RJ em Foco

'Nem os cachorros conseguiam dormir', diz moradora do Méier sobre apagão no dia mais quente do ano

A cidade registrou ontem o terceiro dia com a máxima temperatura entre todas as capitais brasileiras, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia

Agência O Globo - 14/01/2026
'Nem os cachorros conseguiam dormir', diz moradora do Méier sobre apagão no dia mais quente do ano
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Às 13h de terça-feira, um termômetro registrava 35°C no interior de um ônibus sem ar-condicionado, na Zona Norte do Rio. Do lado de fora, o asfalto era abrasador. A medição, feita por uma equipe do GLOBO, expõe mais um dia de calorão no Rio, agravado por falta de luz e transporte público sem climatização. A cidade registrou ontem o terceiro dia com a máxima temperatura entre todas as capitais brasileiras, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia.

Maçarico ligado:

Incêndio no Shopping Tijuca:

A onda de calor que tomou a capital carioca começou no sábado. Desde então, quem está na cidade vem percebendo que nem mesmo durante a noite e a madrugada — períodos que costumam ser mais frescos — o maçarico tem dado uma folga.

Ontem, a máxima chegou a 35,9°C, na Vila Militar, abaixo dos 40,8°C de anteontem. A Climatempo prevê para hoje máxima de 37°C, e não haverá “refresco” até domingo, quando a temperatura mais alta deve ficar em torno de 35°C. Temporais também são esperados no Rio, segundo o meteorologista César Soares, da Climatempo, e as temperaturas devem permanecer altas. O verão promete.

— A gente vai ter um verão acima da média normal. A estação deve se apresentar quente e ainda com muito risco para temporais — informa o meteorologista.

Apagões em oito bairros

Segundo o Centro de Operações e Resiliência (COR) da Prefeitura do Rio, a capital ainda continua no terceiro nível do Protocolo de Calor (Calor 3), que se caracteriza por temperaturas entre 36 e 40 graus por pelo menos três dias consecutivos. Ele está acionado desde as 11h30 de sábado.

Para piorar, moradores da Zona Norte relataram apagões durante a noite de anteontem, justamente no dia mais quente do ano até agora. A queda de energia ocorreu por volta das 21h e atingiu oito bairros: Méier, Cachambi, Todos os Santos, Maria da Graça, Del Castilho, Engenho de Dentro, Jacarezinho e Benfica.

— Passamos a noite toda nos abanando com leques. Nem os cachorros conseguiam dormir — contou Maria Clara Silva, de 27 anos, estudante de farmácia e moradora do Méier.

Segundo ela, a energia começou a oscilar ainda durante o jantar:

— Por volta de 20h30, 21h, a luz foi embora no Cachambi. Pelo que vi nas redes sociais, tinha lugar sem luz desde 19h. Voltou pela primeira vez 2h, ficou 20 minutos, e só voltou de vez por volta das 4h.

No meio da onda de calor, a cena foi de improviso coletivo:

— Isso no dia mais quente do ano. As crianças da vila ficaram todas lá fora, idosos sentados na porta de casa. A gente pegou uma mangueira e ficou se molhando com roupa mesmo — disse Maria.

A falta de energia já vinha sendo registrada em Copacabana e Leme, na Zona Sul, e na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste. Em alguns trechos, geradores fornecidos pela Light estão sendo usados.

A Light informou ontem que o abastecimento estava regular em toda sua área de concessão, em alguns pontos com o uso de geradores.

Sobre a Zona Norte, a concessionária afirma que “a interrupção ocorreu durante obras de modernização da rede subterrânea de alta tensão da Subestação Cachambi, e o restabelecimento ocorreu no começo da manhã (de ontem)”. Mesmo com o suporte de geradores, acrescenta, “o serviço levou mais tempo que o previsto e acabou impactando parte da região”. As obras estão previstas para serem concluídas até o fim de maio. Enquanto estiverem acontecendo, a subestação seguirá com o suporte de geradores.

Na Barra, diz a Light, o apagão é decorrente do furto de cabos. Conforme a empresa, geradores estão garantindo a energia, enquanto os equipamentos são substituídos.

Ainda de acordo com a concessionária, “em ondas de calor o consumo de energia aumenta, em média, 25% em áreas regulares e varia entre 80% e 100% em regiões onde há ligações clandestinas, o provoca sobrecarga”.

Saúde: mais atendimentos

Enquanto isso, nas ruas, o calor segue se impondo. Às 11h de ontem, com os termômetros marcando 33 graus, a fila já dobrava a esquina da Rua Vinte e Quatro de Maio, no Méier. Sem marquise, sombra e ventilação, mais de 60 pessoas aguardavam do lado de fora de um restaurante popular. Leques improvisados, sombrinhas divididas entre desconhecidos e toalhas no pescoço ajudavam a suportar o sol.

De pé à espera do almoço, a aposentada Conceição Dias, de 77 anos, chegou 10h30. Foi de ônibus e diz que o conforto depende da sorte.

— Esses dias estão de muito calor, nem venta — disse ela que levou leque, toalhinha e uma garrafa d’água.

Na Avenida Amaro Cavalcanti, em Piedade, três técnicos trabalhavam na rede de esgoto sob o sol a pino. Boné e óculos eram itens levados por conta própria. A empresa fornece camisa térmica, mas a proteção precisava ir além. O técnico Nilson Sales teve a temperatura corporal medida pelo termômetro do GLOBO: 32 graus, mesmo vestindo a roupa de trabalho.

— A gente já vem equipado para o sol quente, mas está demais — lamenta ele.

O mototaxista Maicon Luiz Carmo, de 37 anos, que há 16 anos circula pela Zona Norte, tem pendurado um copo descartável na sua moto que enche de água sempre que pode para se refrescar. Na tarde de ontem, a temperatura medida dentro do capacete e por baixo da camisa dele marcava 35°C.

— Não tem blusa térmica que aguente. Mas não tem tempo ruim para mim: pego meu copinho e venho trabalhar. E não esqueço o protetor solar — contou.