RJ em Foco
Petróleo torna Saquarema o município com o maior PIB per capita do país, mas renda de moradores é baixa
Cidade virou canteiro de obras, mas ainda convive com ruas sem asfalto e saneamento deficiente
Ao chegar a Saquarema — famosa pelas ondas perfeitas para o surf —, o visitante tem, agora, mais um motivo para se surpreender: a cidade, da Região dos Lagos, virou um canteiro de obras. A origem de tantas intervenções é o repasse de royalties, decorrentes da extração do petróleo e com destinação obrigatória, que vêm abarrotando os cofres da prefeitura. O dinheiro é tanto que o IBGE revelou que o município teve o maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país em 2023: o equivalente a R$ 722.441,52 no ano por habitante. Um valor que contrasta com o rendimento médio dos moradores: R$ 2.310 por mês, pelo Censo 2022 (menos de R$ 28 mil em 12 meses), abaixo do Estado do Rio e do país.
Investigações sobre apreensões:
Importunação:
Entre os moradores, há queixas sobre prioridades públicas, o crescimento desordenado impulsionado pela riqueza gerada pelo ouro negro, a precariedade do saneamento, a quantidade de vias sem asfalto e a falta de profissionais para botar para funcionar, a contento, novas unidades de educação e saúde. Por outro lado, há quem tenha conseguido se qualificar e empreender frequentando cursos criados com o dinheiro do petróleo. Também há quem destaque o apoio às famílias dos créditos das moedas Educa Saquá (R$ 250 ou R$ 300 por criança na escola) e Social Saquá (R$ 300, por família vulnerável).
Depois de se formar em um curso de capacitação da prefeitura, Vanussa Soares Terra da Silva, de 41 anos, montou seu negócio este ano no bairro Vilatur, na área rural. De dona de casa, virou padeira, e trabalha com delivery e retirada, por enquanto no mesmo endereço onde mora.
— Tenho orgulho de dizer que sou mulher pobre, negra e padeira — diz a dona da Eva Terra Padaria e Confeitaria, que reside numa rua de terra: — Isso não me incomoda. Sei que o asfalto vai chegar. Sinto um misto de comemoração e nostalgia no coração. Sou muito da roça, como meu filho (Yisrael, de 4 anos), que é criança raiz.
Já o artista plástico Mulambö, que nasceu e vive em Saquarema, se mostra preocupado com o crescimento de bairros periféricos sem planejamento e da falta de planos para uso dos equipamentos.
— Na educação, por exemplo, a estrutura é impecável. Há escolas e creches novas, que ficam sem professores. A prefeitura tem também um convênio com universidades privadas, em que a população tem acesso a cursos e recebe auxílios, mas não tem planos de construir uma universidade municipal ou de trazer alguma universidade pública para a cidade — cita Mulambö, batizado João da Motta.
‘O petróleo é finito’
O retrato econômico de Saquarema, feito pelo economista Mauro Osório e pelo mestre em desenvolvimento regional Henrique Rabelo, membros do Instituto de Estudos do Rio de Janeiro (IERJ), mostra que o valor do PIB per capita do município cresceu 1.398% entre 2010 e 3023 — no estado, o aumento foi de 6,2% , e no país, de 8,2%.
Também muito acima do estado e do país, a sua população aumentou 28,3% em 15 anos, alcançando mais de 95 mil moradores em 2025, conforme estimativa do IBGE. O estudo revela ainda que quase a metade dos empregos do lugar são informais.
— Há poucos empregos e boa parte deles são na informalidade. Falta atividade produtiva — constata Rabelo.
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), contudo, melhorou. Em 2005, entre os dez municípios da Região dos Lagos, Saquarema tinha o pior Ided das escolas municipais de 1º ao 5 ano (3,3). Quase duplicou em 2023 (6), embora fique atrás de Iguaba Grande, Casimiro de Abreu e Rio das Obras.
A arrecadação com royalties bateu R$ 2 bilhões em 2024, um salto em relação aos R$ 5,8 milhões de 2010. Mas Mauro Osório alerta que “o petróleo é finito”:
— Um dia o petróleo vai acabar. O município precisa ter estratégia econômica, construir uma estrutura produtiva, atraindo empresas. Assim, consegue aumentar suas receitas próprias e gerar sustentabilidade.
Segundo a prefeitura, 79,37% (R$ 1,97 bilhão) das despesas executadas no ano passado (R$ 2,49 bilhões) foram oriundos de royalties. Para este ano, a previsão é de reduzir a dependência das cifras do petróleo para 71,71%.
— Pela legislação, os royalties de partilha (do pré-sal) precisam ser usados em educação (75%) e saúde, e os de concessão (outras bacias), em infraestrutura. Não podemos usar para pagar pessoal. Estamos construindo a Cidade da Educação, um complexo onde vai ser implantada a primeira faculdade de IA do Rio. Na Cidade da Saúde, inauguramos o Hospital Municipal Nossa Senhora de Nazareth, e estamos construindo a Casa do Autista. Na orla, estamos reurbanizando desde a Praia da Vila (onde fica a Igreja Nossa Senhora de Nazareth, ponto mais alto do centro, na entrada da Lagoa de Saquarema) até Jaconé — exemplifica Manoela Peres, secretária municipal de Governança e Sustentabilidade.
Outra unidade de saúde, o Hospital Municipal Porphírio Nunes de Azeredo, no Bacaxá, ganhou um anexo e está sendo reformado. Mas não dá conta do movimento. Que o diga Aline da Costa Neto, de 38 anos:
— Com dor, fiquei na emergência de 11h às 14h para ser atendida. Vou ter que esperar mais duas horas para fazer exame e ver se é crise renal. Estou também há quatro meses tentando marcar ginecologista para minha filha de 14 anos. Tudo é demorado.
Previsão de concurso
A prefeitura acena com o lançamento de concurso este semestre para 1.794 vagas nas áreas de educação, saúde e segurança. Para reduzir a dependência do petróleo, Manoela Peres cita ações voltadas para o aumento da arrecadação, ao incentivo ao turismo e o estímulo ao empreendedorismo.
Mãe de duas crianças, de 13 e 8 anos, Ingryd Lima, de 31 anos, apostou no negócio, abriu um salão de beleza em Madressilva, no Bacaxá, há três anos. Hoje, emprega seis mulheres e tem uma carteira de 300 clientes. Uma questão que poderia avançar, segundo ela, é o esgoto:
— O meu esgoto cai num valão, que é limpo sempre. Mas poderia ter rede e melhorar.
Presidente da Associação Profissional de Artesãos Autônomos de Saquarema, Kamira Congatelli lamenta que a deficiência no saneamento não poupe o canal de Saquarema — onde desembocam galerias pluviais, que recebem também esgoto —, que interliga a principal lagoa do município com o oceano.
O serviço de água e esgoto da cidade é de responsabilidade de duas concessionárias. A Águas de Juturnaíba, do Grupo Águas do Brasil, que atende os distritos de Saquarema Sede e Bacaxá, afirma que 100% da população é atendida por água. Em relação a esgoto, a cobertura é de 78%, devendo chegar aos 90% até 2038. Já a Águas do Rio, do Grupo Aegea, responsável por Sampaio Correia e Jaconé, afirma que 96% da área contam com abastecimento de água. Porém, a empresa ainda não entrou com obras de esgoto, embora esteja prevista a universalização até 2033.
Saneamento à parte, Kamira critica ainda o que chama de política de assistencialismo do município e a realização de obras sem consultar a população.
— Reurbanizaram a Praça do Canhão (no distrito Sede) e a rua não tem desnível em relação a calçada — reclama.
Construções irregulares, visando a oferecer moradia a quem é a atraído pela riqueza da cidade, são outras preocupações da artesã, especialmente na localidade da reserva florestal, onde ficava uma antiga pista de motocross. Lá, há várias casas sendo erguidas e diversas placas de vende-se terrenos e aluga-se. A prefeitura, entretanto, informa que realizou cerca de 2.500 autos de embargo, em 2024 e 2025, e que conta com uma plataforma de geoprocessamento (GeoSaquá), que cruza dados de licenciamento com imagens de satélites.
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