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Novas quedas de energia no Grande Méier não estão descartadas: entenda as obras da Light na região que afetarão moradores até maio

Bairros da Zona Norte enfrentaram falta de luz por duas noites consecutivas nesta semana. Problema envolve substituição de cabos subterrâneos de alta tensão no fim da vida útil

Agência O Globo - 14/01/2026
Novas quedas de energia no Grande Méier não estão descartadas: entenda as obras da Light na região que afetarão moradores até maio
- Foto: Depositphotos

A falta de energia elétrica voltou a atingir o Grande Méier na noite desta terça-feira, depois de oito bairros desse populoso trecho da Zona Norte do Rio já terem enfrentado um apagão no começo da semana, justamente quando as temperaturas ultrapassaram os 40ºC na cidade. Embora o aumento do consumo influenciado pelo calor intenso pressione o sistema elétrico, a causa dos cortes na região vai além das altas temperaturas. A raiz do problema, explica a Light, está em cabos subterrâneos de alta tensão que chegaram ao fim de sua vida útil, obrigando a concessionária a realizar uma obra estrutural de grande porte para substituí-los. A intervenção é considerada complexa, com conclusão prevista até o fim de maio. Até lá, não são descartados novos transtornos temporários para os moradores.

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Em entrevista ao GLOBO, o vice-presidente de operações da Light, Vinicius Roriz, afirma que em 2023 a empresa identificou a obsolescência dos cabos de alta tensão instalados na subestação do Cachambi, que atende os oito bairros da região (Méier, Cachambi, Todos os Santos, Maria da Graça, Del Castilho, Engenho de Dentro, Jacarezinho e Benfica). O problema, diz ele, tem semelhanças com o que provocou uma crise energética na Ilha do Governador no ano passado.

— São cabos muito antigos, que já deveriam ter sido substituídos há muito tempo. Fizemos um mapeamento de tudo que era crítico na área de concessão e iniciamos a obra — afirma Roriz.

Enquanto a modernização está em curso, diz ele, foi estabelecido um plano de contingência para suprir o abastecimento local em caso de falha dos cabos atualmente instalados. Foi o que precisou ser acionado entre a noite da última segunda-feira e madrugada de terça-feira. Desde então — e até o fim das obras no Cachambi, em maio — geradores dão suporte à operação da subestação.

— De fato, ainda tem risco de ter desligamento, e a gente entra com a contingência. O que queremos é que essa entrada da contingência ocorra de forma rápida para gerar menos transtorno possível à população — admite Roriz. — Vai ser um transtorno temporário, mas para um benefício permanente — completa.

Detalhes da obra e do plano de contingência

O vice-presidente de operações explica que não há pronta entrega para os cabos novos que vão ser colocados no lugar dos antigos: levam mais de um ano para serem fabricados, o que exige planejamento antecipado. Roriz diz que a encomenda foi feita, os prazos foram negociados com o fornecedor, e a obra começou a ser executada em etapas a partir de 2025. A intervenção inclui a substituição de cerca de dois quilômetros de cabos, além de obras civis para adaptação da rede subterrânea.

— É uma obra bastante completa. Tem escavação, troca de tubulação, preparação de dutos. Quando os cabos chegam, eles passam por dutos que já estão prontos. Os novos equipamentos estão sendo instalados com tecnologia mais moderna e materiais menos atrativos para furto, como o alumínio —afirma ele.

Enquanto segue a obra, argumenta Roriz, o plano de contingência é uma salvaguarda para que a região não fique sem energia. Diferentemente da Ilha do Governador, uma área isolada, ligada ao continente por cabos subaquáticos, o executivo lembra que a subestação do Cachambi tem uma rede mais interligada, o que permite manobras para receber energia de subestações vizinhas.

— No primeiro plano de contingência, a gente restabelece (a energia na região) por meio dessas manobras. Conseguiríamos puxar energia de outras áreas, de outras subestações, para atender aqueles clientes — conta Roriz.

Segundo ele, ao longo de 2025, esse modelo foi suficiente. As falhas eram pontuais, o tempo de recuperação era curto e o impacto para os moradores, limitado. O cenário teria mudado com a chegada do verão e das ondas de calor mais intensas.

— Com esse calor muito grande, a gente sabia que colocar só essa opção de fazer manobras seria insuficiente — disse o vice-presidente de operações da Light.

Por que, então, faltou luz?

Foi nesse contexto que entrou a segunda camada do plano: o uso de geradores dentro da subestação. Esses equipamentos já estavam mobilizados antes dos apagões mais recentes e foram pensados para operar em conjunto com as manobras na rede.

— A ideia era prover uma parte da energia com os geradores e complementar com a energia trazida de outras subestações — explica o executivo.

Em resumo, quando ocorre um novo apagão, a Light tenta primeiro “puxar” energia de bairros vizinhos, redistribuindo a carga pela rede. Esse processo costuma funcionar em dias normais. O problema é que, em períodos de calor extremo, a demanda é tão alta que essa energia extra não dá conta de abastecer tudo. É aí que entram os geradores. Eles não ficam ligados o tempo todo. São acionados apenas depois da falha, e isso leva tempo.

— A identificação do problema é imediata no nosso centro de operações. Mas ligar geradores não é apertar um botão. Eles precisam entrar na mesma frequência da rede elétrica. E, ao mesmo tempo, a gente faz as manobras para alimentar pelos outros bairros — justifica Roriz.

A Light estimava que todo esse processo levaria cerca de três horas. Mas, no episódio mais recente no Cachambi, segundo a concessionária, o tempo necessário foi o dobro. Além disso, depois da energização, a empresa diz que as equipes ainda precisam ir a campo para rearmar transformadores que desarmaram por proteção e corrigir falhas pontuais na rede.

— Calculamos que o tempo que levaria para fazer essa recuperação era em torno de três horas. Mas levou mais tempo do que a gente planejou. Nós aprendemos com essa experiência. No mesmo dia, fizemos uma reunião para entender como acelerar. Esperamos, primeiro, que não aconteça novamente, mas daqui até maio pode acontecer outras vezes. Esperamos poder fazer dentro das três horas, que é o planejado — conta Roriz.

Temperaturas elevadas

O fator calor, que já deixou de ser uma surpresa, no Rio, é decisivo nesse equilíbrio delicado. Em áreas regulares, o consumo costuma aumentar cerca de 25% nos dias mais quentes, segundo a empresa. Já em regiões com alto índice de ligações clandestinas, esse aumento pode mais do que dobrar. Quando a demanda sobe demais, a energia trazida de outras subestações não é suficiente e os geradores precisam entrar em operação.

Mesmo com o reforço, há limites. A subestação do Cachambi tem capacidade para cerca de 20 MVA, o equivalente, em média, ao consumo de 400 mil clientes — embora, na prática, o que importa seja a carga total, não o número de unidades atendidas.

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