioni afirma que acidentes desse tipo são, em grande parte, preveníveis quando protocolos são rigorosamente cumpridos.
— Sempre que existe atmosfera explosiva, o risco é real. O que diferencia um ambiente seguro de um acidente é o controle efetivo dos três elementos: combustível, oxigênio e fonte de ignição. Se um deles for eliminado ou controlado corretamente, a explosão não ocorre.
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