Política

Como identificar uma informação falsa quando ela parece convincente?

Com vídeos gerados por IA cada vez mais realistas, conceitos de lógica, gramática e retórica podem ajudar a analisar conteúdos antes de compartilhar

Bárbara Correa Assessora de imprensa 06/10/2026
Como identificar uma informação falsa quando ela parece convincente?
Como identificar uma informação falsa quando ela parece convincente?

Uma imagem parece verdadeira, um vídeo reproduz perfeitamente a voz de uma pessoa conhecida e uma mensagem chega acompanhada de uma explicação que parece fazer sentido. Nas redes sociais, reconhecer o que é confiável nem sempre depende apenas de perceber uma montagem evidente.

O problema ganhou novas dimensões nas eleições de 2026. Um levantamento do Observatório IA nas Eleições identificou 413 conteúdos políticos produzidos com inteligência artificial entre janeiro e agosto deste ano. Cerca de 40% foram classificados como desinformação e 81% dos casos envolviam manipulação de imagens ou vozes de pessoas públicas.

Nesse ambiente, algumas ferramentas de análise apresentadas há séculos continuam úteis. O Trivium, de Irmã Miriam Joseph, recupera três das chamadas artes liberais, gramática, lógica e retórica, e resgata conceitos relacionados à construção de argumentos, ao uso da linguagem e à organização do pensamento.

Aplicados à rotina digital, eles podem ajudar a verificar informações antes de aceitá-las como verdadeira. Confira algumas dicas:

Preste atenção às palavras usadas
A primeira etapa é entender o que está sendo afirmado. Uma mensagem pode utilizar termos vagos, exageros ou palavras que despertam uma reação emocional antes mesmo de trazer um dado verificável.

Pergunte: qual é a afirmação principal? O que exatamente está sendo dito? Há algo de concreto que possa ser conferida? A partir disso, é mais fácil reconhecer e averiguar a veracidade dos fatos.

Procure a estrutura do argumento
Uma conclusão não se torna verdadeira apenas porque vem acompanhada de uma explicação. A lógica ajuda a observar se as informações realmente sustentam aquilo que o autor está afirmando.

Uma pergunta simples pode ajudar: as evidências levam necessariamente a essa conclusão ou existe um salto entre uma coisa e outra?

Também vale notar generalizações. Um caso individual, por exemplo, não é suficiente para provar que determinado comportamento ocorre com todas as pessoas.

Desconfie de argumentos que tentam vencer pela emoção
A retórica estuda os recursos utilizados para construir discursos persuasivos. Isso não significa que todo conteúdo convincente seja falso, mas ajuda a perceber quando a forma de apresentação está ocupando o lugar das evidências.

Urgência, indignação, medo e sensação de pertencimento podem fazer uma pessoa compartilhar uma mensagem antes de verificar sua origem. Se o conteúdo provoca uma reação imediata, pode ser útil analisar o que está sendo compartilhado.

Separe quem fala do que está sendo dito
Uma pessoa conhecida, um perfil com muitos seguidores ou uma publicação que parece profissional não são, por si só, garantias de que a informação esteja correta.

Vale perguntar: quem publicou? De onde veio essa publicação? Existe uma fonte identificável? Outras fontes confiáveis trazem os mesmos dados?

O Guia Internet, Democracia e Eleições lançado em setembro de 2026 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) também chama atenção para a circulação de conteúdos em diferentes plataformas e para o papel dos sistemas de recomendação naquilo que chega aos usuários.

Procure informações que possam contrariar sua primeira impressão
Um dos obstáculos para avaliar a veracidade é a tendência de aceitar com mais facilidade aquilo que confirma uma opinião já formada. O guia do CGI.br relaciona esse comportamento à chamada racionalidade motivada: dados que contradizem crenças pessoais podem ser descartados com mais facilidade.

Por isso, antes de compartilhar aquilo que você já acredita, vale fazer o movimento contrário: o que poderia mostrar que essa afirmação está errada?

Não confunda aparência de verdade com evidência
Um vídeo realista, uma fotografia convincente ou um texto bem escrito podem ser produzidos ou manipulados com ferramentas digitais. O TSE, por exemplo, estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial nas eleições e definiu o conceito de deepfake para materiais que alteram, com alto grau de realismo, a imagem ou a voz de pessoas.

A qualidade da apresentação, portanto, não substitui a verificação do conteúdo.