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Complexo de Gericinó terá 'cinturão de segurança' após CV monitorar prisão para planejar fuga de detentos

Seap pretende instalar barreira física com grades e sensores de movimento no conglomerado que abriga 22 unidades prisionais

Agência O Globo - 20/01/2026
Complexo de Gericinó terá 'cinturão de segurança' após CV monitorar prisão para planejar fuga de detentos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um projeto da Secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap) prevê a construção de um muro de cerca de quatro mil metros de extensão, com detectores de presença, ao redor das 22 unidades do Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste do Rio. A medida busca reforçar a segurança dos presídios de Bangu, onde estão mais de 22 mil detentos, após a identificação de fragilidades que, segundo a própria pasta, vêm sendo “exploradas pela criminalidade organizada”. No fim do ano passado, integrantes do Comando Vermelho chegaram a monitorar agentes penais por cerca de dois meses durante o planejamento de uma fuga, que acabou frustrada.

22 unidades:

Domínio armado:

Segundo a Seap, o objetivo do monitoramento era obter detalhes da rotina da segurança para permitir a fuga de quatro detentos do Presídio Nelson Hungria. Na madrugada de 21 de dezembro, o plano começou a ser executado, e presos chegaram a cortar as grades do banheiro para deixar a unidade e se encontrar com comparsas no muro.

Disputa pelo Catiri:

Invasão no presídio

O esquema foi descoberto quando, naquele dia, durante a madrugada, os policiais identificaram uma tentativa de invasão ao Presídio Lemos Brito. Um grupo havia arremessado pelo muro materiais destinados a cortar grades, pensando que era a unidade vizinha, o Nelson Hungria. O engano pôs a fuga por terra.

De acordo com um relatório interno, a Subsecretaria de Inteligência da Seap identificou que os criminosos realizaram um planejamento operacional detalhado, que incluía informações sobre fragilidades do complexo, como guaritas guarnecidas e desguarnecidas e horários das movimentações de segurança no Nelson Hungria e no Lemos Brito. Segundo a pasta, os bandidos utilizavam ligações e mensagens de áudio e vídeo para registrar e compartilhar toda a rotina de segurança das duas unidades prisionais.

O documento destaca que o plano foi arquitetado por Leonardo Santos Costa Falcão, o Leo GTA. Ele também teria sido o preso responsável por contratar um homem que, armado com um fuzil, invadiu uma das guaritas para acoplar uma escada ao muro do Nelson Hungria. A fuga ocorreria pela região do Catiri, comunidade próxima ao complexo que é dominada pela milícia e sofre invasões frequentes do CV.

O preso seria braço direito de Rodrigo da Silva Caetano, o Motoboy, um dos chefes do tráfico do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. Segundo a Polícia Civil, ele é um dos responsáveis por comandar quadrilhas de roubo de veículos e de cargas, crimes que financiam a “caixinha” da facção. Por isso, a fuga dele seria estratégica para a cúpula do CV, porque os “lucros obtidos com delitos patrimoniais de grande escala” são usados para a compra de armas.

Embora a tentativa tenha sido frustrada, a ocorrência foi citada pela Seap como um fato que evidenciou a fragilidade do complexo. “O episódio expôs, mais uma vez, o comprometimento da segurança do complexo, originado de interferências externas, associadas tanto à ocupação urbana desordenada e à existência de moradias nas áreas limítrofes quanto à presença de integrantes de organizações criminosas que exercem influência sobre a região”, diz um trecho do relatório. Após o caso, a Seap pediu a transferência de Leo e outros três presos, que fugiriam naquele dia, para o Sistema Penitenciário Federal.

Há pelo menos dois anos, a Seap já aponta que criminosos do CV tentam dominar as favelas no entorno do complexo, que se expandem em direção aos presídios. O objetivo da facção é formar um cinturão ao redor das unidades, onde estão custodiados seus principais chefes. O controle seria, principalmente, das comunidades de Jardim Bangu, Catiri e Vila Kennedy. As duas primeiras ainda são dominadas pela milícia e sofrem invasões por parte da facção. Dessas favelas, bandidos também arremessam drogas e celulares para dentro das prisões.

Segurança das unidades

O complexo atualmente não é cercado por uma barreira contínua — cada uma das 22 unidades tem sistemas de proteção próprios. Com o novo projeto, a proposta é cercar todas as unidades com muro e uma grade de até 3,60 metros de altura, com concertinas e sensores de movimento. Para a secretária de Administração Penitenciária, Maria Rosa Lo Duca Nebel, o investimento vai elevar o nível de segurança da área.

— Vamos ampliar de forma significativa a blindagem física do Complexo de Gericinó, elevando o nível de segurança da maior estrutura prisional do estado. Tudo feito baseado em critérios técnicos e de engenharia, que reforça a proteção dos servidores, das unidades e da sociedade — explicou a secretária.