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Moradores do Chapéu Mangueira e Babilônia participam de estudo para mapear calor extremo dentro de casas da favela

Estudo reúne dados técnicos e relatos do cotidiano e vai analisar a rotina, saúde e a infraestrutura de residências nas favelas cariocas

Agência O Globo - 14/01/2026
Moradores do Chapéu Mangueira e Babilônia participam de estudo para mapear calor extremo dentro de casas da favela
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um projeto internacional que une ciência, tecnologia e vivência cotidiana transformou moradores das comunidades do Chapéu Mangueira e da Babilônia, no Leme, Zona Sul do Rio, em pesquisadores comunitários para mapear o impacto do calor extremo dentro das casas. A medida acontece com a chegada do verão, onde Rio bateu um recorde por dois dias seguidos (domingo e segunda-feira) como a capital mais quente do país, segundo o Instituto de Meteorologia (Inmet).

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A iniciativa é fruto de uma parceria entre a ONG Revolusolar, a Universidade de Utrecht, na Holanda, a Universidade Federal Fluminense (UFF) e o Centro Universitário La Salle (Unilasalle), com financiamento da Organização Holandesa para a Pesquisa Científica (NWO).

Iniciada em julho de 2025, a pesquisa ganha ainda mais relevância após o apagão que atingiu o bairro do Leme entre os dias 3 e 6 de janeiro deste ano, quando moradores das duas comunidades ficaram mais de 36 horas sem energia elétrica — e, em muitos casos, sem água. O episódio expôs como eventos climáticos extremos e falhas de infraestrutura se sobrepõem, afetando de forma desigual diferentes territórios da cidade.

— A ideia é mostrar uma dimensão que costuma ficar invisível nas políticas públicas: o calor sentido dentro das casas das periferias urbanas — afirma Francesca Pilò, professora de planejamento urbano da Universidade de Utrecht e coordenadora da pesquisa.

Sensores dentro das casas e diários de calor

No último sábado, dia 10 de janeiro, sensores de temperatura e umidade começaram a ser instalados em residências das comunidades. Os equipamentos fazem medições a cada dez minutos e permanecem ligados ao longo do verão. Também foram colocados medidores fora das áreas residenciais, para permitir a comparação com dados oficiais da prefeitura, produzidos a partir do protocolo municipal de calor.

Além da coleta automatizada, o projeto aposta na chamada ciência cidadã. Moradores contratados como pesquisadores comunitários passaram por oficinas de formação e ajudam a aplicar questionários e entrevistas. Eles também produzem diários de calor, em que registram, por meio de relatos escritos e áudios, como o calor extremo afeta o cotidiano, a saúde e a rotina doméstica.

— Medir a temperatura é essencial, mas isso precisa estar conectado à vivência das pessoas. O calor não é só um dado físico, é uma condição social, política e infraestrutural — explica Francesca.

A análise técnica envolve o arquiteto Diego Caetano, professor do Unilasalle e especialista em conforto térmico em habitações populares, e o climatologista Eduardo Bulhões, da UFF, responsável por cruzar os dados coletados nas casas com informações de estações meteorológicas oficiais e avaliar os microclimas locais.

O geógrafo Eduardo Bulhões, da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordena a pesquisa que investiga o impacto das ondas de calor em comunidades vulneráveis do Rio de Janeiro. O estudo foca no conceito de "pobreza de resfriamento", que descreve a falta de acesso a recursos como energia, água e infraestrutura adequada para enfrentar as altas temperaturas.

Segundo o pesquisador, as políticas públicas atuais são reativas e falham ao não considerar as especificidades arquitetônicas e geográficas das favelas, onde o calor interno das residências pode superar significativamente as medições oficiais da cidade.

— Do ponto de vista climático, a gente tem experimentado um aumento nas ondas de calor, com uma média de aumento de 5 graus. Isso para quem tem recursos é adaptável, mas em algumas regiões as pessoas não conseguem fugir do calor extremo, o que causa problemas de saúde e convivência. As políticas públicas aparecem apenas em cima de problemas, como o protocolo de "níveis de calor" criado pela prefeitura após o evento em que uma fã morreu no show da Taylor Swift. Esse protocolo, no entanto, não incorpora as diferenças na comunidade — afirmou ao ressaltar:

—É difícil comparar a temperatura da orla com o Chapéu Mangueira ou a Babilônia, pois a estrutura interna das casas não foi planejada. Nossa pesquisa foca no conceito de pobreza de resfriamento, que é a falta de acesso a recursos como energia, água e a própria estrutura da casa. Precisamos entender isso para sugerir políticas públicas mais assertivas.

Calor que não sai de dentro de casa

Na Babilônia, a aposentada Maria Irene do Nascimento, de 73 anos, é uma das participantes da pesquisa. Cearense, ela vive na comunidade há quase 50 anos e há cerca de quatro se mudou para uma pequena casa próxima às filhas. O imóvel tem apenas um quarto e cozinha, com uma única janela voltada para um quintal onde o vento quase não circula.

— É muito quente em qualquer lugar aqui. Você vai para a cozinha, o suor desce. Para cozinhar é um sofrimento. Não tem janela, não tem saída de ar — relata.

Sem estrutura elétrica para receber um ar-condicionado, Maria Irene depende de um ventilador e, nos dias mais quentes, dorme em uma rede, que considera mais fresca do que a cama. Hipertensa, ela diz que o calor intenso dificulta até tarefas simples, como ir à clínica da família ou sair para compromissos religiosos.

— Quando a luz acaba, aí é banho e rede. Já cheguei a deitar com a roupa molhada para tentar refrescar. A gente vai se virando como dá — conta.

— Subir e descer escada no morro com esse calor é muito difícil. Chego em casa e a primeira coisa é ligar o ventilador. Senão não dá nem para ficar.

Moradora da Babilônia há 33 anos, a assistente social Monique Rocha, de 45, é uma das participantes da pesquisa e também uma das articuladoras locais do projeto. Ela vive na comunidade há nove anos e mora com o filho Vanderson, de 20, que é autista. Para Monique, a instalação dos sensores trouxe algo que antes era apenas percepção. Ontem, a temperatura chegou a marcar 40 graus na casa dela e hoje já passava dos 31 graus.

— Com o medidor, passei a ter noção da temperatura da minha casa. Antes, era só o que eu sentia. Muitas vezes eu preferia ficar na rua do que dentro de casa, porque aqui vira uma sauna. Recebo sol o dia inteiro — relata.

A casa de dois cômodos tem estrutura simples, com telhado de alumínio, com forro de PVC e poucas janelas, o que intensifica a sensação térmica. O calor, diz Monique, afeta diretamente sua saúde e a rotina do filho.

— Tenho tumores na cabeça, e o calor me provoca mais enxaquecas. Meu filho odeia calor. Ele sai para a faculdade e para o estágio, mas passa muito tempo dentro de casa. E justamente a casa, que deveria ser um lugar de conforto, não é — diz.

Durante o apagão que atingiu o Leme no início de janeiro, a situação se agravou. Sem energia, água ou internet, Monique decidiu sair de casa para proteger o filho.

— Ficamos sem luz, sem água. Parecia que a gente tinha voltado no tempo. Eu não dormi em casa naquele dia. Fui para a casa de uma amiga. Só no domingo, com a chuva, é que melhorou um pouco — conta. Ela destaca que a interrupção no fornecimento de serviços básicos não é um episódio isolado, especialmente no caso da água, que depende do funcionamento das bombas elétricas.

— A falta de água é frequente. E quando falta energia, automaticamente falta água. Isso afeta todo o cotidiano, não só o meu, mas da comunidade inteira — afirma.

Para Monique, a pesquisa tem um papel central ao transformar vivências em dados capazes de embasar políticas públicas.

— Quando a gente coleta informações de várias pessoas, entende o quanto isso afeta o cotidiano de todos. E aí é possível fomentar políticas públicas para dentro da comunidade, com outro olhar — defende.

Apagão, perdas e desigualdade

Para o guia de turismo Dinei Medina, de 45 anos, morador do Chapéu Mangueira desde que nasceu, o calor extremo escancara desigualdades históricas.

— No ano passado, tivemos sensação térmica de quase 60 graus. As casas da favela não são adaptadas para isso. A gente constrói na urgência, para botar a família dentro — afirma.

Durante o apagão da semana passada, ele lembra que moradores ficaram três dias sem luz, enquanto prédios da orla operavam com geradores.

— Teve gente que perdeu remédio, comida, eletrodoméstico. Insulina precisa ficar refrigerada. E depois ainda vem a desconfiança, dizendo que morador de favela está no gato. Enquanto isso, áreas ricas seguem funcionando com gerador — critica.

Dinei defende que o debate vá além de medidas emergenciais, como bebedouros, e inclua políticas públicas de reestruturação das moradias e da infraestrutura urbana.

— Se não adaptar as casas, o problema vai continuar. O calor vai aumentar, a rede não vai aguentar e a desigualdade só cresce.

Justiça térmica e políticas públicas

Segundo os pesquisadores, um dos objetivos centrais do projeto é contribuir para o debate sobre justiça térmica — conceito que relaciona clima, desigualdade social e acesso a infraestrutura. A pesquisa busca preencher lacunas deixadas pelas medições oficiais, que ainda são pouco granulares e não captam o que acontece dentro das residências.

— A casa é o lugar de descanso, de cuidado, onde as pessoas passam grande parte do tempo. E ela quase nunca entra no debate climático — observa Francesca.

Os primeiros resultados integrados da pesquisa devem ser divulgados em junho. A expectativa é que os dados quantitativos, os questionários e os diários de calor sirvam de base para orientar ações do poder público, fortalecer soluções comunitárias e ampliar a discussão sobre o direito ao conforto térmico nas áreas mais vulneráveis da cidade.

— A ideia é que essa metodologia possa ser replicada em outras favelas e ajude a pensar políticas mais integradas, que considerem energia, água, arborização e habitação como partes de um mesmo problema — conclui a pesquisadora.