Política

Flávio apaga posts em que criticava Bolsa Família e chamava benefício de 'bolsa-farelo'

Mudanças de postura nas redes sociais levantam questionamentos sobre posicionamento do candidato.

Estadao Conteudo 19/10/2026
Flávio apaga posts em que criticava Bolsa Família e chamava benefício de 'bolsa-farelo'
Flávio Bolsonaro - Foto: © AP Photo / Eraldo Peres

O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) excluiu de sua conta no X (o antigo Twitter) publicações em que criticava o Bolsa Família e chamava o benefício social de "bolsa-farelo".

Ele também utilizou o termo para se referir ao programa Renda Melhor, criado pelo governo do Rio de Janeiro em 2011. À época, a iniciativa pagava um benefício adicional de até R$ 300 para as famílias que já recebiam Bolsa Família, com o objetivo de combater a extrema pobreza.

"Fui o único voto contra na @alerj ao projeto Renda Melhor, que chamei de 'bolsa-farelo', pelo seu caráter clientelista eleitoral", escreveu o então deputado estadual Flávio Bolsonaro em resposta ao perfil do jornalista Ancelmo Gois no Twitter, no dia 24 de novembro de 2011. A publicação podia ser conferida neste link, mas não está mais disponível.

O Estadão questionou a campanha de Flávio Bolsonaro sobre o motivo dos posts terem sido excluídos, mas não houve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

A exclusão de posts só foi constatada porque, em junho deste ano, o Estadão fez o download de todas as publicações de Flávio Bolsonaro no X. A planilha contém o texto, a data e o horário em que cada post foi feito, assim como os links para as postagens originais na plataforma. Na ocasião, o material serviu de base para uma reportagem que mostrou como o candidato mudou de posicionamento em relação ao Bolsa Família nos últimos anos.

Na época, ao ser procurado, Flávio negou que tivesse mudado de posição. Em um vídeo publicado no Instagram nesta segunda-feira, ele disse que quem recebe o Bolsa Família pode ficar "tranquilo", pois o "benefício está garantido".

Todas as publicações citadas na reportagem publicada há quatro meses foram apagadas da conta de Flávio no X. Entre elas, está uma postagem de junho de 2013 em que o senador afirmava que o PT "perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos".

No ano seguinte, em referência à comissão responsável por investigar violações de direitos humanos durante a ditadura militar, Flávio escreveu:

"#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família". A publicação também foi excluída.

Uma outra publicação feita em 2014 também foi excluída. Nela, Flávio questionava a metodologia para calcular a taxa de desemprego no Brasil. "Os milhões que recebem bolsa-família ou auxílio-desemprego, não procuram emprego. Para o PT, estão empregados", afirmou ele.

Anos antes, em 2011, o senador já havia criticado o PT por costurar um acordo com a oposição para aprovar um reajuste do auxílio, resumindo a iniciativa como "financiamento público de campanha do PT", em outra publicação apagada.

No caso do Renda Melhor, Flávio fez cinco publicações sobre a aprovação do projeto em novembro de 2011. Em todas elas, se referiu ao programa como "bolsa-farelo". "Fiz emendas ao projeto, que foram rejeitadas, para limitar em 2 anos o tempo para a pessoa receber o bolsa-farelo", escreveu ele, sempre mencionando o perfil de Ancelmo Gois.

"Se houvesse o limite de tempo para a pessoa receber o bolsa-farelo poderia até ser favorável…", acrescentou na publicação seguinte.

Candidato do PL propõe regra de transição para o Bolsa Família

O prazo de dois anos citado por Flávio em 2011 voltou ao debate público nesta segunda-feira, mas de uma forma diferente. A coordenadora econômica da campanha do senador, Daniella Marques, disse em entrevista à CBN Bahia que um eventual governo Flávio pretende implementar uma regra de transição de dois anos no Bolsa Família, para que os beneficiários abram seus negócios ou aceitem empregos de carteira assinada, com retorno automático ao benefício, caso não consigam oportunidades.

"As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família; aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada, e todo mundo merece sonhar com mais oportunidade, mais dignidade. É justamente nisso que a gente quer focar, esse é o coração do plano do Flávio", afirmou Marques.

Após a entrevista, perfis do PT e de apoiadores do presidente Lula começaram a divulgar nas redes sociais que Flávio pretendia desligar beneficiários do Bolsa Família após dois anos. Com a repercussão das publicações, Daniella gravou um vídeo desmentindo a informação, explicando sua fala anterior. Já o senador acusou a esquerda de espalhar mentiras.

"A sua família hoje se aumentar a renda ou aceitar um emprego de carteira assinada, com o Lula mantém o Bolsa Família só por um ano. Com o Flávio, vai manter por dois anos. Com o Lula o retorno é em até 36 meses. Com o Flávio, seu retorno ao programa é automático", afirmou Daniella Marques.